terça-feira, 26 de abril de 2011

Últimas do orfanato

Celebrou-se no passado dia 14 de abril o novo ano nepalês. Estamos no ano 2068. O ‘nosso’ mês de abril (aqui têm outras contagens e designações) corresponde aqui sensivelmente às férias escolares que agora findam. Fazem-se balanços, preparativos.
Eu vi-me metida em assuntos de polícia por causa do tal falso website. Uma experiência que não me apetece repetir.
Visitei várias vezes os miúdos no orfanato, saímos para caminhadas e brincadeiras junto ao lago, vieram lanchar ao meu hotel.
Quando cheguei este ano fui informada de que um dos rapazes tinha desaparecido. Ou alguém o foi buscar à escola ou voltou à vida de rua. Em vez dele encontrei cá o pequeno ‘Filémon’, alcunha que lhe foi atribuída para se distinguir do homónimo Raju já existente. Logo depois chegou o Santosh e entretanto a Santy e o Lajras. São agora treze crianças. O orfanato tem dificuldades mas não consegue resistir aos pedidos insistentes de familiares ou conhecidos para acolher estes miúdos que, de outro modo, viveriam praticamente abandonados.
Foi também tempo de preparar a tal ‘singela homenagem’. Não quero entrar em pormenores, respeito a discrição que muitos me pediram. Mas espero que cada um dos que anuíram ao meu pedido de ajuda se reconheça nas imagens. Uma forma de vos ‘trazer’ até aqui.
Mesmo os mais novos fizeram questão de participar. Penso que Portugal ficará positivamente gravado nas suas memórias.
Tratam-se de amigos meus e amigos do meu irmão. Pessoas que de alguma forma eu conheço. Já nem menciono os meus pais, os meus pilares continuamente presentes. A única pessoa que desconheço é a Rita B. que aqui refiro em especial por não ter qualquer contacto para lhe agradecer de outro modo.
Que as fotos modestamente expressem o nosso sentido obrigado.
Ontem mesmo fui buscá-los ao orfanato e acompanhei-os à escola. Foi o primeiro dia de aulas do novo ano escolar.
As crianças passavam ordeiramente pelos portões do estabelecimento e dispunham-se em filas para os habituais exercícios e rituais matinais antes de entrarem nas salas de aula.
Na presença da Jyoti falei novamente com o diretor e o vice-diretor desta escola. Como no Nepal tudo se negoceia, fizeram um substancial desconto na dívida que deu para pagar este primeiro mês do novo ano escolar.
Estas são, pois, notícias frescas. Estive só à espera da luz para as publicar. Mas tenho ainda algo a dizer: O dinheiro que enviaram ‘esticou’ e deu para mais. Os meus dias continuam cheios e azafamados. Tenho andado, literalmente, a repartir não o mal mas o bem, pelas aldeias.
Mais novidades em breve.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Donativos

Infelizmente há quem se aproveite dos orfanatos. Infelizmente muitas vezes são estrangeiros que tiram partido de conhecimentos tecnológicos e outros que os nepaleses, na maioria das vezes, não têm. Tentei ser criteriosa quando escolhi este orfanato o ano passado. Sabia que era apenas gerido por nepaleses que trabalham em regime de voluntariado e que era dos mais necessitados.
Em 2009 uma voluntária australiana trabalhou aqui 3 meses. Teve, ao que parece, o tempo e a oportunidade de ‘magicar’ um plano. Associou-se com parceiros nepaleses, ‘pegou’ nalgumas crianças que até têm pais, construiu um website e montou o negócio. Eu descobri este website o ano passado mas levei algum tempo a compreender toda a situação e quem dela tirava partido. Só agora as coisas ficaram completamente esclarecidas. Foram conversas com o diretor da escola e reuniões com os membros do comité de direção do orfanato. E investiguei.
Essa voluntária comprometeu-se a angariar fundos para pagar as despesas escolares das crianças em 2010. Pagou apenas os primeiros 3 meses. A dívida do orfanato em relação ao ano passado ronda os 700 euros. E enquanto não for paga os miúdos não poderão voltar a frequentar esta mesma escola.
O tal website continua ativo. Tem o nome deste orfanato e as fotos destas crianças. O negócio deve estar a correr bem porque além de um hotel compraram um autocarro. Telefonei para lá fazendo-me passar por voluntária. Sabemos agora de quem se tratam estas pessoas e onde estão. Estamos a tentar, junto das autoridades competentes, empreender todos os esforços para que este falso website seja retirado da web. Ir-vos-ei dando notícias na medida do possível e tendo em conta que presentemente no Nepal os cortes de energia são diários e por mais de dez horas (E já é uma sorte quando não são simultâneos com a falta de água…)
Apenas difere do atual e verdadeiro website, que aqui deixei anteriormente, na terminação (.com em vez de .org). A Mina, uma voluntária nepalesa, está a construí-lo aos poucos à medida que vai estudando o assunto no curso que frequenta. Lamento não poder ajudá-la mas também não sei fazer websites. Fico-me pelo blog.
Quando o abrimos aparece agora uma ´página de despiste’ dizendo que está em construção. Mas clicando em ‘News’ aparece toda a anterior informação que eu descobrira e onde deixei um comentário. A partir daí acedemos às páginas onde os voluntários se inscrevem e àquelas em que se pedem donativos, avultados, para as propinas escolares das crianças e até para pagar salários de tutores que não existem. E é sempre este website que aparece em primeiro plano quando fazemos a busca ‘Everest Children Home’.
Para as despesas do dia a dia o orfanato vai contando com a ajuda de voluntários. Quando cheguei estava cá a Charlotte, inglesa, e entretanto chegou o Alexandro, holandês. Também há quem apareça, através de voluntários que passam palavra, simplesmente para oferecer alguma comida. Ou que lá levo, como foi o caso da Tone, norueguesa.
Mas a Jyoti queixa-se que por vezes mal tem dinheiro para comprar o arroz ou variar o ‘tarkari’ (refogado de vegetais) que acompanha o dal bhat. E quando a Jyoti se queixa eu acredito.
Acredito também que quando aceitamos navegar o fluxo mágico da vida, ele nos leva aos portos certos. Onde nos esperam as pessoas certas. A minha viagem há muito que deixou de ser incógnita. Foi aqui que ela me trouxe. Estou onde devo estar. E os meus dias são plenos, intensos. Grandes.
O fluxo mágico trouxe-me, o ano passado, a Wildes, uma brasileira que vive em Pokhara. Através dela veio agora o Francis, francês. Juntos visitámos o afilhado que ele apadrinha desde os cinco anos. Foi a primeira vez que se viram. E nós só nos vimos uma vez. Todos juntos visitámos em seguida ‘o meu’ orfanato. O Francis contribuiu na hora.
A minha meta, primordial e urgente, era conseguir o dinheiro para pagar a dívida da escola. Possibilitar que as crianças a continuem a frequentar. Depois logo se vê. Seguimos em frente confiando. Que os risos e a alegria contagiante destas crianças nos tragam os meios e o engenho para navegar obstáculos. Meus amigos, tenho isto para vos dizer:
Esta meta foi atingida!
Também nós nos cruzámos nesse fluxo, nalgum momento, nalgum lugar, de algum modo, por alguma razão. Que bom saber-vos, aí ou aqui. Não importa. Podem estar longe mas senti-vos perto. Porque não há distância na dimensão que nos une.
A todos quantos até aqui me ajudaram a ajudar, um xi-coração do tamanho dos Himalaias. Namastê!