Confesso que desde que me vi envolvida em casos de polícia me afastei um tanto do orfanato e não tornei a fazer lá regularmente voluntariado como fiz o ano passado. Mas são inúmeras as vezes que os miúdos, e especialmente a Jyoti, me visitam no hotel e eu passo por lá de vez em quando para constatar como estão as coisas.
Constato por exemplo que o frigorífico se apresenta geralmente vazio e que os miúdos andam vez à vez doentes. É época baixa, altura de monção e não tem havido voluntários nem dinheiro suficiente para cobrir as despesas. Mas recentemente alguém doou uma cama nova para o quarto das meninas e uma cobertura de oleado para o chão. Assim já não têm que fazer os deveres em cima do cimento frio.
Eles continuam uns glutões e uns traquinas. Devoram num ápice os ‘miminhos’ que lhes levo tais como: pão doce, bolachas, mel, fruta. E não se cansam de exibir as suas acrobacias. A Jyoti por sua vez continua a entender-se muito bem com os animais da casa que a reconhecem à distância. Está previsto trocar os coelhinhos por pintos pois estes sempre darão ovos e servem para comer. Os coelhos não.

Desta vez optei por ir levantando no multibanco os donativos que foram chegando em vez de esperar por reunir e transferir uma certa quantia. ‘Muni-me’ dos meus omnipresentes e solícitos colaboradores e fui às compras no mercado de abastecimento local.
Começámos pelos legumes alguns dos quais desconheço se existe nome em português: lauka, gheeraula, parbal, karela, rabanetes brancos, cenouras, couve, feijão verde, tomate, pepino, abóbora, beringela, couve-flor, kiabos, gengibre, etc. e depois passámos às batatas, cebolas e alhos noutra secção. Fruta também: mangas, maçãs, bananas...
Fui para lá de mota e regressei de táxi. Apanhámos a Jyoti no caminho, sentamo-nos os três à frente e despejamos os mantimentos no caminho de acesso ao orfanato. Nem carro nem moto sobem aquela ladeira, a partir dali tudo é levado à mão.
E já vão mais vezes. De carro ou de moto, com sol ou com chuva, os meus incansáveis colaboradores estão sempre prontos a ajudar. E lá vamos depositar mais legumes, arroz, lentilhas, óleo, gás... E a curiosa miudagem inspeciona tudo ao pormenor.
Não tenho recibos de tudo pois muitas vezes fazemos as compras nos vendedores de rua ou ambulantes. Mas aqui mostro alguns relativos a despesas com a alimentação e educação.
Enquanto isto os donativos foram chegando. E a dada altura uma considerável quantia angariada entre os professores da Escola Profissional de Leiria. O total ultrapassou os 400 euros.
Imediatamente pensei em apadrinhar duas das meninas mais velhas, a Alisha e a Jasmine, e foi exatamente o que fiz. Este dinheiro deu para pagar as propinas escolares das duas na Shining Star Secondary Boarding School para todo este ano escolar e ainda para cobrir os custos dos livros e restante material.
Hoje mesmo voltei à escola para as apoiar em dia de exame e certificar-me de que já tinham os cartões de admissão exigidos nesta altura após pagamento das respetivas taxas. Para além do mais a Jyoti está de momento ausente do orfanato. Foi para a aldeia dos seus familiares trabalhar nos campos de arroz.
Deixo aqui o meu profundo agradecimento a todos os professores e amigos da referida escola que participaram nesta causa dando o seu contributo, sabendo eu que muitos fazem também malabarismos financeiros no dia a dia para suportar as obrigações e exigências para com o próprio agregado familiar, por vezes com vários descendentes. Foi um gesto bonito e grande de todos vós que se imprimiu com brilho na vida e no futuro destas duas meninas.
Fica também como um símbolo. Educação equânime para todos, um direito humano fundamental. Infelizmente no Nepal, sobretudo em zonas mais remotas, as meninas são ainda discriminadas e preteridas em termos de acesso à educação em relação aos seus irmãos.
Fica também como um símbolo. Educação equânime para todos, um direito humano fundamental. Infelizmente no Nepal, sobretudo em zonas mais remotas, as meninas são ainda discriminadas e preteridas em termos de acesso à educação em relação aos seus irmãos.
Mas o meu agradecimento especial vai para a Teresa. Foi ela que investiu o seu tempo e toda a sua dedicação para angariar este dinheiro. Tanto mais que não nos conhecemos pessoalmente. Houvera mais e muitos gestos como o seu no mundo e este seria um lugar diferente, mais justo e mais compreensivo.E com mais Luz.
Tenciono reabastecer o orfanato, pelo menos enquanto estiver por aqui no Nepal. Faço as compras em vosso nome, em nome de todos aqueles que enviaram donativos. E por isso aqui deixo os agradecimentos gerais.
Mas há mais. A seguir.