Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei a este um outro blog com viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Projeto HHM no Nepal pós-pandemia (2021-2023)

Após quase nove meses de confinamento e aulas on-line, em janeiro de 2021 deu-se o regresso às aulas presenciais no Nepal. De salientar que o ano civil nepalês, bem como o ano escolar, terminam em abril. Os alunos tinham ainda trabalho árduo pela frente para se prepararem para os exames que se realizam nessa altura. Felizmente, todas as crianças apoiadas pela Associação HHM tiveram sucesso escolar. 
Assim como os jovens: a Urmila, de 20 anos, que terminou o 2º ano do magistério; o Khusal, de 17 anos, que terminou o 11º ano de escolaridade; o Nirmal, de 15 anos, que terminou o 9º ano de escolaridade e a Susma, de 13 anos, que terminou o 7º ano de escolaridade. 
A situação de pandemia mundial trouxe dificuldades acrescidas a muitos lares pois, à medida que os números de infetados e de mortes por coronavírus aumentavam no Nepal, também a vida das famílias em situação financeira desfavorável ia ficando cada vez mais periclitante. 
As solicitações de ajuda que recebemos foram imensas, mas a débil situação económica da própria organização não nos permite atender a todos os pedidos. Refira-se que, dos patrocínios de crianças que a Associação HHM tinha, mantém-se presentemente apenas o da amiga Brenda que apadrinha a Susma. 
Ainda assim, para além das crianças do Projeto HHM, conseguimos ajudar alguns casos pontuais mais prementes para que as crianças não deixassem de frequentar a escola. Foi o caso dos irmãos Manuka e Manish Pariyar, de Baglung, a viverem só com a mãe, depois da morte recente do pai, uma das vítimas desta calamidade. 
A Manuka tem 14 anos e frequenta o oitavo ano, o Manish tem 10 anos e frequenta o quarto ano. A ajuda prestada consistiu no uniforme, vestuário, calçado e todo o material escolar. 
Em maio de 2022, a escola Shri Panchase, situada numa aldeia das montanhas da cadeia de Annapurna, onde estudam algumas das nossas crianças, festejou os seus 25 anos de existência com a presença da comunidade local e educativa. 
Embora já sem patrocínios, a Associação HHM tem feito os possíveis para continuar a suportar os estudos de três irmãos, órfãos de pai e oriundos de família muito pobre, nesta escola. A escola proporciona estudos em inglês, algo tão importante para o futuro e o ingresso dos jovens nepaleses no mercado de trabalho. 
E o Bishwas, o Bijen e o Bipin têm sido ótimos alunos, dignos de menções honrosas, pelo que desejamos assim proporcionar-lhes um presente mais dócil e um futuro mais risonho.
No Nepal segue-se o Vikram Samvat, um calendário hindu historicamente usado no subcontinente indiano, como calendário oficial e não o calendário gregoriano como nos países ocidentais. É um calendário lunisolar, usando doze a treze meses lunares para cada ano sideral solar. A contagem dos anos deste calendário está cerca de 57 anos à frente do calendário gregoriano. 
O Ano Novo nepalês de 2080 foi comemorado no dia 1º do mês de Baisakh que entrou no dia 14 de abril de 2023. Logo depois deu-se início também a um novo ano escolar. 
A Shanti continua empenhada nos seus estudos. Em junho de 2023 completou 13 anos, frequentando o 8°ano de escolaridade. Felizmente, frequenta uma ótima escola nos arredores de Pokhara, com uma localização soberba e perto do orfanato onde vive. Desejamos muito que ela consiga superar da melhor forma os traumas que já passou na sua breve vida, após abandono da mãe e morte do pai. 
Normalmente, ela vai visitar a sua aldeia, onde vivem a irmã e a avó, nas férias de Dashain, em outubro. 
Dashain é um festival religioso nacional, o mais longo e mais auspicioso do calendário anual do Nepal. Dá ênfase aos encontros familiares, assim como à renovação dos vínculos da comunidade e, por isso, muitas pessoas viajam para o celebrar junto com os seus entes queridos. Todas as entidades governamentais, instituições educativas e outros estabelecimentos fecham durante o festival. 
A sua irmã Susma continua a frequentar a escola que fica a meia hora a pé da aldeia onde vive com a avó. Tem 15 anos e frequenta o nono ano de escolaridade. A sua vida não tem sido fácil pois, sem pai e sem mãe, é ela quem tem sido uma ajuda preciosa para a avó. Agradecemos uma vez mais à amiga Brenda que a vem patrocinando para que, pelo menos, ela tenha a oportunidade de seguir os seus estudos e construir um futuro melhor.
O empoderamento feminino através da educação é um dos principais objetivos da Associação HHM. Todas as crianças têm direito a uma educação segura, formal e de qualidade e ao acesso à aprendizagem ao longo da vida. No entanto, devido a vários fatores, milhões de meninas no mundo nunca frequentaram a escola enquanto outras são forçadas a abandoná-la. Como resultado da desigualdade de género na educação, elas também não têm a chance de desenvolver habilidades que as ajudarão a assumir o comando nas suas casas, carreiras, comunidades e países. 
A escola é um espaço no qual as meninas exercem o seu arbítrio, fazem a sua voz ser ouvida e têm as suas primeiras oportunidades de liderança. Concentramos esforços na igualdade, inclusão e diversidade para acabar de vez com a desigualdade de género na educação. 
Agradecemos a todos os que caminharam e caminham ao nosso lado ajudando-nos a tornar mais brilhante o futuro destas crianças. Maneiras de apoiar o nosso projeto: 

- Tornar-se membro da Ass. HHM (30€ anuais + 5€ de joia); 
- Apadrinhar uma criança no Nepal ou na Gâmbia (320€ por ano); 
- Fazer um donativo de qualquer valor; 
- Participar nos nossos programas de voluntariado (consulte o website abaixo); 
- Consignar 0,5% do seu IRS à Ass. Humanity Himalayan Mountains - Instituição particular de solidariedade social, NIF: 513896996 (quadro 11 do "Rosto" do Mod. 3)

 
ASSOCIAÇÃO HUMANITY HIMALAYAN MOUNTAINS
NIB: 0035 0210 0002 2489 930 95 
IBAN: PT50 0035 0210 00022489930 95 
BIC: CGDIPTPL
NIF: 513896996


sábado, 16 de julho de 2022

Portugal: Rios, cruzeiros e comboios

O rio Sado é um rio português, que nasce a 230m de altitude, na Serra da Vigia em Ourique e percorre as planícies alentejanas ao longo de 180 quilómetros até desaguar no oceano Atlântico perto de Setúbal. Com uma orientação pouco vulgar em Portugal, o Sado corre de sul para norte.

Alcácer do Sal é uma das localidades banhadas por este rio. Esta localidade, elevada a cidade a 12 de Julho de 1997, é uma das mais antigas da Europa, por onde passaram gregos, fenícios e outros povos da bacia do Mediterrâneo. O seu nome romano foi Salacia Urbs Imperatoria e a sua grande importância na rede do Império deve-se à sua situação ímpar junto ao rio Sado que facilitava o escoamento dos produtos das terras do interior, como trigo, azeite e vinho, para outros locais ocupados por Roma. Alcácer era uma das cidades de porto interior mais importantes do Ocidente peninsular e conhecida pela extração de sal e pelas indústrias derivadas de salga e pasta de peixe.

Mais tarde, foi invadida pelos árabes que reforçaram a antiga fortificação ficando a cidade protegida com duas cercas cujos muros, coroados por 30 torres, formavam um dos maiores bastiões de defesa da Península Ibérica. Em 1217, no reinado de D. Afonso II, a cidade foi definitivamente conquistada com o auxílio dos Cruzados que aqui aportaram a caminho da Síria e da Terra Santa e foi entregue ao governo da Ordem Militar de Santiago, que aqui se sediou.

De jusante de Alcácer do Sal até à foz desenvolve-se um largo estuário separado do oceano pela península de Troia. O Estuário do Sado, classificado como Reserva Natural há mais de 30 anos, é constituído por uma sucessão de rio e de mar, de bancos de areia e de vasa, sapais e lagoas de água doce, matagais e floresta, áreas agrícolas e pastagens, praias e dunas. Trata-se de um ecossistema diversificado, habitat de plantas e animais dos quais se destaca uma rara comunidade de golfinhos roazes-corvineiros, assim designados pelos pescadores por lhes roerem as redes de pesca e se alimentarem de corvinas. 

Esta área protegida inclui as salinas, hoje desativadas, mas que ao longo dos séculos tiveram grande importância económica, dado que o sal era a única forma de conservar a comida. Já os romanos tinham estabelecido nesta região o que seria à altura o maior centro hispânico de salga de peixe, de que as ruínas de Tróia são o exemplo mais evidente. Note-se que a palavra ‘salário’ vem do facto de os soldados romanos serem pagos em sal.

Numa zona de sapal, salinas e de antigos arrozais do estuário do Sado, situa-se o Moinho de Maré da Mourisca, um moinho secular (uma inscrição em pedra no interior mostra a data de 1601) que testemunha a engenhosidade humana na adaptação das forças naturais em benefício próprio. O Moinho foi recuperado, nele funcionando actualmente um Ecomuseu — Centro de Educação Ambiental. Este Centro, para além de uma exposição permanente sobre a reserva, apresenta informação sobre as atividades tradicionais ligadas à moagem, ao fabrico do pão e ao sal e inclui uma sala de audiovisuais.

Com caminhos e pequenas estradas que serpenteiam pela paisagem estuarina e seus esteiros (braços de mar ou de rio que se estendem pela terra dentro), a zona das Salinas da Mourisca é ideal para os amantes da natureza e da observação de aves onde se destacam flamingos, cegonhas-brancas, águias-sapeiras, pernilongos, alfaiates, gaivotas, maçaricos e borrelhos.

Perto do estuário, realizamos um passeio turístico que permite conhecer a tradição do processo produtivo do vinho da região do Sado. A Rota das Vinhas do Pó é um programa de Enoturismo que pode ser levado a cabo de comboio desde a Estação do Oriente em Lisboa até ao apeadeiro de Fernando Pó, ou por deslocação em transporte próprio do visitante.

A opção "By Road", que escolhemos, com o custo de 39,50€ por pessoa, inclui visita guiada à adega e à vinha na Filipe Palhoça Vinhos, com prova de Moscatel de Setúbal; visita guiada à Fernão Pó Adega, com prova de vinhos e degustação de tábua de queijo e compotas; almoço típico com Sopa Caramela na Casa Ermelinda Freitas com prova de vinhos e visita guiada à adega centenária e ao seu Núcleo Museológico.

Trata-se de uma experiência para saborear, apreciar e sentir o pulsar do mundo rural em Fernando Pó, no concelho de Palmela, o coração da Aldeia Vinhateira, onde a paisagem é dominada por fileiras de videiras que se estendem por planícies arenosas. A zona é famosa pela produção de vinhos de qualidade graças a um microclima especial, onde os rios Tejo e Sado ajudam a manter as uvas em perfeitas condições para amadurecer.

As origens da Sopa Caramela remontam a finais do século XVIII e meados do século XIX, encontrando-se intimamente relacionada com os movimentos migratórios sazonais de trabalhadores rurais assalariados, provenientes das áreas da Beira Litoral e do Baixo Mondego, que se deslocavam para as propriedades agrícolas da região. A estes camponeses que trabalhavam à jorna chamavam, pejorativamente, «caramelos».

A partir da segunda metade do século XIX, por necessidade de mão-de-obra permanente, os jornaleiros "caramelos" fixaram-se na Estremadura e no Vale do Sado e foram-se tornando rendeiros, com propriedades e residência na região, onde introduziram novos hábitos alimentares trazidos dos seus locais de origem. Mercê das dificuldades económicas a que tinham de fazer frente, a alimentação destas populações, embora consistente, baseava-se em sopa feita com os produtos hortícolas que tivessem mais à mão, guarnecidos com enchidos e carne da matança. E assim surge a Sopa Caramela.

Estrategicamente situada na foz do rio Sado, Setúbal prosperou ao longo dos anos no comércio e nas atividades marítimas. A localidade foi visitada por povos fenícios, gregos e cartagineses que vinham em busca de sal e estanho. No período romano era conhecida como Cetóbriga e desenvolveu-se com a instalação de fábricas para salga de peixe e fornos para cerâmica. Durante a ocupação moura tornou-se um porto significativo.

Em 1525, o rei D. João III concedeu-lhe o título de "Vila Notável", reconhecendo a sua crescente importância. Foi elevada a cidade em 1860 por D. Pedro V. E foi ainda no século XIX que ganharam fama tanto as laranjas como o Moscatel de Setúbal e que teve início a laboração das primeiras fábricas de conservas de sardinha em azeite.

Terá sido talvez devido a esta indústria conserveira, impulsionada por operários especializados oriundos de França (que interagiam linguisticamente com os trabalhadores portugueses), que terá surgido o sotaque xarroco (ou charroco), tão peculiar da cidade, em especial da zona do Troino, velho bairro de pescadores, caracterizado pela pronúncia carregada do "r". O nome vem do charroco, peixe de cabeça e boca grandes, comum na região, e que o povo setubalense associou ao linguajar.

Nesta cidade nasceram vultos da cultura portuguesa, como Bocage, poeta do séc. XIX, conhecido pelo tom irónico e crítica social, e Luísa Todi, importante cantora lírica. Por aqui passou também o escritor dinamarquês Hans-Christian Andersen durante a sua visita a Portugal em 1866.


A nível de monumentos merecem especial referência o Convento de Jesus em estilo gótico-manuelino e o Forte de São Filipe que, em posição dominante sobre um outeiro, é um ótimo miradouro sobre a cidade, o rio Sado e o Atlântico, Troia e a Serra da Arrábida. Há também excelentes praias nas proximidades e a península de Troia, na margem oposta, com cerca de 18 kms de areal, é facilmente acessível por ferry-boat.

Em Setúbal é também famosa uma especialidade gastronómica: o choco frito, tradição que surgiu nas tabernas dos pescadores do rio Sado, que fritavam chocos pequenos e imperfeitos para petiscar. O Choco tornou-se um ícone da cidade onde, inclusive, podemos encontrar as estátuas “Choco Pessoa” e “Choco Frigideira”.


Igualmente situada no Parque Natural da Arrábida, junto a uma baía abrigada, fica a pitoresca vila piscatória de Sesimbra, a partir da qual podemos embarcar num agradável passeio de barco para desfrutar das belas vistas da impressionante costa rochosa, de praias secretas e do verde deslumbrante da Serra da Arrábida.


Entre outras ofertas, a Aquarama é uma empresa que proporciona passeios turísticos com a particularidade de podermos observar a vida marinha no seu habitat natural através das janelas panorâmicas subaquáticas da embarcação. Um dos pontos altos da visita, que tem a duração de 2 horas e um valor individual de 25€ por adulto, é a famosa Praia do Ribeiro do Cavalo, com areia branca, águas cristalinas e um cenário único.

Passeio realizado no início de julho.