
Desta vez, vou integrar um grupo organizado por uma agência de viagens de aventura portuguesa. Pela frente, um roteiro ambicioso que inclui as míticas cidades de Samarcanda, Bukhara e Khiva — que outrora formaram a zona mais exótica da Rota da Seda na Ásia Central —, além da capital Tashkent e do impactante Mar de Aral.
O programa de 8 noites inclui alojamento em regime de bed & breakfast, entradas nos monumentos, guias locais, transportes em carrinha e comboio, um voo doméstico de regresso a Tashkent e o acompanhamento permanente de um líder de viagens português. Custou um total de 1.180€, excluindo os voos internacionais. Depois do check-in no hotel Marwa Tashkent Pool&Spa e já reunida com o grupo, saímos para a primeira exploração da cidade.
Localizado na encruzilhada da Ásia Central, o Uzbequistão confina com o Cazaquistão a norte, o Quirguistão a nordeste, o Tajiquistão a sudeste, o Afeganistão a sul e o Turcomenistão a sudoeste. Destino ainda resguardado do turismo de massas, revela-se surpreendentemente acessível, seguro e dotado de uma hospitalidade singular. Os viajantes de nacionalidade portuguesa beneficiam de isenção de visto, sendo a moeda local, o Som uzbeque, facilmente obtida através do câmbio de Euros ou Dólares em bancos e unidades hoteleiras.
Esta região foi o verdadeiro epicentro da Rota da Seda, que ao longo de 1500 anos — do século II a.C. ao século XV d.C. — viu comerciantes cruzar desertos e estepes. Transportando seda, especiarias, papel e porcelana, estas caravanas uniram a China ao Mediterrâneo e moldaram a identidade local.
Após integrar o Canato Túrquico e, mais tarde, o Império Timúrida, o território foi conquistado no início do século XVI por nómadas uzbeques vindos do norte Já na segunda metade do século XIX, a região foi anexada pelo Império Russo, tornando-se, em 1924, a República Socialista Soviética Uzbeque. A independência oficial foi declarada a 31 de agosto de 1991, escassos três meses antes da própria dissolução da União Soviética.
Na atualidade, o Uzbequistão configura-se como um mosaico cultural vibrante, onde a maioria uzbeque (81%) coexiste com minorias de russos, tajiques e cazaques. O idioma oficial é o uzbeque — uma língua de matriz túrquica, escrita no alfabeto latino e falada por 85% dos habitantes. No panorama religioso, a grande maioria declara-se muçulmana. Contudo, o Islão é vivenciado de forma aberta e sem filiações rígidas a um ramo específico, um traço cultural influenciado pela laicização do período soviético.
Tashkent, que significa literalmente "Cidade de Pedra", é a capital e a maior metrópole do Uzbequistão, albergando cerca de 3 milhões de habitantes. Estrategicamente posicionada no nordeste, a poucos quilómetros da fronteira com o Cazaquistão, a cidade concilia a modernidade com as marcas indeléveis do seu passado.
Fundada nos últimos séculos a.C., a cidade foi palco de inúmeros conflitos ao longo da história. Após ser completamente destruída por Gengis Khan em 1219, ergueu-se das cinzas e floresceu graças à Rota da Seda. A sua localização estratégica, a meio caminho entre a Europa e a China, transformou-a num entreposto comercial vital: era daqui que partiam e onde faziam escala as caravanas que rumavam ao vale de Fergana e a Kashgar, em direção ao território chinês.
Antes da chegada do Islão, em meados do século VIII d.C., as principais influências culturais da cidade eram sogdianas e túrquicas. Posteriormente, e até à segunda metade do século XIX, integrou vários estados turcomanos até que, em 1865, foi conquistada pelas forças imperiais, tornando-se a capital do Turquestão Russo.
Em 1966, um violento sismo destruiu a maior parte da cidade, deixando mais de 300 mil pessoas desalojadas. Tashkent foi reconstruída como uma "cidade-modelo" soviética, ascendendo à categoria de quarta maior metrópole da URSS, superada apenas por Moscovo, Leninegrado (atual São Petersburgo) e Kiev. Décadas mais tarde, em 2009, a capital celebrou com orgulho os seus 2200 anos de história documentada.
Com raízes profundamente ligadas ao comércio ancestral, o coração da vida quotidiana local ainda bate no Mercado Chorsu. Este autêntico epicentro urbano opera no mesmo local há séculos, perpetuando a tradição mercantil da Ásia Central.
O espaço destaca-se pela sua monumental cúpula de betão, ornamentada com azulejos e mosaicos em tons de azul e verde que filtram a luz natural de forma singular — uma marca inconfundível do modernismo soviético. A estrutura atual, contudo, resulta de uma reconstrução, dado que o mercado original foi quase totalmente arrasado no terramoto de 1966.
Do último piso do Hotel Uzbekistan, onde funciona um animado café-bar, contemplámos as fabulosas vistas que nos dão uma perspetiva aérea e arquitetónica da capital. Inaugurado em 1974, este icónico hotel de 4 estrelas é um dos exemplos mais puros e imponentes do estilo brutalista soviético no centro de Tashkent, erguendo-se orgulhosamente a 100 metros da Praça Amir Temur.
Seguimos para o complexo Khast Imam, o coração religioso do país. Este centro espiritual foi edificado junto ao túmulo de Hazrati Imam, um dos primeiros imãs da cidade, que se destacou como cientista, poeta, artesão e profundo estudioso do Alcorão. O imponente complexo é composto por vários edifícios emblemáticos: a madrassa Barak-Khan, a Mesquita Tilla Sheikh, o mausoléu de Abu Bakr Kaffal Shashi e o Instituto Islâmico de Imam al-Bukhari.
É também aqui que se encontra uma biblioteca extraordinária de manuscritos orientais, cujo maior tesouro é o famoso Alcorão de Uthman (do califa Uthman ibn Affan). Escrito em pergaminho em meados do século VII e composto por 353 folhas, é considerado o Alcorão mais antigo do mundo.
Fazemos a visita envoltos numa atmosfera mágica, enquanto o canto do muezim chama para a oração.
O orgulho pela independência, conquistada em agosto de 1991, está bem patente nas praças centrais e nos monumentos modernos da capital. Ainda assim, a herança soviética (1924–1991) continua bem viva na paisagem urbana. Manifesta-se de forma imponente nos grandes edifícios brutalistas e, acima de tudo, nas suas sumptuosas estações de metro.
Verdadeiras obras de arte subterrâneas, estas estações misturam a arquitetura palaciana e os detalhes geométricos uzbeques, sendo frequentemente comparadas às famosas estações de metro de Moscovo. Por trás de cada uma, esconde-se uma pequena história.
A estação Alisher Navoi é dedicada ao icónico poeta e estadista do século XV. O seu interior assemelha-se a um palácio oriental ou a uma sumptuosa madrassa da Rota da Seda. O teto está coberto por cúpulas azuis adornadas com intrincados padrões dourados, enquanto as paredes exibem painéis cerâmicos em tons de turquesa que retratam cenas inspiradas nos seus poemas.
Na estação Kosmonavtlar (Cosmonautas), o tradicional dá lugar a um sonho retro-futurista soviético focado na exploração espacial. As paredes exibem um gradiente azul-escuro que transita para o negro, simulando a viagem através da atmosfera em direção ao cosmos. Ao longo da plataforma, medalhões de cerâmica flutuam no espaço, exibindo os rostos de figuras lendárias como Yuri Gagarin e Valentina Tereshkova, sob um teto abobadado que evoca o brilho da Via Láctea.
No dia seguinte, embarcamos no comboio de alta velocidade Afrosiyob rumo a Samarcanda, de onde partiremos para novas etapas deste vasto país.
No final da rota, regressamos a Tashkent para uma derradeira noite na animada capital uzbeque.
Será o momento ideal para ver a cidade iluminada e passear pelo Tashkent City Park ao ritmo do espetáculo de luzes e águas dançantes.
Por fim, celebramos o desfecho desta aventura no restaurante ‘Arrows & Sparrows’, sobranceiro ao lago.





























































