No início do ano civil 2022, as aulas decorrem normalmente na Gâmbia e as nossas meninas prosseguem os seus estudos com afinco.
A Awa e a Adama (a sua irmã gémea que vive com familiares no Senegal) festejaram 15 anos em fevereiro. A Awa continua a ser patrocinada pela amiga e sócia Cris.
A sua irmã mais nova, a Aja, por mim patrocinada, fez 12 anos em abril.
Ambas se portaram muito bem na escola e terminaram o ensino básico com excelentes resultados, as duas entre as melhores alunas do 6º ano de escolaridade. Os seus resultados nas diferentes disciplinas foram quase sempre de 100 ou perto dos 100%.
Em julho, realizou-se a Cerimónia de entrega de prémios na escola e receberam certificados, diplomas e merecidas recompensas em material escolar. Bravo Aja e Awa! Agora será altura de mudar de escola e continuar os estudos no liceu.
Quanto às pequenitas Natu, de 5 anos de idade, e a Oli, de 6 anos, continuam a frequentar o Jardim de Infância. A Olimatou é oriunda de uma família muito pobre de uma aldeia do interior da Gâmbia e, na esperança de lhe proporcionar o acesso a uma melhor educação, os pais deixaram-na ficar, o ano passado, ao cuidado desta família de acolhimento que vive nos arredores da capital. Felizmente conseguimos para ela um patrocínio que lhe permitiu a entrada para o infantário. Obrigado, Amelie!
A Mariama completou os seus 21 anos, bem como os estudos no 11º ano da escola árabe. O seu objetivo é entrar para o magistério e seguir a carreira docente.
Note-se que, na Gâmbia, a taxa de alfabetização entre a população adulta é excecionalmente baixa, de apenas 58%, pelo que o nosso intuito é que estas crianças e jovens concluam a sua formação.
Assim foi com o Coordenador do Lya Project que recebeu o seu diploma do Curso de Turismo e assim foi com o Balagie que acabou o Curso de Instalação de Antenas Satélite concluindo com mérito a parte prática do mesmo. Ele e os seus colegas receberam os diplomas de finalização deste curso que ele tanto ansiou na sua vida, até que a associação HHM/Lya Project lhe permitiu a realização do seu sonho.
Agora lá vai trabalhando e ganhando o seu para se sustentar a si e à esposa (casaram o ano passado). Vivem num quarto independente ao lado do condomínio onde vive a família de acolhimento e todas as crianças mencionados anteriormente (e que o acolhera também a ele).
E que família é esta? Note-se que na Gâmbia não há lares de crianças, não há lares de idosos, não há Segurança Social. A família africana tradicional é a base de tudo. Tomam conta uns dos outros e a família vai alargando. E se algum dos cônjuges morre? Foi o que aconteceu com este casal que se juntou pela força das circunstâncias. Fica a história de uma família gambiana ‘típica’:
Um casal tem dois filhos e quando o mais velho faz 5 anos e o mais novo tem 6 meses a mãe morre de doença não identificada. O que acontece então? O pai das crianças casa com a irmã mais nova da falecida mulher, ainda solteira. Têm cinco filhos. Quando a filha mais nova deste casal tem cerca de 4 anos, o pai morre de ataque cardíaco. O que acontece então? A mãe casa com um dos irmãos do falecido marido que estava separado da primeira mulher de quem teve dois filhos. Portanto, o ‘casal original’que referimos já faleceu.
O casal na foto é o ‘novo casal’, são os irmãos dos que morreram. Não têm filhos um do outro. Há anos que tomam conta dos filhos dos irmãos que faleceram e da prole deles próprios com os falecidos ou com anteriores parceiros. Para além disso, e como residem nas proximidades da capital, com acesso a melhores instituições, acolhem crianças oriundas da sua aldeia natal, confiadas pelos pais a este casal, com o intuito de lhes proporcionar uma educação mais ampla, que vá além do ensino na daara (escola corânica tradicional focada no Islão e na memorização do Alcorão).
Afinal, também em África os pais almejam o melhor para os filhos, ainda que isso implique separar-se deles em tenra idade. O futuro são as crianças e tudo é feito para as poupar ao sofrimento, seja com o impacto da miséria ou com a perda precoce dos seus progenitores.
O casal naquela foto são os nossos heróis, são o lar das nossas crianças, as crianças a quem a nossa organização dá apoio. Vivem num espaço velho alugado (que mete água na época das chuvas), com três pequenas divisões, e que faz parte de um condomínio onde vivem mais famílias, sendo que a cozinha e a retrete são no pátio comum. Ele é guarda-noturno, ela vende fruta e legumes numa banca de estrada. São gente simples, honesta, trabalhadora e dedicada. Não pedem nada, merecem muito!
Mas a vida na Gâmbia é também festa e há sempre motivos para a celebrar, sejam eles herdados dos anteriores colonizadores britânicos, sejam de índole histórica, tradicional ou religiosa. No dia 18 de fevereiro celebra-se o Dia da Independência com grandes desfiles oficiais, discursos políticos e manifestações culturais vibrantes por todo o país. É um feriado nacional oficial, as escolas e os serviços públicos fecham.
O Commonwealth Day (celebrado anualmente na segunda segunda-feira de março) não é um feriado oficial, mas é uma das festas mais coloridas e entusiasmadas do calendário escolar gambiano. A Gâmbia voltou oficialmente à Commonwealth em fevereiro de 2018 e o dia é comemorado com especial destaque nas escolas primárias. É um dia divertido e puramente festivo, livre de aulas, onde toda a comunidade participa.
Prova disso foi o dia 14 de março de 2022, quando as crianças se vestiram com exuberantes trajes tradicionais de acordo com a sua etnia (como os Mandinka, Fula ou Wolof) e prepararam iguarias locais na própria escola. Assim, entre cantos e sorrisos, todos puderam comer, beber, dançar e aproveitar a festa ao máximo!
O Ramadão foi celebrado entre os dias 2 de abril e 1 de maio. Durante este período sagrado, o país abranda significativamente. O comércio local em mercados como os de Banjul e Serrekunda encurta os horários e muitos restaurantes fecham. Os muçulmanos abstêm-se estritamente de comer, beber ou fumar do nascer ao pôr do sol. Por volta das 4 ou 5 horas da manhã, antes da primeira oração, as famílias fazem uma refeição reforçada e ao pôr do sol (por volta das 19h10), quebram o jejum com tâmaras e água, seguindo-se uma refeição comunitária de partilha.
Todo este sacrifício culminou no dia 2 de maio com o Eid-al-Fitr, o feriado muçulmano que marca o fim do jejum, localmente chamado Koriteh. Os eventos desta jornada proporcionam uma atmosfera alegre em todos os lares, onde se realizam grandes banquetes familiares regados a música e convívio. Homens, mulheres e crianças reúnem-se nos locais de oração, onde a congregação é liderada por um Imam.
Após a oração, as pessoas começam a socializar através de visitas domiciliares para pedir perdão por falhas passadas. Enquanto os adultos conversam e preparam o tradicional chá verde (attaya) ao longo do dia, as crianças, vestidas com as suas roupas novas, percorrem as casas para pedir o 'saliboo' (pequenos presentes e moedas como símbolo de bênção e partilha).
O Tobaski — também conhecido como Eid al-Adha, Grande Festa ou Festa do Sacrifício — é um festival muçulmano que sucede a realização do Hajj, a peregrinação a Meca. Comemorado a partir do décimo dia do mês de Dhu al-Hijjah — o último mês do ano lunar islâmico —, este festival estende-se por um período de quatro dias de profunda devoção e união comunitária.
Comemora a total obediência do profeta Abraão a Deus, ao estar disposto a sacrificar o seu próprio filho. Homens adultos com recursos económicos sacrificam um animal (um carneiro ou ovelha) em honra a Deus. A carne do animal é dividida em três partes iguais: uma para a família, outra para amigos e vizinhos e a última é doada aos mais vulneráveis.
Paralelamente ao calendário religioso, a vida comunitária é ritmada por celebrações familiares e rituais ancestrais. A Cerimónia de Nomeação de um recém-nascido, por exemplo, é uma ocasião habitualmente realizada no exterior da casa, onde a família dispõe cadeiras e uma grande cobertura para acolher os convidados. Vestida com as suas melhores roupas, a recém-mãe recebe os amigos e familiares, para quem é confecionada uma mesa farta com comida tradicional, bolos, pães e doces.
A celebração ritualística inicia-se por volta das 10 horas, conduzida por um imã (líder espiritual) ou por um ancião respeitado, que corta uma mecha de cabelo do bebé, verte um pouco de água sobre a sua cabeça e recita um versículo do Alcorão. De seguida, o nome da criança é proclamado em voz alta e repetido por todos os presentes, numa festividade que se estende por vezes até à noite.
A qualquer hora, numa qualquer rua da Gâmbia, pode surgir o cortejo do Kankurang. Esta figura mascarada faz parte do ritual de circuncisão dos rapazes e o objetivo tradicional deste dançarino de aparência ameaçadora é protegê-los contra os espíritos malignos, acenando de forma feroz com os seus facões. Ele avança cerimonialmente pelas ruas de modo intimidador, seguido por uma multidão de crianças e acompanhado por jovens já iniciados, que tocam tambores e carregam bastões, mantendo viva uma das tradições mais marcantes da identidade gambiana.
E não faltam casamentos.
No final do ano letivo, lá vou eu de novo para a Gâmbia fazendo escala em Casablanca com a Royal Air Maroc. Apresentação do Certificado de Vacinação e preenchimento do Formulário de Saúde para transitar em Marrocos.
Nos trâmites da chegada ao Aeroporto Internacional de Banjul, localizado em Yundum (a cerca de 24 quilómetros da capital), pagamos a taxa de entrada de cerca de 20€ (aceitam euros), o que concede uma autorização de permanência de 28 dias no país. Dizem que já não é necessário visto (VOA) para cidadãos de Portugal e da União Europeia mas agora ‘inventaram’ esta taxa que se paga à chegada e à partida, o que torna a permanência mais cara, enfim…
Passei aqui dois meses, precisamente no pico da estação das chuvas. Localizada numa zona inter-tropical, a Gâmbia tem duas estações, uma estação seca e uma estação chuvosa. Esta decorre entre junho e setembro e caracteriza-se por temperaturas que rondam os 30ºC, humidade elevada e chuvas intensas que por vezes ocorrem na forma de tempestades tropicais, deixando as estradas secundárias e de terra batida lamacentas ou até temporariamente intransitáveis.
No entanto, é uma época de paisagens muito verdes e vegetação luxuriante e é também a época baixa do turismo, o que significa menos multidões.
Seguem-se as visitas às famílias e crianças apoiadas pelo Lya Project na Gâmbia para matar saudades e distribuir vestuário, calçado e presentes que transportei em mão, a maioria doados por sócios e amigos.
E elas também fazem questão de nos visitar e cozinhar para nós comidas típicas como o ‘ebbeh’, uma iguaria tradicional tipo um guisado rico e picante à base de mandioca, marisco e peixe fumado, óleo de palma, sumo de limão e tamarindo.
Depois, é tempo de visitar os amigos e receber os vizinhos, incluindo a enérgica criançada da vizinhança.
Vizinhos estes que também fazem questão de nos mandar comida para nos dar a conhecer a gastronomia local. Nós retribuímos com produtos alimentares e bolos de várias formas e feitios…
O guardião da casa lá está a cumprir o seu papel, sem descurar as brincadeiras e festinhas da criançada.
‘Carinhas larocas’ que nos deixam muitas saudades!
Entretanto, a casa de apoio ao Lya Project vai crescendo. Ultimam-se os quartos do primeiro andar e os primeiros hóspedes vão chegando - aliás, um deles, vindo da Serra Leoa, já cá está desde outubro de 2021. Outro tipo de ‘hóspedes’ também chegou à casa e vai crescendo a olhos vistos…
Há também que visitar os mercados, sempre tão cheios de cor, e comprar mais materiais de construção, mobiliário e outros equipamentos para o lar. Aproveitamos para visitar uma compatriota que cá vive há vários anos e trabalha neste ramo.
Por fim, preparamos as nossas meninas para o regresso às aulas: uniformes, equipamento, material escolar e inscrição nas novas escolas.
E quando as aulas recomeçam damos continuidade ao intercâmbio cultural entre entre Portugal e a Gâmbia, estabelecido através da troca de postais elaborados pelos alunos de uma escola do concelho de Sintra e outra em Ghanatown.
E, enquanto tudo isto acontece, também há espaço para visitas e lazer, claro. Como a ida à capital, Banjul, situada na Ilha de Santa Maria (Ilha de Banjul), onde o Rio Gâmbia entra no Oceano Atlântico.
A ilha está ligada ao continente, a oeste, e ao resto da área da Grande Banjul através de pontes. A entrada principal da cidade é marcada pelo grandioso Arco 22 e nela podemos admirar outros monumentos, como igrejas, mesquitas, museus, edifícios coloniais britânicos e também o animado Albert Market.
A praia, mesmo ao lado, com o seu longo areal quase deserto, banhada (por sinal!) pelo oceano Atlântico, proporciona-nos sempre as coisas boas e simples da vida: pés descalços, areia fina, água quente, sol e descontração, enquanto os olhos e os ouvidos se regalam com o som ritmado das ondas e o eco das canções locais. O tempo parece correr mais devagar e cada sorriso nos faz sentir em casa.
À mesa, os sabores da Gâmbia ganham vida — seja através de pratos tradicionais como o Domoda (um rico guisado de amendoim), seja do peixe e marisco fresco grelhado na hora.
Junto à linha de praia há excelentes hotéis e resorts onde podemos usufruir das maravilhosas piscinas a troco de uma taxa diária.
Assistir ao pôr do sol na calorosa Smiling Coast of Africa é sempre um espetáculo extraordinário que nos fica gravado na memória.
E, à noite, experimentamos sabores do mundo na Senegambia Strip e deixamo-nos contagiar pelos escaldantes ritmos e danças africanas.
Já depois do meu regresso a Portugal, recebemos a visita do meu amigo Aure, da Catalunha, que conheci quando viajava pela Índia em janeiro de 2012.

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