A Rota da Seda será, sem dúvida, a mais lendária de todas as grandes travessias. Na verdade, nunca existiu um caminho único, mas sim uma complexa teia de itinerários que serviam de ponte comercial e cultural entre o Oriente e o Ocidente. Séculos de comércio intenso trouxeram a esta região uma prosperidade sem precedentes. Embora essa riqueza tenha começado a desvanecer quando os navegadores portugueses abriram as rotas marítimas, o imenso legado patrimonial que sobreviveu ao tempo continua a ser monumental.
É neste cenário que se destaca a mítica e imortal Samarcanda, a “pérola da Ásia Central” e uma das maiores atrações turísticas do Uzbequistão. A cidade prosperou graças à sua localização num vale fértil irrigado, em pleno coração da rota. Considerada o ponto mais importante do eixo entre a China e o Mediterrâneo, serviu de inspiração a dezenas de escritores, músicos e artistas.
Às 9 horas da manhã, apanhámos o comboio de alta velocidade Afrosiyob rumo a Samarcanda, localizada a 344 quilómetros a sul de Tashkent, onde chegámos duas horas depois. Convém notar que estes bilhetes devem ser reservados com semanas de antecedência, pois esgotam rapidamente. Ao chegar, fizemos o check-in no hotel onde pernoitaríamos por duas noites.
Samarcanda é a terceira maior cidade do Uzbequistão e uma das mais antigas continuamente habitadas da Ásia Central, tendo sido fundada por volta dos séculos VIII ou VII a.C.. Conquistada por Alexandre, o Grande em 329 a.C. e destruída por Gengis Khan em 1220, a cidade atingiu o seu expoente máximo durante o apogeu do Império Timúrida (séculos XIV e XV).
Timur (Tamerlão) fez de Samarcanda a orgulhosa capital do seu império, transformando-a num influente centro de estudos islâmicos, cultura e ciência - num movimento conhecido como Renascimento Timúrida. Os monumentos que vemos hoje, com as suas cúpulas azuis e azulejos detalhados, foram erguidos para demonstrar o poder de um império que chegou a controlar o comércio mundial.
Atualmente, a cidade divide-se em duas partes: a Samarcanda Nova (desenvolvida a partir de 1868 sob a influência russa e soviética), onde se situam os edifícios governamentais e os centros de ensino, e a Samarcanda Antiga, onde sobrevive o imenso legado histórico, com os seus monumentos, lojas e casas tradicionais.
Começamos com uma visita à antiga Mesquita Bibi Khanym, uma das maiores do mundo à data da sua construção. Reza a lenda que o monumento foi encomendado pela esposa favorita de Timur para o surpreender. Contudo, o arquiteto apaixonou-se por ela e exigiu um beijo para terminar a obra. O beijo terá sido tão ardente que deixou uma marca na face da rainha, desencadeando a fúria e a vingança do imperador aquando do seu regresso.
Logo ao lado, cruzamos os aromas e as cores do histórico Mercado Siyob rumo ao Mausoléu de Islam Karimov, o primeiro presidente da República. Karimov governou o país de 1990 (tendo proclamado a independência em 1991) até à sua morte em 2016, firmando-se como uma figura polémica, mas profundamente marcante na história da nação.
Perto dali, situa-se o impressionante complexo de túmulos reais Shah-i-Zinda, um dos locais mais fascinantes da cidade. Visto do céu, o complexo assemelha-se a um colar precioso, funcionando até hoje como um importante ponto de peregrinação e um verdadeiro prodígio arquitetónico.
Este nome, que significa literalmente "O Rei Vivo", deve-se à lenda de Qusam ibn Abbas, primo do Profeta Maomé, que terá trazido o Islão para a região no século VII. Reza a tradição local que, após ser decapitado enquanto rezava, ele recolheu a própria cabeça e desceu a um poço profundo para viver eternamente num jardim paradisíaco subterrâneo, o que confere ao local uma aura de profunda mística e devoção. Na Idade Média, uma peregrinação a este santuário era até equiparada ao Hajj (a peregrinação sagrada a Meca).
Desenvolvido ao longo de mais de oito séculos (entre os séculos XI e XIX), o complexo tornou-se a necrópole de eleição da dinastia Timúrida. À volta do túmulo original de Qusam ibn Abbas, o conquistador Tamerlão e o seu neto, Ulugh Beg, ordenaram erguer sumptuosos mausoléus para as suas mulheres, irmãs e generais mais próximos.
Ao caminhar por esta "avenida de mortos", somos envolvidos por um estreito corredor ladeado por mais de vinte estruturas monumentais. As suas fachadas são um autêntico laboratório de azulejaria onde os tons de azul-turquesa, cobalto e azuis-profundos reluzem intensamente sob o sol do deserto.
Os intrincados mosaicos esculpidos em terracota, as cúpulas caneladas e as caligrafias árabes entrelaçadas nas paredes funcionam como orações eternas congeladas no tempo, tornando Shah-i-Zinda uma das joias artísticas definitivas da antiga Rota da Seda.
Desta necrópole, caminhamos em direção ao lado oposto da cidade para encerrar a tarde com uma visita ao imponente Túmulo de Timur (Gur-e-Amir).
Após passarmos pelas estátuas de bronze dos Tigres do Cáspio — um marcante memorial no parque vizinho dedicado a esta majestosa subespécie extinta que outrora habitava a Ásia Central —, deparamo-nos com a majestosa cúpula canelada de cor azul-turquesa, que coroa a entrada para o repouso do homem que moldou o destino do mundo.
Originalmente concebido pelo próprio Tamerlão (Timur) no início do século XV para ser o mausoléu do seu neto favorito, Muhammad Sultan, o Gur-e-Amir acabou por se tornar o mausoléu dinástico definitivo onde repousam os grandes governantes timúridas. O destino quis que o próprio conquistador, falecido subitamente em 1405 durante uma campanha militar rumo à China, fosse ali sepultado, ao lado dos seus filhos e de outro dos seus célebres netos, o astrónomo Ulugh Beg.
Arquitetonicamente, o edifício é uma obra-prima de proporções colossais que marca o auge da arte islâmica medieval, tendo servido de inspiração para futuras maravilhas do mundo, incluindo o famoso Taj Mahal na Índia. O exterior impressiona pelos seus minaretes elegantes e pelo portal ricamente decorado. Contudo, é ao cruzar o limiar da porta que nos confrontamos com uma opulência avassaladora: as paredes interiores estão totalmente revestidas de ouro, intrincados relevos e murais em tons de azul e dourado, que fazem o teto assemelhar-se a um céu estrelado de riqueza incomparável.
No centro da cripta, sob a cúpula, repousam as lápides ornamentadas. A de Tamerlão destaca-se de todas as outras, esculpida num único e raro bloco de jade verde-escuro. Sobre este túmulo paira a famosa lenda da sua maldição, que dizia que quem ousasse perturbar o sono do conquistador desencadearia um invasor mais terrível do que ele — uma profecia que muitos associam à invasão soviética, pela Alemanha Nazi, na Segunda Guerra Mundial, iniciada escassos dias após arqueólogos terem aberto o caixão em 1941.
No dia seguinte, entramos no complexo da Praça do Registão, o verdadeiro coração da antiga Samarcanda. O termo Registan, em uzbeque, significa literalmente "lugar de areia". Esta praça ganhou fama mundial devido ao seu conjunto arquitetónico único, hoje classificado como Património Mundial pela UNESCO.
Nos tempos antigos, este espaço era o centro da vida pública: ali as autoridades anunciavam as leis, realizavam-se celebrações ou execuções públicas, e o exército reunia-se antes de partir para a guerra. Era também um vibrante ponto de encontro para artesãos e mercadores.
Em três dos seus lados, a praça é emoldurada por três imponentes madraças (escolas corânicas) cujos portais decorados estão voltados para o centro do espaço: a de Ulughbek, a de Sher Dor e a de Tilla-Kori.
Exploramos o complexo sem pressas, deixando-nos surpreender pela arquitetura monumental, pela riqueza dos detalhes decorativos e pela atmosfera mística que o envolve.
Vale a pena recordar que, embora o Uzbequistão seja um país secular e muito seguro, ao visitar mesquitas e madraças ativas, tanto homens como mulheres devem vestir roupas que cubram os ombros e os joelhos. As mulheres devem ainda ter sempre à mão um lenço para cobrir a cabeça ao entrar nos locais sagrados.


À noite, as suas fachadas monumentais, agora totalmente iluminadas, oferecem-nos uma perspetiva mágica e fiel da grandeza com que os antigos viajantes e caravanas se deparavam ao avistar a cidade após longos meses no deserto.
É pela manhã que nos dirigimos para Shakhrisabz, 80 quilómetros a sul de Samarcanda, transpondo, no caminho, a passagem alpina de Takhta-Karacha. Foi esta mesma rota que, aquando da morte de Timur, impediu que a caravana com o seu corpo passasse para a cidade onde ele desejava ser enterrado — a neve intensa funcionou como uma verdadeira fronteira intransitável.
Shakhrisabz é um marco na história do país, um local com mais de 2700 anos que desempenhou um papel crucial na região da Ásia Central. Em 329 a.C., Alexandre, o Grande, conquistou a cidade, abrindo caminho para a cultura helenística e para o culto aos deuses gregos. Durante um milénio, a cidade esteve sob o reinado de várias dinastias e, no século VIII, tornou-se o centro de uma importante rebelião anti-árabe e anti-islâmica.
Hoje, Shakhrisabz é uma cidade-museu impecavelmente bem cuidada e classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. É também o berço de Amir Temur (Tamerlão) que, após subir ao poder, transformou a cidade na sua residência oficial e ordenou a construção do Palácio Branco, conhecido como Ak-Saray. Foi precisamente nesta época que a cidade deixou de se chamar Kesh para adotar o nome atual, que significa “cidade verde”.
As ruínas do gigantesco Palácio Ak-Saray e os seus complexos de mesquitas eram paragens cruciais e imponentes símbolos de poder ao longo das rotas comerciais que atravessavam as montanhas.
A grandiosidade original deste palácio era de tal ordem que impressionou profundamente Rui Gonsales de Klavixo, o diplomata e nobre castelhano que, em 1404, liderou a primeira embaixada europeia à corte de Amir Temur. Na sua famosa crónica Embajada a Tamorlán — um dos relatos mais ricos e detalhados da Rota da Seda —, Klavixo descreveu com espanto a opulência dos mosaicos azuis e dourados e a receção faustosa reservada aos enviados ocidentais. Estes portais colossais que resistiram ao tempo, despertam ainda hoje o mesmo deslumbramento daquele cronista do século XV.
Se o Palácio Ak-Saray era o reflexo do orgulho político de Amir Temur, o complexo Dor us-siyadat (a "Mansão da Soberania") era o espelho da sua alma e das suas tragédias familiares. Mandado erguer em 1380 após a morte precoce de Jahangir, o seu filho mais velho e herdeiro favorito, este complexo foi concebido para ser o grande mausoléu da dinastia timúrida.
A atmosfera atual do pátio convida ao recolhimento, abrigada pela sombra mística de plátanos gigantescos com cerca de 700 anos, plantados na mesma época em que as pedras eram colocadas. Foi aqui que visitámos o impressionante Mausoléu de Jahangir, com a sua cúpula cónica de 27 metros, e descemos à misteriosa cripta subterrânea destinada ao próprio Tamerlão. Escavada em mármore e calcário, com um enorme sarcófago já preparado, a sala permanece vazia — um testemunho silencioso daquela tempestade de neve que, anos mais tarde, alteraria o destino do seu descanso final.
Às refeições, fomos experimentando diferentes restaurantes para provar a gastronomia tradicional — como o famoso plov de Samarcanda, um aromático prato de arroz e carne de borrego, as generosas espetadas de carne conhecidas como shashlik, e os reconfortantes manti, uns pastéis cozidos a vapor e recheados com carne picada.
As sopas como a shurpa, um caldo de borrego e legumes, ou o lagman, uma sopa densa de noodles caseiros e carne picante, são ricas e reconfortantes. Para começar, nunca faltavam o non, o icónico pão uzbeque cozido em forno de barro, e uma salada achichuk de tomate e cebola. Para acompanhar, bebíamos o omnipresente kok-chay (chá verde) ou kora-chay (chá preto), servidos bem quentes em pequenas taças tradicionais chamadas pialas.
Após Samarcanda e a incursão à terra natal de Tamerlão, a Rota da Seda continua a desdobrar-se diante de nós e promete continuar a surpreender-nos a cada nova etapa do caminho.
























































































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