terça-feira, 20 de setembro de 2011

TIMOR-LESTE

Que estranha e reconfortante sensação esta de ainda irmos no ar e, quanto mais nos afastamos para leste, mais sentimos um 'cheirinho a casa'. Lá vinha no avião o Domingos Magalhães com o seu boné de Portugal e, no albergue onde me hospedei em Díli nos primeiros três dias, a Rita recebeu-me falando em português...
No instante da chegada à Backpackers conheci o Ian, um aventureiro motoqueiro australiano, que me brindou com um copo de vinho da Herdade do Esporão e, nessa mesma noite, reencontrei-me com a Zélia que eu conhecera há cerca de 5 anos em Portugal. Soubemos no último minuto que estaríamos em Timor pela mesma altura, razão pela qual antecipei três dias a minha vinda já que ela regressaria a Portugal nesse espaço de tempo. Não poderia perder a possibilidade de um encontro memorável que há muito se previa em terras asiáticas mas em que o destino Timor nunca fora sequer imaginado...
Encontrei-me várias vezes com ela e os seus colegas de trabalho para jantar, tomar café no Hotel Timor, conversar, passear noite ou dia pelas ruas de Díli, fossem esses encontros planeados ou não...
Tal como aconteceu inesperadamente na visita à Sala de Leitura de Xanana Gusmão. A equipa de trabalho em que a Zélia veio inserida está ligada à Universidade de Aveiro e dedica-se à pesquisa e recolha de informação para a elaboração de manuais escolares em Língua Portuguesa ao nível do 10º ao 12º ano, já que até aqui os existentes são ainda do tempo da Indonésia...
Praia do Cristo-Rei
A pé, de táxi ou na 'mota-cavalo' do Ian visitei os vários pontos de interesse da cidade.
Uma cidade em que Portugal se respira, mais do que eu calculava. Não só pelos edifícios do tempo colonial ou os produtos à venda nas ruas e supermercados, mas também pela quantidade de pessoas que neste momento frequentam variados cursos em Língua Portuguesa, uma das línguas oficiais de Timor, para além do Tétum. Como venho de outros países da Ásia, ainda trazia a tendência de falar inglês com os locais. Mas aqui, de preferência, é o português que se fala e se ouve, ainda que 'arranhado'!
Díli
Estátua de Fátima
Cemitério de Santa Cruz
O cemitério foi palco do massacre perpetrado em novembro de 1991 pelo exército indonésio que disparou sobre manifestantes que homenageavam um estudante morto pela repressão.
Catedral da Imaculada Conceição
Igreja de Balide e Igreja de Motael
Rotunda do Relógio e Homenagem ao engenheiro Artur do Canto Rezende "morto na prisão em Calabai Alor a 23 de fevereiro de 1945 vítima do seu patriotismo e heroica abnegação".
Casa Europa e Embaixada de Portugal
Monumento ao Infante D. Henrique em frente ao Palácio do Governo e Hotel Timor
O primeiro contato europeu com a ilha foi feito pelos portugueses quando estes lá chegaram em 1512 em busca do sândalo. Foi colónia portuguesa até 1975, altura em que se tornou independente, tendo sido invadido pela Indonésia dias depois. Conflitos constantes destruíram a maioria das infraestruturas e devastaram o país. Só em 2002 Timor-Leste se tornou totalmente independente com a consagração de Xanana Gusmão como o novo presidente timorense. Atualmente ocupa o cargo de primeiro-ministro tendo sido José Ramos Horta eleito Presidente da República em 2007. Timor-Leste é um dos países mais jovens do mundo.
Marginal com vista para a Ilha de Ataúro ao fundo
Um dos acontecimentos do ano: o Tour de Timor, volta à ilha em bicicleta, que decorreu de 11 a 16 de setembro. Conheci alguns participantes e voluntários no albergue.
Aliás, a minha estada em Timor foi um feliz corropio de encontros sucessivos e simultâneos! Entre os viajantes como eu hospedados na Backpackers, a comunidade local que eu contactei no CS ou conheci in loco e os portugueses que por todo o lado deambulam em Timor, sejam eles professores, militares ou envolvidos em projetos e organizações.
Foi o caso do Alipio, um jovem e dinâmico timorense que representa o seu país em diversas conferências internacionais da juventude, que se encontrou comigo na Backpackers onde conheceu o Ian, o Andras e a Meg, enfermeira voluntária em Díli, também australiana. Um encontro que deu frutos com a contribuição do Ian e da Meg para ajuda do Centro de Informática de apoio à comunidade local que o Alipio implementa.
Num dos jantares conhecemos a namorada do Alipio, a Elisa, que trabalha na Fundação Alola, uma organização não-governamental fundada pela esposa australiana de Xanana Gusmão e que visa a  melhoria de vida de mulheres e crianças em Timor.
Com o Ian e o seu amigo Andras, outro motoqueiro, da Hungria, partilhei imensas refeições em restaurantes ou locais típicos como este, nas praias de Díli.
Na microlete (transporte público), conheci a Manuela com quem percorri o Mercado Halé Laran. Também ela, estudante num curso de Língua Portuguesa, se mostrou entusiasmada por poder praticar um pouco a língua.
Mercado Halé Laran
Não há balanças no mercado, os produtos são vendidos 'aos montinhos'...
Perto deste mercado mora a Filipa, uma portuguesa missionária da ONG Leigos para o Desenvolvimento, perfeitamente moldada para este tipo de desígnio, com anterior experiência em Moçambique, que me acolheu de braços abertos até final da minha estada em Díli.
É diretora do infantário que funciona ao lado da casa e desenvolve Projetos de Trabalhos Manuais como a criação de presépios com materiais típicos que garantem a sustentabilidade da pré-escola Sto Inácio e que conta com a colaboração das mães das crianças.
Com ela mora também a Graça, professora-veterinária na Universidade de Díli, com quem visitei, entre outros, o Mercado dos Tais, tecidos tradicionais coloridos, que eu já havia visitado na minha primeira noite na capital com a Zélia.
Mas continuei a encontrar-me com o Ian e o Andras que me proporcionaram uma série de visitas ao interior e litoral do país, possibilidade das quais eu não teria se estivesse 'por minha conta' já que os acessos a determinadas zonas são limitadas e difíceis. Fizeram também eles parte dos 'anjos' que me aparecem nesta viagem e que, até aqui, me têm mimado e protegido... Thanks so much, Ian and Andras!
Na 'mota-cavalo' lá vamos montanha acima apreciando ao longe a baía de Díli. Fazemos a primeira paragem em Dare para visitar o pequeno museu ao ar livre. O Memorial de Dare celebra a memória do esforço conjunto entre timorenses e australianos contra a ocupação japonesa de Timor-Leste, durante a Segunda Guerra Mundial.
No caminho visito uma casa típica timorense em que o senhor fala comigo, orgulhosamente, o português. É inexplicável a sensação face a este carinho demonstrado pela nossa 'língua-pátria', em terras tão distantes...
Aileu
Monumento ao massacre de cidadãos portugueses locais pelos invasores japoneses em 1942.
Por estradas umas melhores outras piores continuamos a nossa visita a terras mais altas do interior a sul de Díli.
Ermera
Depois seguimos pela estrada litoral a este de Díli, em direção a Baucau.
Avistando belíssimas praias de areal branco e visitando memoriais aos heróis nacionais.
Metinaro
Por entre pontes construídas no período indonésio vislumbramos fortalezas construídas pelos portugueses.
Cruzamo-nos constantemente com jipes das Nações Unidas, uma forte presença num país em desenvolvimento e que muito têm contribuído para a subida do custo de vida em Timor. Fiquei surpresa e 'chocada' com os preços praticados em alojamentos, refeições, etc.! Em Timor circula o dólar americano e é um dos países mais caros que já visitei no sudeste asiático, acho que logo a seguir a Singapura...
Laleia
A 'mota-cavalo' do Ian atraía os olhares em todo o lado...
Baucau
O imponente e degradado Mercado de Baucau
Igreja e pavilhão em estilo Fataluku
Mas em Baucau foi a mota do Andras que atraiu todas as atenções! Um incidente quase surrealista felizmente sem consequências de maior. Ele não se aleijou e a mota, depois de escorridinha, lá voltou a pegar. E a aguinha sempre era limpinha e fresca...
À noite, o encontro no restaurante Amália já por mim planeado com o Dario, um voluntário das Nações Unidas oriundo das Honduras, e ao mesmo tempo inesperado com elementos de outras organizações, incluindo dois portugueses macaenses que trabalham sobre questões de agricultura e ambiente. A namorada do Dario, alemã, vai em breve visitar o Nepal.
A antiga alfândega portuguesa na praia de Baucau
Fazemo-nos de novo à estrada rumando a Manatuto. Daqui partimos para o interior sul.
Portugal no coração...
Laclubar
Regressamos a Manatuto mesmo a tempo da sessão de cinema, integrada no programa de animação do Tour de Timor: As Crónicas de Nárnia.
Reencontramo-nos com um belga que conhecêramos na Backpackers e que viaja mundo fora em bicicleta há oito anos. Vai finalmente regressar a casa em breve.
Manatuto
Ficámos hospedados nas casas da paróquia, onde o padre de boa vontade me acolheu. Foi o sítio mais barato que encontrei depois de ter palmilhado a terra. É que eu não posso comparar o meu 'poder de compra' com os australianos... E pirámo-nos dali manhã cedo, de regresso a Díli, antes que fechassem a estrada para a passagem do Tour em bicicleta.
No sábado passado meti-me no ferry e fui visitar a Ilha de Ataúro, uma pequena ilha situada a aproximadamente 25 km ao norte de Díli, com cerca de 25 km de extensão por 9 km de largura. Foi lá que se refugiou o governador português em 1975.
Uma ilha de águas azuis cristalinas ideais para mergulho e snorkeling.
Beloi
Na motorizada com atrelado fui visitar a próxima localidade, Vila. Para além das Bonecas de Ataúro, uma loja de artesanato local e da Escola Primária, pouco mais há para ver. Aproveito para 'tirar o meu chapéu' aos professores portugueses 'desterrados' nesta e noutras localidades remotas de Timor...
À saída do ferry, de regresso a Díli, ainda presenciei o arranque do concerto inaugural D'Tour, um novo intercâmbio cultural anual entre a Austrália e Timor-Leste. Ontem despedi-me de Timor, desta feita com a Merpati.