Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei a este um outro blog com viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Espanha: Picos da Europa

Viagem realizada em meados de julho com duas noites de pernoita em Villaviciosa.

Os Picos da Europa são uma formação montanhosa calcária, situada no norte da Espanha, abundante em acidentes geográficos únicos dada a sua proximidade do mar. A área é um parque nacional desde 1918, foi declarada uma reserva da biosfera em 2003 e desde 2017 que duas áreas da sua floresta estão incluídas no sítio do Património Mundial da UNESCO "Florestas primárias e antigas de faias dos Cárpatos e de outras regiões da Europa”.

Há indícios de povoamento dos Picos da Europa desde o Neolítico. Foram habitados por dois povos celtas, os ástures e os cântabros, conquistados pelos romanos nas Guerras Cantábricas (29-19 a.C.). Em 711 deu-se a invasão árabe e a primeira vitória de cristãos sobre os muçulmanos ocorreu em 722 na Batalha de Covadonga, marcando o início da Reconquista. Pelágio das Astúrias, um nobre descendente dos monarcas visigodos, segurou o território contra inúmeras investidas dos árabes e estabeleceu o Reino das Astúrias que viria a transformar-se na região cristã de soberania contra a expansão islâmica.

Os Picos da Europa, com vários cumes acima dos 2.500 metros de altitude, são a terceira cordilheira mais alta da Península Ibérica, a seguir à Serra Nevada e aos Pirenéus. Cobrem uma área com 674 km² que se estende pelas comunidades autónomas das Astúrias, Cantábria e Castela e Leão. Estão divididos em três maciços: o ocidental ou Cornión, o central ou dos Urrieles e o oriental ou de Ándara.

O maciço ocidental é o mais extenso e é aqui que se situa um dos locais que mais visitantes atrai: a área dos lagos de Covadonga. Do Miradouro de Entrelagos apreciamos o Lago de La Ercina e o Lago Enol e vislumbramos os Urrieles e os seus cumes mais elevados, o Torrecerredo e o Pico de los Cabrones.

Seguimos para o Santuário de Nossa Senhora de Covadonga, lugar de devoção à Virgem Maria desde a época medieval, uma devoção que tem as suas primeiras lendas no tempo de Pelayo e Alfonso I, mas que a partir do final do século IX está indubitavelmente relacionada com o triunfo da guerra e o culto da chamada "Virgen de las Batallas" (Virgem das Batalhas).

Movido pela revitalização do culto mariano do século XIX, o bispo de Oviedo Sanz y Forés anunciou aos fiéis, no dia da consagração do Camarín de la Cueva, em 1874, a intenção de dotar o Santuário de um templo monumental, dando grande impulso ao culto da Santina. A Basílica de Covadonga no monte Cueto, uma pequena elevação no centro do vale e em frente ao monte Auseva, oferece uma vista espetacular da Gruta Santa e do seu ambiente natural e é hoje um dos ícones históricos e espirituais do Real Sítio, atraindo milhares de viajantes e peregrinos.

Covadonga é uma paróquia civil na província e Principado das Astúrias pertencente ao concelho de Cangas de Onís, uma das portas de entrada para os Picos de Europa.

Foi a partir de Cangas de Onís que começou a reconquista de território espanhol após a invasão árabe e foi onde se estabeleceu a sede do reino asturiano após a primeira grande vitória das forças militares cristãs na Batalha de Covadonga, no ano 722. Pelayo estabeleceu a cidade como capital de todos os territórios conquistados e é por isso que Cangas de Onís é considerada a primeira capital da Espanha.

No dia seguinte bem cedo, rumámos a Santander, capital da comunidade autónoma da Cantábria e sede da área metropolitana de Santander-Torrelavega, uma conurbação com mais de 300.000 habitantes que se estende ao longo da costa da baía de Santander.

A Catedral de Nossa Senhora da Assunção foi construída entre os séculos XII e XIV sobre a antiga Abadia dos Corpos Santos, como colegiada. Ganhou o estatuto de catedral em 1754, quando foi criada a Diocese de Santander. Foi muito danificada com a explosão do navio Cabo Machichaco em 1893 e, após ter sobrevivido à Guerra Civil Espanhola, sofreu estragos com o grande incêndio de 1941, tendo sido reconstruída e ampliada entre 1942 e 1953.

O Passeio de Pereda é uma avenida à beira da baía, paralela aos cais do porto, onde se encontram alguns dos edifícios mais belos da cidade, como o Palácio da Companhia Transatlântica Espanhola e a sede do Banco Santander, fundado em 1857. Há também cafés muito antigos, como "El Suizo", onde outrora se encontravam comerciantes, militares e escritores, como José María de Pereda, que deu o nome à avenida e aos Jardins de Pereda, situados na extremidade ocidental do passeio.

O Cais de Albareda é uma zona histórica junto ao mar, situada perto de locais de interesse como o Palacete del Embarcadero, a "Grua de Pedra" e o Centro Botín, espaço cultural dedicado à arte contemporânea, à música, ao cinema, ao teatro e à literatura. Este edifício, projetado pelo arquiteto e prémio Pritzker Renzo Piano, faz parte da Fundação Botín e foi inaugurado em 2017.

El Sardinero é uma área costeira da periferia da cidade que ganhou fama principalmente quando a rainha Isabel II de Espanha e Amadeu I ali veranearam, em 1861 e 1872, respetivamente. A área assistiu então a um grande desenvolvimento urbanístico e cultural, com a construção de vários hotéis, cafés, linhas férreas e de elétricos, tornando-se uma zona turística de praia. 

Estátua de Jose del Rio Sainz, navegador, jornalista e um grande poeta do mar.

Durante o reinado de Afonso XIII (1886–1931), Santander tornou-se no local de veraneio favorito da corte e em 1909 a cidade construiu e ofereceu à família real espanhola o Palácio da Madalena, hoje uma das principais atrações turísticas de Santander.

O emblemático edifício, situado na parte mais elevada da Península de La Magdalena, foi projetado pelos arquitetos Gonzalo Bringas e Javier González Riancho e construído no local onde antes se erguia o antigo fortim de São Salvador de Hano, que protegia a entrada da baía de Santander. Em 1914, foram construídas as cavalariças que imitam uma aldeia medieval inglesa, com enxaiméis de madeira à vista e telhados muito inclinados e pontiagudos.

Atualmente, a península é um parque público aberto durante o dia com outras atrações para além do Palácio e das cavalariças já que, tirando proveito dos alcantilados existentes na zona e a entrada de água diretamente do mar, se formaram piscinas naturais onde vivem pinguins, focas e leões-marinhos.


Ainda ao ar livre neste parque, pode ser admirada a exposição “O Homem e o Mar” com três galeões relacionados com as nove expedições levadas a cabo pelo navegante nascido na cidade Vital Alsar Ramírez, entre 1966 e 1992.

A paisagem é soberba e nela se inclui a Ilha de Mouro e o seu farol, inaugurado em 1858, que sinaliza a entrada dos barcos na Baía de Santander.

Invertemos marcha e percorremos cerca de 30 quilómetros da costa cantábrica de Santander até Santillana del Mar, vila medieval perto da qual se situa a Gruta de Altamira. Santillana del Mar conta com um magnífico património, encabeçado pela Colegiada de Santa Juliana, jóia do românico, datada do século XII, a partir da qual surge a configuração urbana desta vila.

A praça principal de Santillana del Mar é um dos locais mais emblemáticos da cidade, rodeada por edifícios históricos como a Torre del Merino (atualmente um museu) e a Torre de Don Borja, que atualmente serve de Câmara Municipal.

Passeando pelas suas ruas calcetadas, admiramos as bonitas casas tradicionais e palácios dos séculos XIV a XVIII. Muitos imóveis térreos foram convertidos em lojas que vendem produtos típicos da Cantábria como anchovas de Santoña, queijo Picón de Tresviso, carne de veado curada e sobao pasiego (um tipo de bolo esponjoso) e ainda produtos artesanais, nos quais predominam esculturas de personagens da mitologia cantábrica.

Santillana pertence à rede de "Los Pueblos Más Bonitos de España" desde 2013 e é popularmente referida como "A Vila das Três Mentiras" pois "não é santa, não é plana (llana) e não tem mar".

Continuámos para Comillas, localidade declarada um conjunto histórico artístico, dominada pelos edifícios neogóticos da Universidade Pontifícia que aqui funcionava antes de se mudar para Madrid. Foi o primeiro lugar em Espanha a utilizar as lâmpadas elétricas de Edison, em 1880.

O Palácio de Sobrellano é outro edifício monumental, obra do arquiteto catalão Joan Martorell, que o construiu por ordem do segundo Marquês de Comillas, Claudio López Bru, entre os anos 1881-1890. Ao lado do está a Capela-Panteão dos Marqueses de Comillas, também conhecida como Capela-Panteão de Sobrellano, uma joia da arquitetura neogótica e da arte modernista inaugurada em agosto de 1881 durante a visita do Rei Afonso XII e da Rainha Maria Cristina.

Um pouco mais adiante, encontra-se “El Capricho”, um edifício projetado em 1883 pelo famoso arquiteto catalão Antoni Gaudí como chalé de verão,  com o seu inconfundível pórtico, as decorações cerâmicas nos muros e com um minarete de estilo persa.

Após mais uma noite em Villaviciosa, «capital da maçã», terra fértil regada pela maior ria das Astúrias, famosa pela produção de sidra e pela sua rica herança de arte românica e pré-românica, dirigimo-nos para o município de Gijón.

Começámos pela visita à Universidade Laboral, edifício do arquiteto Luis Moya originalmente concebido como um orfanato mineiro e posteriormente transformado em Universidade do Trabalho. O complexo foi planeado como uma cidade utópica e autossuficiente que incluía uma quinta de 100 hectares, projetada para formar gerações de filhos de trabalhadores em profissionais altamente qualificados.

Construído segundo os ideais da arquitetura clássica, o centro desta cidade ideal seria a grande praça central, em torno da qual se organizam a magnífica igreja, a torre, o teatro e os edifícios administrativos. Em redor desdobram-se as restantes instalações, principalmente as oficinas de formação profissional. 


A instituição esteve em funcionamento desde a sua construção em 1948 até 1979 e, após décadas de desuso e abandono, em 2007 a antiga Universidad Laboral de Gijón abriu as suas portas reconvertida em Laboral Ciudad de la Cultura, um espaço único para a educação, a produção cultural e a indústria criativa. Destaca-se como a obra arquitetónica mais importante realizada nas Astúrias durante o século XX e, além disso, com os seus 270.000 m², é o maior edifício de Espanha. Foi declarado Bem de Interesse Cultural com a categoria de Monumento, em 2016.

Gijón/Xixón, com reminiscências gregas e latinas no seu nome, e uma história profundamente ligada à antiguidade clássica europeia e às povoações asturianas pré-romanas, é uma espécie de fortaleza natural com três ameias desenhadas pelo mar e pelo vento com poderosos rochedos e falésias e com vistas espetaculares.

O Cerro de Santa Catalina  na península de Cimavilla é o embrião da cidade. Os primeiros habitantes que lhe deram claramente um uso militar foram os romanos, que deixaram abundantes vestígios na antiga Gigia, como os restos de uma muralha ou as termas de Campo Valdés.

No cimo da colina, podemos admirar o famoso Elogio do Horizonte, uma escultura gigante que é atualmente o símbolo turístico da cidade.

Ao pé do bairro histórico de Cimavilla e da referida colina está a Marina de Gijón, outrora um notável porto de pesca, que nos proporciona um dos passeios mais agradáveis da cidade com vista para o mar.



A colegiada, o palácio de Revillagigedo, a câmara municipal e a sua praça, a igreja de San Pedro, são outros dos edifícios e recantos que podemos apreciar ao deambular pela cidade.

Finalmente, seguimos para Oviedo/Uviéu, a capital do Principado das Astúrias, conhecida pelo centro histórico medieval, onde se encontra a Catedral de Oviedo com a Câmara Santa do século IX (Património da Humanidade) e a sua torre gótica que preside majestosamente à Plaza de Alfonso II el Casto, talvez a praça mais famosa da cidade.

A Cidade Velha conserva quase intacta a sua "regia sedes", uma cidade ligada à monarquia asturiana, pioneira do cristianismo da Europa Ocidental. Percorrendo as suas ruas estreitas e sinuosas podem ver-se muitos séculos de história. O Teatro Campoamor nasceu nos finais do século XIX e continua a ser o eterno epicentro cultural da cidade, acolhendo espetáculos ao mais alto nível.

Oviedo merece também distinção por ser a “porta-estandarte” da cozinha asturiana em que se destacam pratos como a fabada, o cachopo ou os seus incomparáveis queijos e excelentes mariscos. A cidade tem de tudo: cafés animados, restaurantes tradicionais, confeitarias, bares de design, shop-bars, lojas gourmet, bares de sidra, bares de vinho, etc.

Os seus habitantes, os Ovetenses, são também conhecidos por Carbayones (carvalhões), devido a um carvalho (carbayu em asturiano) lendário e o mesmo nome é dado ao doce tradicional de Oviedo, um pequeno bolo composto por massa folhada, recheada com uma pasta de amêndoa, ovos e açúcar, coberto por uma capa à base de açúcar.

Com os termómetros a marcar uns tórridos 44º, nada melhor que penetrar num dos vários espaços verdes da cidade, nomeadamente no Campo de San Francisco, cheio de árvores e áreas verdes onde se refugiam os esquilos ou onde vagueiam cisnes, patos e pavões em lagos e fontes.


Cada cenário esconde uma história evocativa no Campo de São Francisco, incluindo as estátuas de figuras ilustres da cidade e outras personagens reais ou mitológicas, sem esquecer um dos seus símbolos mais recentes: a Mafalda de Quino que ganhou o prémio Príncipe de Astúrias - de Comunicação e Humanidades, em 2014, sendo Oviedo a sede desta Fundação que atribui prémios em diversas áreas, os mais importantes depois dos Nobel.

Regressámos a Portugal no terceiro dia à noite, infelizmente com o espectro dos incêndios, a norte do nosso país, no horizonte. Foi um longo fim de semana bem aproveitado.