domingo, 24 de junho de 2012

Circuito do Annapurna

E para fugir à chuva da monção e aliviar o espírito de alguma tensão, nada melhor que metermo-nos num autocarro 'amoroso' e partir rumo a um sonho por cumprir no Nepal: completar o circuito dos Annapurnas que já havia começado em 2010.
De Besi Sahar, no distrito de Lamjung, às margens do rio Marsyangdi Nadi, continuamos de jipe pelo que há de 'estrada', registamos a entrada no Annapurna Conservation Area em Bhulbhule e passamos a primeira noite em Chyamche, a 1430m de altitude.
Daí continuamos a pé, eu e o meu 'porter', apreciando cascatas de água límpida e rios de água negra, até à pequena localidade de Tal, onde almoçamos. Estamos já no distrito de Manang onde agora se envidam esforços para continuar a abertura de estrada através de uma zona até aqui só acessível a pé ou pelo ar. Talvez para o ano seja já possível visitar Manang de outra forma, para desfeita dos adeptos de trekking...
Tal
Portanto, a partir de Tal, tudo é transportado às costas ou no dorso de animais, sendo os cavalos e os burros um bem precioso para estas gentes que aqui nunca viram um carro ou trator a passar...
E nós cruzamo-nos constantemente com as manadas, por sinal bem giras e 'vestidas' a rigor.
Depois de umas 6 ou 7 horas de caminhada, desde Chyamche, chegamos a Timang, uma pequena aldeia a 2750m, onde pernoitamos. No dia seguinte continuamos cedo a nossa subida em altitude, que vai acompanhando o leito do Marsyangdi Nadi.
 Timang
Conhecemos outros companheiros de trekking e atravessamos planaltos cultivados onde o povo vai labutando nas suas tarefas diárias.
Almoçamos em Chame e continuamos a longa caminhada até Pisang.

As gentes de Manang são chamadas Manang Bas e as suas ocupações principais incluem o comércio e negócios. Têm a sua própria língua e escrita e são seguidores do budismo ou do Bon-Po, anterior ao reino de Bhuddha. Celebram o Lhosar, Ano Novo, no mês de fevereiro e, segundo o seu calendário lunar, encontram-se agora no ano de 2139, ano tibetano.
E deparamo-nos constantemente com símbolos indicadores da religião budista: Moinhos e rodas de oração, chortens, stupas, templos, bandeiras de oração e pedras mani com inscrições sagradas antigas.
Rio Marsyangdi Nadi
Em vários pontos do percurso continuamos a constatar o árduo trabalho de rompimento de um eixo rodoviário através destas escarpas rochosas e abruptas.
 Pisang
E chegamos finalmente a Pisang, a 3200m, um total de 7 ou 8 horas de caminhada neste terceiro dia de viagem e segundo de trekking. Aqui as distâncias medem-se em horas e não em quilómetros já que o que está em causa é a altitude...
No quarto dia deslocamo-nos de Pisang até Bhraka que alcançamos ao fim de umas 4 ou 5 horas de caminhada. Deixamos para trás o formoso Pisang Peak , com 6091m, ao lado direito situam-se os picos Chulu com mais de 6400m e surgem-nos à esquerda os picos nevados da cadeia Annapurna, nomeadamente o Annapurna II com 7937m, o Annapurna IV com 7525m e o Annapurna III com 7555m de altitude.
Passamos por Humde onde se situa um pequeno aeroporto, um dos mais altos do mundo, que faz a ligação aérea de Manang a outras localidades, através de pequenas avionetas ou helicópteros.
Cruzamo-nos com as gentes locais que carregam às costas os seus fardos e com outros viajantes e companheiros de trekking, muito poucos nesta altura do ano, também carregados. E chegamos a Bhraka, a 3440m, onde pousamos, o porter e eu, as nossas pequenas mochilas num hotel.
A partir de Bhraka eu já estava decidida a visitar a Gruta de Milarepa que se alcança após duas ou mais horas de acentuada e extenuante subida. Fica a 4000m de altitude na base do Annapurna III.
Milarepa era um monge asceta tibetano, e também poeta, que viveu no século XI e aqui passou parte de sua vida meditando. Um caçador chamado Gompa Dorjee, que a princípio tentou matá-lo, foi altamente influenciado pelos seus ensinamentos e tornou-se seu discípulo. Ao lado da gruta há uma 'gompa', um pequeno mosteiro, onde vive um simpático lama que nos mostrou o local.
E tornamos a descer a íngreme colina para regressar a Bhraka.
 Bhraka
No quinto dia percorremos uma pequena distância de Bhraka até à vila de Manang, onde nos hospedamos para descansar e aclimatisar à altitude, como mandam as regras.
Trepamos à stupa altaneira de onde se avistam as majestosas montanhas nevadas bem como a vila e o lago de Manang alimentado pelo glaciar do pico Ganggapurna.
Manang
Dia seis: Partimos de Manang, situada a 3540m, em direção a Yak Kharka e Ledar, a 4200m, onde a princípio pensamos pernoitar, tal como o fizeram os três jovens companheiros mexicanos com quem várias vezes nos cruzámos. Mas a partir daí nunca mais os vi...
Alcançámos Ledar em cerca de cinco horas e aqui parámos para almoçar. Uma vez que nem um nem outro, eu e o meu diligente porter, sentia qualquer transtorno ou 'mal de montanha', decidimos continuar a nossa caminhada contemplando aquelas inspiradoras e magníficas paisagens do reino dos Himalaias.
Até que chegamos a um ponto em que a paisagem se torna muito mais deserta e inóspita e os rios muito mais negros e violentos.
Com mais duas horas e meia de caminho, chegamos a Thorung Phedi, localidade a 4450m de altitude, rodeada por altas escarpas castanhas e cinzentas, xistos e outras pedras que rolam encosta abaixo e jatos de água escura que jorram daquelas frinchas.
Thorung Phedi
E foi a noite em que choveu quando pensávamos estar longe da monção! Pelo romper do dia iniciamos a penosa subida pela encosta a pique ainda molhada e rumo ao reino das nuvens. Paramos no hotel do Base Camp, a 4925m, para comer qualquer coisa. Não tenho pressa de chegar a lado algum apesar de já saber que o dia será bem longo. Vou ao meu ritmo e pronto. Mesmo assim faço em menos tempo um percurso que me dizem ser de mais horas...
Na bruma que nos encerra a vista dos cumes nevados, caminho eu e o meu amigo e volta e meia cruzamo-nos com uma ou outra caravana de mulas guiadas pelos seus donos.
Chegamos enfim ao Thorung La pass, a passagem mais alta do circuito Annapurna, a 5416m de altitude, e que normalmente deixa os trekkers apreensivos pelos efeitos do 'mal de montanha' que muitos sentem. Eu já tinha estado a mais altitude, tanto no Tibete como no Ladakh, não sei se foi por isso mas não senti nada de especial, desta vez nem sequer o nariz entupido. Apenas cansada da subida. Mas diga-se que nesta altura não havia neve no percurso, o que o dificultará ainda mais.
Thorung La pass
Após esta subida de cerca de 1000m que nos demorou umas 3 horas e meia a percorrer, espera-nos agora uma descida bastante pronunciada, de uns 1600m, pela encosta oposta abaixo. E já avistamos, através das nuvens que se dissipam, o vale de Muktinath que nos espera. Mas para isso foram mais 3 horas e meia a descer!
Muktinath
Fazemos uma breve passagem pelo templo de Muktinath, famoso local de peregrinação tanto para hindus como budistas, agora em trabalhos de restauro. Eu já conhecia esta localidade, situada a 3760m de altitude, precisamente quando fiz o trekking pelo lado contrário em 2010. A partir daqui já há estrada aberta e, de jipe, rapidamente nos pusemos em Jomson neste sétimo dia.
No total, o Circuito Annapurna é um trekking de cerca de 300 km em torno da cordilheira dos Annapurnas que demora uns 18 a 21 dias a percorrer. Alguns trechos deixaram de ter tanta piada precisamente por causa do vaivém dos transportes públicos nas estradas recentemente abertas.
No entanto, viajar por estas estradas nestes transportes é também uma grande aventura! Apanhei seis autocarros para chegar a Pokhara num dia. Deslizamos junto às vertentes, saltamos com os buracos, derrapamos no terreno enlameado, atravessamos rios e quedas de água... É o Nepal!