Depois do pequeno-almoço em Samarcanda, partimos de carrinha rumo a oeste, em direção a Bucara, onde chegámos antes de almoço. À nossa espera no hotel, um fresco buffet de frutas ajudou-nos a recuperar do calor que se fazia sentir. Em seguida, iniciámos as visitas acompanhados por um guia local.
Bucara é a quinta maior cidade do Uzbequistão, contando com cerca de 280.187 habitantes — a maioria dos quais falantes de tajique, uma variante da língua persa. Esta imensa herança cultural não é por acaso: a região é habitada há pelo menos 5.000 anos e a cidade existe formalmente desde o século VI a.C. Ao longo dos séculos, foi capital do glorioso Império Samânida e do temido Canato de Bucara, além de ter sido o berço de Al-Bukhari (810–870), um dos mais proeminentes eruditos e teólogos do Islão.
Com mais de 2.500 anos de história, esta impressionante cidade-oásis medieval ergue-se hoje como um autêntico museu a céu aberto na lendária Rota da Seda. Historicamente, consagrou-se como o grande centro cultural, científico e de erudição da região, sendo uma das cidades mais sagradas para o Islão e a mais sagrada de toda a Ásia Central — o célebre "Pilar do Islão".
O seu valor é tão extraordinário que, em 1993, o seu centro histórico, repleto de mesquitas e madraças, foi declarado Património Mundial pela UNESCO, protegendo cerca de 140 monumentos de enorme importância arquitetónica. Hoje, Bucara apresenta-se magnificamente recuperada, mantendo uma atmosfera vibrante e pedonal. Começámos a nossa exploração pela praça e conjunto arquitetónico de Lyabi-Khauz, rodeada por três importantes madraças: Kukeldash, Khanaka e Nodir Divan-begi.
Percorremos as ruelas da cidade antiga, passando pela histórica sinagoga do bairro judeu e pela singular Mesquita Maghoki Attari, cujas fachadas originais do século XII foram magnificamente renovadas no século XVI. Esta mesquita é um dos templos mais antigos da Ásia Central, construída sobre os restos de um antigo templo zoroastriano.
Avançando no tempo e na grandiosidade, encontrámos o confronto arquitetónico entre a sóbria Madraça de Ulugbek, erguida no século XV pelo famoso sultão astrónomo, e a sumptuosa Madraça de Abdulaziz Khan, construída dois séculos mais tarde e célebre pelos seus azulejos amarelos e deslumbrantes tetos estalactites (muqarnas).
Bucara desafia o horizonte com os seus altivos minaretes, tendo no Minarete Kalyan o seu auge absoluto. Construído em 1127, este colosso de tijolo escapou ileso a inúmeras invasões, guerras e impérios. Reza a lenda que o próprio Gengis Khan ficou tão impressionado com a sua imponência e beleza que ordenou explicitamente que fosse poupado à destruição generalizada da cidade.
Juntamente com a vizinha Mesquita Kalyan e a Madraça Miriárabe (Mir-i-Arab) — cujo interior abriga túmulos sagrados e que ainda hoje funciona como escola islâmica —, o minarete forma o célebre Po-i Kalyan. Este é o conjunto monumental islâmico mais emblemático de Bucara. Sendo a estrutura mais antiga do complexo, a sua imponência deu nome a todo o espaço: em persa, Po-i Kalyan significa, literalmente, "ao pé do grande [minarete]". Trata-se de uma soberba torre-pilar circular em tijolo cozido, ligeiramente cónica, que se eleva a uns impressionantes 45,6 metros de altura, decorada com catorze faixas de relevos geométricos únicos.
Deixando a praça, entrámos no Hammam Bozori Kord, os tradicionais banhos públicos da cidade. Embora funcionem de forma semelhante aos banhos turcos, aqui adquirem uma identidade tipicamente persa e centro-asiática, convidando a uma autêntica viagem no tempo através do vapor e das massagens tradicionais sob cúpulas centenárias.
Mais à frente, a imensa Cidadela Fortificada Ark ergue-se diante de nós. Com as suas imponentes muralhas inclinadas de adobe, esta fortificação foi a casa e a sede do poder dos Emires de Bucara por mais de mil anos. A Ark é, na verdade, uma cidadela cuja origem remonta pelo menos ao século VII d.C., sendo tão antiga como a própria cidade. Mais do que uma fortaleza militar, era uma pequena cidade palaciana fortificada que abrigava a corte real, mesquitas, tesourarias e até prisões. Permaneceu ativa e habitada até ser bombardeada e tomada pelas forças soviéticas em 1920.
Hoje, totalmente integrada no perímetro norte do centro histórico, funciona como uma das principais atrações turísticas de Bucara, albergando vários museus que narram a riquíssima evolução da arquitetura militar e a história da região, desde o início da era islâmica até ao final do Império Russo.
Mesmo em frente à cidadela, apreciamos a Mesquita de Bolo Khauz, o único edifício sobrevivente da antiga e outrora vibrante Praça do Registão de Bucara. Também conhecida popularmente como a "Mesquita dos 40 Pilares", o seu nome deve-se ao reflexo ótico criado pelas suas 20 elegantes colunas de madeira esculpida nas águas do grande reservatório (khauz) situado mesmo à sua frente.
Ao cair da noite, Bucara transforma-se. Sob uma iluminação dourada e cénica que realça as silhuetas das cúpulas e dos minaretes, a cidade adquire uma atmosfera mágica.
Na manhã seguinte, o dia começou cedo com uma paragem numa padaria local, onde pudemos testemunhar o fabrico artesanal do non, o pão típico uzbeque, cozido tradicionalmente nas paredes de barro de um forno tandir.
Seguimos para o peculiar Chor Minor, um monumento único cujo nome significa "Quatro Minaretes". Construído em 1807 por um rico mercador turcomano, impressiona pelas suas quatro torres azul-turquesa, cada uma decorada com motivos que simbolizam quatro das grandes religiões do mundo.
Depois de explorarmos o pequeno mercado adjacente, deixámos o centro urbano em direção aos arredores de Bucara.
No caminho, cruzámo-nos com a realidade agrícola do país ao avistar um imenso campo de algodão — o "ouro branco" que historicamente moldou a economia e a paisagem do Uzbequistão.
O Complexo Memorial de Bahauddin Naqshband situa-se em Qasr-i Arifan, a cerca de 12 quilómetros da cidade. Este é um dos locais de peregrinação mais sagrados de todo o Islão uzbeque, dedicado ao fundador da Naqshbandi, uma das ordens sufis mais influentes do mundo. O complexo emana uma serenidade profunda, com o seu pátio ladeado por frondosas árvores e o antigo túmulo do santo.
A jornada pelos arredores continuou no Palácio Sitorai Mokhi-Khosa, o Palácio de Verão do último Emir de Bucara, Alim Khan. Construído no início do século XX, o edifício revela uma fusão fascinante de arquitetura palaciana russa e decoração tradicional uzbeque, destacando-se o deslumbrante "Salão Branco" espelhado e os jardins onde outrora passeavam pavões.
Para além da riqueza arquitetónica, o palácio transporta-nos para a atmosfera privada da realeza da época, albergando hoje um valioso Museu de Artes Decorativas. No interior das suas salas, preserva-se uma coleção impressionante de trajes de corte bordados a ouro (chapan), mobiliário de época importado da Europa e uma lendária exibição de porcelanas chinesas e japonesas.
Nas traseiras da propriedade fica o harém, uma estrutura de madeira de dois andares situada junto a uma grande piscina de azulejos. Hoje, o Palácio Sitorai Mokhi-Khosa permanece como um testemunho melancólico e opulento do fim de uma era, onde o esplendor oriental se cruzou, pela última vez, com a modernidade ocidental antes da integração de Bucara na União Soviética.
Pouco depois, visitámos o complexo memorial e necrópole de Chor Bakr, localizado na aldeia de Sumitan, a cerca de 5 quilómetros a oeste de Bucara. Conhecida como a "Cidade dos Mortos", esta imponente cidade-necrópole do século XVI impressiona pelas suas ruelas de túmulos familiares, mesquitas e madraças erguidas em honra dos descendentes do Profeta Maomé (os xeques Juybari).
O coração do complexo é um grande pátio central cercado por três edifícios principais — uma mesquita, uma madraça e um khanqah (alojamento para sufis) — cujos portais monumentais (pishtaqs) ostentam mosaicos em tons de azul e verde que contrastam com a paisagem seca do deserto.
A arquitetura reflete uma harmonia espiritual, onde os túmulos não se erguem de forma isolada, mas sim inseridos em pátios murados fechados (haziras), criando uma sucessão de fachadas e corredores simétricos que convidam à contemplação e ao respeito pela memória dos poderosos xeques que outrora moldaram o destino político e religioso da região.
Para além do seu valor histórico, o local mantém-se como um centro de peregrinação e misticismo, onde fiéis locais vêm rezar e procurar a bênção dos santos padroeiros de Bucara, perpetuando uma tradição espiritual com mais de quatro séculos.
Regressados a Bucara, aproveitámos as últimas horas da tarde para percorrer com mais calma os famosos mercados cobertos da cidade antiga. Ao entrar nas antigas cúpulas comerciais (conhecidas como toqi), recuámos no tempo. Entre elas, destaca-se o Toqi Telpak Furushon, um histórico mercado outrora especializado em chapéus e turbantes e hoje repleto de artesanato local.
Era precisamente sob estas cúpulas abobadadas que o pulsar mercantil se fundia com a história: um ponto de encontro crucial onde se cruzavam as rotas de especiarias, onde se fechavam parcerias com mercadores persas e onde o comércio tradicional de tapetes e tecidos finos, como o veludo e o ikat, ganhava vida ao lado de ervas aromáticas trazidas do Médio Oriente.
Bucara foi um dos eixos comerciais mais vitais da Rota da Seda, abrigando dezenas de caravanserais — as antigas estalagens fortificadas que ofereciam abrigo, armazéns e descanso seguro para os mercadores e os seus camelos. Enquanto noutras regiões estes complexos ficavam isolados no deserto, os caravanserais de Bucara integraram-se bem na malha urbana, dividindo o espaço com os próprios mercados cobertos.
Deixámo-nos envolver pelos aromas das especiarias e parámos num terraço para comer e beber alguma coisa, enquanto apreciávamos os tons quentes do pôr do sol a pintar os telhados de adobe da cidade antiga. O prelúdio perfeito para a despedida de Bucara.
Cerca da meia-noite, dirigimo-nos com as bagagens para a estação de comboios, preparados para a travessia noturna da imensidão silenciosa do Deserto de Kyzylkum a bordo da Uzbekistan Railways rumo ao próximo destino.
Chegámos a Khiva cerca das 7 horas da manhã e, logo após o check-in no hotel, partimos para a exploração da cidade, acompanhados por um guia local.Esta é a mais remota e isolada das grandes cidades da Rota da Seda, situada num oásis junto à fronteira com o Turquemenistão. Existem inúmeras lendas sobre a sua fundação: diz-se que a cidade cresceu em torno do poço Hewvakh, famoso pela sua água fresca e saborosa, que terá sido escavado por ordem de Sem, o filho mais velho do bíblico Noé.
Entre o século XVI e o início do século XX, Khiva foi a capital de um poderoso Canato, uma época marcada pela fragmentação do território em fortalezas e oásis comerciais altamente protegidos.
A grande joia local é Itchan Kala, a cidade interior fortificada, que se tornou o primeiro sítio do Uzbequistão a ser classificado como Património Mundial da UNESCO, em 1991. Cercada por gigantescas muralhas de adobe e terracota que permanecem intactas, esta cidadela parece parada no tempo.
Dedicamos o dia a explorar este núcleo amuralhado de rara beleza, onde tudo está concentrado, assemelhando-se a um fascinante museu a céu aberto.
À medida que avançamos, vamos cruzando a linha entre a história e a vida quotidiana: atravessamos mercados, sentimos o aroma do pão acabado de cozer nos fornos tradicionais e deparamo-nos com noivos e respetivas famílias a fotografar a sua alegria neste belo cenário.
Crianças brincam alegremente pelas ruas, enquanto mulheres uzbeques, dedicadas ao tricô, retribuem o nosso olhar oferecendo-nos sorrisos calorosos que exibem os seus característicos dentes forrados a ouro.
Caminhar por entre as construções de adobe de Itchan Kala transporta-nos diretamente para a Idade Média. No nosso percurso, cruzamo-nos com mesquitas, madraças esplendorosas e alguns dos minaretes mais maravilhosos do mundo.
Entre eles, destaca-se o grande ícone da cidade: o Kalta Minor, um minarete inacabado cujos azulejos em vários tons de azul-turquesa criam um contraste deslumbrante com a cor ténue da terracota.
Projetado em 1851 por Muhammad Amin Khan para ser o maior e mais alto minarete do mundo islâmico (com mais de 70 metros planejados), a sua construção foi abruptamente interrompida com a morte do governante em 1855, deixando-o com a sua forma robusta e única de 29 metros.
Entre os tesouros de Itchan Kala está também o Kunya Ark, o antigo forte e residência oficial dos Cãs de Khiva. Logo à entrada, admiramos o iwan (pórtico aberto), adornado com pilares de madeira esculpida e paredes inteiramente revestidas por intrincados azulejos cerâmicos em tons de azul e branco.
Erguido no século XVII, o complexo funciona como uma "cidade dentro da cidade", abrigando arsenais, as antigas celas da prisão, a sumptuosa mesquita de verão e a impressionante torre de vigia Aksheikh Baba, que oferece a vista panorâmica mais famosa da cidadela.
O Palácio Tosh-Hovli, conhecido como a "Casa de Pedra", foi edificado na década de 1830, durante o reinado de Allakulikhan, e é uma obra-prima da arquitetura khivana. O complexo conta com mais de 150 divisões distribuídas por vários pátios, tendo sido concebido como residência real e centro administrativo.
Os pátios são ricamente ornamentados com azulejos azuis e brancos vibrantes, colunas de madeira entalhada e ayvans (varandas cobertas) tradicionais da Ásia Central. Explorámos os seus labirintos que dividem as áreas oficiais de receção e o sumptuoso harém do Cã, todos adornados com tetos ricamente pintados que rivalizam em detalhe com a azulejaria majólica.
Outro dos pontos altos foi a visita à belíssima Mesquita Juma (a Mesquita de Sexta-Feira), uma estrutura única cujo teto plano é sustentado por uma autêntica floresta de mais de duzentas colunas de madeira esculpida. Cada pilar carrega séculos de história, exibindo diferentes padrões e técnicas de gravação, com alguns exemplares sobreviventes a datar do século X.
Passámos ainda pelos históricos Banhos de Anush Khan, distinguíveis pelo característico telhado em forma de cúpulas de tijolo. Construídos em meados do século XVII, estes banhos públicos (hammams) utilizavam um sistema tradicional de aquecimento subterrâneo e uma cobertura composta por dezenas de cúpulas interligadas de tijolo que ajudavam a reter o calor e a regular a temperatura no interior.
Para além de contemplarmos o interior fresco dos monumentos, aproveitávamos as horas mais quentes para descansar em pequenos cafés e restaurantes acolhedores. Ao final da tarde, juntamente com dezenas de pessoas, aproveitámos o ameno do dia para passear pelos becos pavimentados, mesmo a tempo de assistir a um pôr do sol inesquecível sobre a cidadela antiga.
Mas é impossível esquecer que, nesta viagem, cruzamos caminhos historicamente duros e fascinantes. Khiva não era apenas um oásis terminal para a seda, ouro e peles trazidos das estepes; foi também o cenário do maior e mais temido mercado de escravos da Ásia Central, onde, durante séculos, se comercializavam prisioneiros russos e persas capturados no deserto.
É este contraste entre a beleza sublime da sua arquitetura e as sombras do seu passado que torna Khiva um lugar verdadeiramente magnético e autêntico.
À noite, a atmosfera torna-se mágica, consagrando-a definitivamente como uma das cidades mais bonitas do mundo.








































































































































































