terça-feira, 26 de julho de 2016

Nasce a Associação HHM

Depois da atribulação vivida, no final de 2015, pelo lar de crianças New Vision, em Pokhara, e que foi relatada no post anterior, as crianças ficaram numa situação periclitante e várias delas foram reconduzidas às aldeias de origem ficando à guarda de algum familiar. Evidentemente estes familiares vivem em condições muito precárias que não se comparam às que estas crianças tinham no lar em Pokhara onde eram bem cuidadas e alimentadas. As suas vidas sofreram, de um momento para o outro, uma grande alteração e a adaptação não foi nada fácil chegando a causar-lhes uma enorme angústia. O ano escolar foi interrompido a meio, foram afastadas dos seus amigos e daquela que todos consideravam mãe, a Jyoti.
Como referi antes, urgia tomar medidas para ajudar pelo menos 10 crianças e, deitando rapidamente contas à vida, estipulei para cada uma 3.000 rupias mensais (cerca de 26 euros), sendo que uma das prioridades era possibilitar-lhes a continuidade dos estudos numa escola de aldeia. As necessidades das famílias que acolheram as crianças são claramente superiores mas, apanhada de surpresa com tudo isto e sem saber bem com o que contar, não me podia comprometer com mais. Para além disso havia também que pagar a renda da casa em Pokhara, onde ficaram algumas das crianças e jovens, dar mais algum contributo para alimentação/outras despesas e tudo isto dava já uma quantia de cerca de 500 euros mensais.
Uma vez que saí do Nepal pela última vez em dezembro, a quantia tem sido enviada, todos os meses desde o início de 2016, para a Jyoti ou outro colaborador do projeto que, por sua vez, se desloca às aldeias onde estão as crianças ou envia o dinheiro estipulado para cada uma, tendo depois o cuidado de me facilitar os respetivos comprovativos.
A Jyoti começou, em janeiro, pela casa do Raju que fica no sul do Nepal. Entregou o dinheiro à família constituída pela mãe e dois irmãos, sendo o mais velho, de 17 anos, o "homem da casa" que trabalha a pastorear búfalos de vizinhos para sustentar os seus enquanto faz questão de também frequentar a escola para poder vir a ter um emprego melhor. O pai faleceu há uns anos, a mãe é doente, sofre de perturbações e está agora novamente grávida. O Raju ajuda na lida doméstica, tal como as outras crianças que vivem neste tipo de condições. No Nepal ainda há muitas crianças que não vão à escola pois o seu trabalho, no campo ou noutros ofícios, é visto como vital para ajudar a sustentar a família. 
Numa outra aldeia, também no sul do país, vivem a Bindi e o Suraj com a avó deste e que tem uma "taberna" para ganhar o sustento. As suas condições de vida são também muito básicas. O pai do Suraj morreu e a Bindi foi adotada por uma tia do miúdo que, aos quatro anos de idade, a entregou no lar da Jyoti e foi viver para Kathmandu.
As crianças ajudam a confecionar as refeições e a lavar a loiça.
Felizmente, de vez em quando, há dias de "festa", dias de visita, da Jyoti ou de voluntários que trazem sempre muita alegria e boa disposição a estas crianças tão carentes. Foi muito bom contar com a presença da Patrícia, do Guilherme e logo depois do André, todos portugueses, no nosso programa de voluntariado, em fevereiro/março e abril.
Para além de todo o alento que transmitem às crianças, os voluntários comparticipam nas despesas alimentares, escolares ou outras que se considerem prementes e tomam no terreno as diligências que, na altura, são necessárias ao funcionamento deste projeto. São, para mim, uma preciosa ajuda até pelas fotos que me fazem chegar. E, neste caso, também me ajudaram a estabelecer a ponte entre as crianças do nosso país e daquele fazendo-lhes chegar (como foi o caso da Patrícia com quem tive a oportunidade de me encontrar previamente) os postais elaborados pelos meus alunos. Uma comunicação baseada na imagem e nalgumas palavras simples em inglês, que serve para pôr em contacto crianças de realidades tão díspares. E, quem sabe, para lhes ensinar qualquer coisa.
Mas a festa não descura os deveres nem afazeres, com luz ou com falta dela. Porque a luz elétrica não é garantida a todo o momento no Nepal e todos têm que saber viver sem ela umas longas horas por dia.
E, no dia seguinte, é hora de vestirem os uniformes e, aprumadinhos, rumarem à escola.
Desta vez, as crianças vão acompanhadas pelos voluntários que têm direito a assistir à formatura dos alunos antes do começo das aulas, bem como a participar no discurso diário matinal de recomendação e incentivo.
Depois conversam com o diretor da escola inteirando-se da situação escolar dos miúdos e regularizando o que houver para pagar, conforme previamente combinado. Ficaram também a saber que a Bindi se sentiu muito revoltada com a situação a que a sua vida foi sujeita e tentou fugir várias vezes.
Uns dois autocarros e umas duas horas depois chega-se à casa dos pais da Jyoti, nesta região do Terai. É também uma casa simples em que a água se extrai à bomba e se cozinha a lenha. As condições sanitárias são muito básicas e o duche é tomado "ao caneco", sempre no exterior.
A cozinha também serve de sala de estar e sala de jantar, a mobília é pouca e os utensílios também até porque os locais gostam de comer com as mãos. Depois os voluntários brincam ou jogam à bola com as crianças que se juntam por ali e para quem um estrangeiro é sempre uma novidade e uma oportunidade para pôr em prática algumas palavras em inglês que se aprendem na escola, depois de vencida a barreira da timidez.
Como as crianças do projeto estão espalhadas por aldeias diferentes e distantes umas das outras, vamos gerindo o programa de voluntariado consoante o que for mais importante fazer aquando da passagem dos voluntários pelo Nepal. Neste caso, e como ficou mais tempo, o André deslocou-se também a uma aldeia do distrito de Parbat, uma zona montanhosa a oeste de Pokhara. Isto representa apanhar dois autocarros e depois andar mais de uma hora a pé, a não ser que se vá de mota ou apanhe um jipe para ser mais rápido. A deslocação a estas aldeias implica sempre que se passe lá pelo menos uma noite, em casa de habitantes locais.
Mas as vistas da aldeia são lindíssimas e esta é uma forma de experienciar a genuína vida rural nepalesa junto das suas gentes, em zonas mais remotas fora dos circuitos turísticos.
Nesta aldeia, que eu visitei em 2015, o André foi inteirar-se da situação da Susma, irmã da Shanti, que vive agora apenas com a avó, já que o pai faleceu no final do ano passado. O André também comparticipou nas despesas alimentares e comprou sapatos novos à miúda que frequenta uma escola pública perto de casa. A Susma constitui agora o braço direito da avó que, tal como a maioria das pessoas da sua geração, não quer abandonar a sua aldeia. É uma criança a quem continuaremos a prestar auxílio.
Por sua vez, a Patrícia e o Guilherme foram à escola do Manish Nepali regularizar as contas do ano escolar que findava, precisamente em março, correspondente ao final do ano 2072 no Nepal. Tiveram também a oportunidade de visitar a escola que compreende vários graus de ensino. A escola dista cerca de uma hora de Pokhara, com mais condições de acessibilidade a partir daqui. O Manish é a criança que patrocino ininterruptamente desde 2011, contando com a ajuda de algumas amigas. Tem sido um aluno regular, sempre com aproveitamento e é vê-lo crescer.
As despesas escolares de um ano completo do Manish (cerca de 320€) acabaram por me servir de base para estipular uma quantia para o apadrinhamento anual de uma criança. Os valores variam de escola para escola e de zona para zona, mas achei por bem estipular uma quantia fixa, igual para todos. Distribuindo as tais 3000 rupias mensais por cada criança, sobrará dinheiro para uma ou outra refeição dos mais novos, mas passará a faltar principalmente para aqueles que vão frequentar o 10º ano de escolaridade, como está a ser o caso, neste ano de 2073 no Nepal (que, pelo nosso calendário, teve início em abril de 2016), do Manish, da Alisha e da Khusi (a filha e a sobrinha da Jyoti). Ficará ao critério dos padrinhos dar um contributo extra para os afilhados que frequentam esse nível de ensino, também conhecido como SLC pois é passado o School Leaving Certificate. Os alunos esforçam-se para o concluir muitas vezes recorrendo a explicações e aulas extra. Representa o ano terminal dos estudos para a maioria dos jovens nepaleses que, de posse do certificado passado no final do ano, partem depois à procura de trabalho.
Os três voluntários portugueses que, este  ano, participaram no programa de voluntariado deslocaram-se também a uma aldeia na zona de Panchase, nos arredores de Pokhara. O Guilherme e a Patrícia, em programa de 2 semanas, foram primeiramente com um dos colaboradores nepaleses do projeto inteirar-se da situação de uma senhora de família muito humilde que ficara viúva repentinamente e com três crianças menores para cuidar.
Já o André, quando se deslocou à mesma aldeia, ia incumbido de lhe prestar algum auxílio e tomar as devidas diligências para que as crianças mais velhas começassem a frequentar a escola construída na própria aldeia pela comunidade, ou seja, particular (ou seja, que não recebe qualquer ajuda estatal).
Passado pouco tempo, os pequenos Bijan e Bishwas Nepali (na foto abaixo) já tinham os seus uniformes prontinhos e a inscrição feita na escola, passando a fazer parte do nosso projeto no Nepal e, portanto, a receber um apoio regular mensal.
O André colaborou um mês no projeto e teve mais disponibilidade para outros casos como, por exemplo, o Khusal, filho de uma ex-funcionária do hotel. Comprou-lhe material escolar, deu-lhe atenção, saiu com o miúdo, algo tão importante para uma criança, de semblante triste, que nunca conheceu o pai.
A sua mãe faz um esforço enorme para lhe pagar os estudos numa boa escola sujeitando-se a viver num pequeno quarto com mais quatro pessoas. O Khusal tem sido um aluno aplicado e, como o meu amigo Ali Greenshields se disponibilizou para o apadrinhar, o miúdo quis logo agradecer-lhe "a preceito".
Outras crianças/jovens que pertenciam ao lar New Vision, ficaram a viver, desde dezembro transato, no apartamento de rés-do-chão que aluguei para a Jyoti, entre eles: a Khusi, a Alisha, a Jasmine, o Lajras (que não se adaptou na aldeia e voltou para Pokhara) e a Shanti, a criança que eu própria apadrinhei.
Também eles receberam os presentes bem como os postais elaborados pelos meus alunos que lhes enviei pela Patrícia. A Patrícia chegara ao Nepal no final de fevereiro e foi extremamente prestável ao projeto cumprindo rigorosamente todas as diligências de que estava incumbida, já que nos encontráramos pessoalmente antes da sua viagem.
Receberam também as pulseiras feitas pela Sofia Ribeiro que fez voluntariado comigo no ano passado. Aliás, com estas pulseiras e através da criação da página de Facebook "Micas", a Sofia conseguiu angariar a quantia de 520€ que deu para cobrir os restantes gastos de fevereiro e março. O dinheiro foi entregue, em mão, pela Patrícia à própria Jyoti. Bem hajas, Sofia!
A Patrícia e logo depois o Guilherme, que também prestou duas semanas de voluntariado, e logo depois o André, que ficaria um mês, colaboraram ativamente deslocando-se às várias aldeias abrangidas pelo projeto e passando tempo com as crianças que vivem em Pokhara.
Em Pokhara, os voluntários ficam alojados numa casa de hóspedes e são orientados pelos colaboradores nepaleses do projeto que aí trabalham. São estes que os transportam a várias aldeias, nomeadamente as que ficam no perímetro de Pokhara, seja a uma, duas ou três horas de distância, já que a Jyoti se encarrega das aldeias mais distantes do sul do país, de onde ela própria é oriunda.
Os voluntários acompanham as crianças e a Jyoti nas atividades do dia-a-dia, ajudam as crianças nos trabalhos escolares e podem dar o seu contributo nos tempos livres através de alguma habilidade ou programa criativo que dominem. Ao que parece, o André passou-lhes o gosto pelo desenho e pintura. Ou, simplesmente, passeiam e brincam junto ao lago.
Muitas vezes, supervisionam também alguma atividade que haja a desenvolver, como os agradecimentos em tiras de papel, por exemplo, por mim solicitados. Neste caso, agradecem às turmas do 5º e 6º ano de escolaridade, da Escola B. 2,3 Egas Moniz em Sintra, que participaram no intercâmbio de postais e imagens entre os dois países e, posteriormente, na angariação de fundos através de calendários e pulseiras.
Esta campanha de sensibilização ao projeto “Humanity H. Mountains”, de ajuda a crianças órfãs e carenciadas do Nepal, em que participaram alguns alunos daquela escola, rendeu um total de 167€, quantia que pode representar uma refeição por dia durante 15 dias para 10 das crianças que apoiamos. Com este tipo de ação pretende-se, acima de tudo, dar a conhecer às crianças deste canto da Europa uma realidade tão diferente de crianças de outro canto do mundo com o sentido de que, juntos e com pouco, podemos fazer a diferença na vida de alguém que tanto precisa, neste caso crianças desfavorecidas do Nepal que desejam frequentar a escola.
Para dar continuidade e legitimar esta missão (um projeto que, no fundo, desenvolvo no Nepal desde 2005), foi registada em Portugal, em março deste ano, a Associação Humanity Himalayan Mountains, através da qual enviamos mensalmente verbas destinadas a cobrir as despesas escolares destas crianças e, sempre que possível, também de alimentação e cuidados médicos.
Entretanto, em abril, deu-se o início do novo ano escolar nepalês e foi nossa preocupação arranjar patrocinadores para as crianças e jovens a nosso cargo, bem como arranjar um apoio para a Jyoti que é peça fundamental deste projeto no terreno. Até ao momento conseguimos 13 apadrinhamentos distribuídos da seguinte forma:

1
Adelaide Silva
Jasmine Gurung
2
Marlene Schenkler
Alisha Gurung
3
Ana Filipa Santos
Lajras Tamang
4
Marília Carvalho
Shanti Nepali
5
Brenda Nolden
Susma Nepali
6
Ali Greenshields
Kushal Dhamal
7
Maria Barros
Bijan Nepali
8
Maria Barros
Bishwas Nepali
9
Milene Madden
Manish Nepali
10
Patrícia Rosa
Bindi Tamang

Também a Fundação Lapa do Lobo (FLL) colabora connosco no patrocínio de 3 pessoas em que, para já, incluímos a Jyoti, a Khusi e o Suraj Tamang. Falta-nos ainda um padrinho ou uma madrinha para o Raju que, de qualquer forma, temos vindo a apoiar. E claro que temos outras crianças em lista de espera, das quais daremos mais informações em breve.
Com o novo ano escolar vêm também despesas acrescidas de livros e material. Isto quando já frequentam a mesma escola e não é preciso investir no calçado, nos uniformes e demais apetrechos. E, na escola, as crianças reencontram os seus amiguinhos do lar.
A última novidade tem a ver com o facto de a Jyoti ter voltado para a casa onde funcionava o lar New Vision, a pedido dos próprios donos que, só agora e tarde demais, se apercebem do mal que o grupo espanhol causou à vida das crianças. Também o advogado a informou que o lar não está ainda legalmente fechado. A ver vamos... Era bom que a serenidade e a harmonia voltassem a esta casa que já passou por tanto.
Para já, a Jyoti vai tratando da horta e as crianças aprendem ajudando-se umas às outras, algo que tanto gostam de fazer.
Veremos o que se passa no terreno quando, em breve, estivermos de regresso ao Nepal. Não só em relação a estas crianças do lar New Vision como em relação a todas aquelas que fazem parte do projeto Humanity Himalayan Mountains. Para mais informação, consulte o nosso Website ou página do Facebook. Namastê!



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