Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

domingo, 27 de agosto de 2023

AZERBAIJÃO

A República do Azerbaijão é um país transcontinental na região do Cáucaso, situado no cruzamento entre o Leste Europeu e o Sudoeste Asiático. É delimitado pelo Mar Cáspio ao leste, a Rússia ao norte, a Geórgia a noroeste, a Arménia a oeste e o Irão ao sul. O exclave de Naquichevão, separado pelo território arménio, possui ainda uma pequena fronteira com a Turquia a noroeste. 

O país foi incorporado na União Soviética em 1920 como a República Socialista Soviética do Azerbaijão, tendo proclamado a restauração da sua independência em agosto de 1991, meses antes da dissolução definitiva da URSS. A língua oficial é o azerbaijano (ou azeri), pertencente à família das línguas turcas, embora o russo continue a ser compreendido devido ao passado soviético. Todas as transações comerciais locais são efetuadas em Manat azeri (AZN), a moeda oficial, cujo símbolo gráfico é ₼.

A nação possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elevado e regista taxas muito elevadas de alfabetização. Impulsionado por fortes receitas energéticas, o país tem apostado significativamente na modernização de infraestruturas, procurando diversificar a economia para além dos hidrocarbonetos — os vastos recursos de petróleo bruto e gás natural que continuam a ser o motor central da riqueza económica e do poder geopolítico do país.

Refletindo este crescimento e dinamismo global, aterrei num aeroporto super moderno, o Aeroporto Internacional Heydar Aliyev, e deparei-me com uma capital cosmopolita, marcada por altos edifícios futuristas.


Mas basta virar a esquina para tropeçar em séculos de história e perceber que Baku, a capital do Azerbaijão, é uma mistura de contrastes fascinantes que se estendem ao longo do Mar Cáspio, onde a sofisticação da arquitetura contemporânea se cruza de forma audaz com os vestígios da Cidade Velha e da antiga Rota da Seda.


   

Cruzar as antigas muralhas de pedra da Cidade Velha (Icherisheher) é como recuar no tempo. Classificada como Património Mundial pela UNESCO, esta zona histórica fortificada fascina pelas suas ruelas labirínticas cheias de charme, onde tapetes coloridos se estendem às portas e pequenos cafés convidam a uma paragem.

   

No coração deste núcleo medieval, destacam-se dois monumentos icónicos que simbolizam a grandiosidade e os mistérios da arquitetura azeri: o Palácio dos Shirvanshahs e a Torre da Donzela.

O imponente Palácio dos Shirvanshahs, erguido no ponto mais alto da cidadela durante o século XV, é uma obra-prima da arquitetura islâmica medieval que serviu de residência real após a transferência da capital de Shamakhi para Baku. O complexo estende-se por vários pátios e inclui o palácio principal, um imponente tribunal (Divankhane), a mesquita real e os balneários públicos (hamam).

A Torre da Donzela (Maiden Tower), o monumento mais enigmático do país, ergue-se a 29 metros de altura. Embora a sua estrutura visível e as inscrições atuais datem maioritariamente do século XII (era medieval), escavações revelam que a sua fundação remonta aos séculos VII ou VI a.C. Longe de ser apenas uma fortaleza defensiva, os seus grossos muros e a arquitetura interior sugerem que terá funcionado originalmente como um antigo Templo do Fogo Zoroastrista.


Ainda no interior da cidadela, situa-se o singular Museu de Livros em Miniatura, o único no mundo inteiramente dedicado a este tipo de publicações. Com entrada gratuita, o espaço abriu em abril de 2002 para acolher a coleção pessoal da fundadora, Zarifa Salahova, iniciada em 1982. O acervo ostenta um recorde do Guinness para a maior coleção privada da categoria, reunindo mais de 8.000 livros recolhidos de 76 países. Para serem consideradas miniaturas, as obras não podem exceder os 10x10 cm, embora muitas tenham o tamanho de um selo postal ou de uma caixa de fósforos. Entre as suas relíquias estão o menor livro do mundo (com apenas 2x2 mm), edições raras do Alcorão, obras de autores clássicos como Pushkin e Dostoiévski, e até versões em português de O Pequeno Príncipe.

Juntos, estes tesouros contam a história de uma Baku que soube preservar as suas raízes imperiais, espirituais e culturais, servindo de contraponto perfeito à metrópole futurista que cresceu ao seu redor. Ao harmonizar esta herança milenar com a audácia da sua arquitetura contemporânea, a capital consolida-se de forma única como o principal polo político, económico e turístico do país.

Coroando esta audácia, as modernas Flame Towers rasgam o céu e impõem uma atmosfera quase de ficção científica. Este trio de arranha-céus em forma de labaredas, cuja construção começou em 2007, domina a linha de horizonte da cidade. O design arrojado presta homenagem à designação histórica do Azerbaijão como a "terra do fogo", uma referência aos fenómenos naturais em que chamas de gás natural disparam diretamente do solo e que, no passado, levaram os adoradores do Zoroastrismo a ver no fogo um símbolo divino. As torres erguem-se como um tributo tecnológico ao "fogo eterno" do país.

À noite, as fachadas transformam-se por completo através de uma cobertura integral de ecrãs LED que exibem animações visuais dinâmicas. Do hotel onde me hospedei, o Baku Tour Hotel, conseguia vislumbrar este espetáculo de luzes e cores em movimento; uma vista deslumbrante que me acompanhava de forma igualmente marcante na sala de refeições onde era servido o pequeno-almoço.

Daqui tinha uma extraordinária vista panorâmica da skyline e da extensa avenida marginal planeada ao longo da baía do Mar Cáspio, por onde fiz longas caminhadas apesar do tempo quente que se fazia sentir. Neste percurso, o célebre Baku Boulevard, situa-se o imponente Deniz Mall, um centro comercial de arquitetura futurista que evoca o formato de uma flor aberta, e logo ao lado o curioso Museu do Tapete — cujo edifício tem, literalmente, a forma de um tapete enrolado.

O Museu Nacional do Tapete do Azerbaijão (Azərbaycan Milli Xalça Muzeyi), cujo arrojado edifício de três pisos projetado pelo arquiteto austríaco Franz Janz abriu as portas em 2014, carrega o título de primeira instituição especializada do mundo dedicada à preservação, investigação e exibição da arte tradicional da tecelagem. Fundado originalmente em 1967, o museu celebra uma tradição azeri de tamanha relevância histórica que foi classificada como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. O espaço abriga hoje mais de 11.000 peças, incluindo a maior coleção de tapetes do mundo — com exemplares raros que vão do século XVI ao século XX —, além de vestimentas tradicionais, joias e cerâmicas que ilustram a mitologia e os antigos costumes do país.

Logo após o museu, o dinâmico Baku Boulevard revela a encantadora "Mini Veneza" (Kiçik Venesiya), uma idílica área de canais artificiais e pontes de pedra onde é possível andar de gôndola. Esta extensa zona pedonal estende-se por vários quilómetros à beira-mar e está sempre cheia de vida, ladeada por praças arborizadas, luzes brilhantes e uma quantidade imensa de restaurantes e esplanadas que contrastam com fachadas imponentes do século XIX.

Mais adiante, encontramos a icónica Praça das Fontes que, juntamente com a animada Rua Nizami (historicamente conhecida como Torgovaya), constitui o verdadeiro centro nevrálgico da atividade pedonal e comercial de Baku. A zona é delimitada por elegantes fachadas clássicas de finais do século XIX e início do século XX, concentrando uma vasta rede de comércio, boutiques de luxo, restauração e o pulsar constante da vida urbana da capital.

Um outro edifício disputa o título de maior prodígio arquitetónico da cidade: o Centro Heydar Aliyev. Projetado pela icónica arquiteta iraquiana-britânica Zaha Hadid, este complexo cultural é reconhecido internacionalmente pela sua arquitetura desconstrutivista de linhas fluidas e curvas contínuas que evitam rigorosamente qualquer ângulo agudo ou linha reta. As suas formas brancas parecem ondas gigantes que emergem suavemente do solo, abrigando diversas salas de exposições, um auditório topo de gama e eventos culturais de relevo.

Esta ambição monumental estende-se ao Estádio Olímpico de Baku, uma estrutura circular com capacidade para quase 70 mil espetadores que é não só um palco de grandes competições desportivas mundiais, mas também um reflexo físico da engenharia de ponta que agora define a silhueta da cidade.

Para o lado sul do Boulevard, depois da área onde se encontra a Roda Gigante de Baku e antes do Baku Crystal Hall - um salão multiusos interior, junto à Praça da Bandeira Nacional, inaugurado em 2012, e que foi o palco do Festival Eurovisão da Canção nesse ano e dos Jogos Europeus de 2015 – situam-se as ruínas do Castelo de Sabayil, uma fortaleza medieval parcialmente submersa localizada a cerca de 350 metros da costa, na Baía de Baku. Foi edificada entre 1232 e 1235 pelo rei Fariburz III da dinastia Shirvanshah com o objetivo de proteger a baía e a cidade contra invasões navais e marítimas.

Um forte sismo em 1306 fez com que a estrutura colapsasse e ficasse submersa devido à subida do nível do mar e à atividade tectónica. Os arqueólogos recuperaram cerca de 700 blocos de pedra esculpidos com inscrições em árabe e persa, textos históricos e representações raras de rostos humanos e animais, artefactos estes actualmente expostos no pátio do Palácio dos Shirvanshahs.

Baku surpreende a cada esquina porque não tenta esconder as suas cicatrizes nem o seu passado soviético; em vez disso, abraça o futuro e a modernidade com uma confiança desarmante, deixando o visitante completamente rendido a este indomável "fogo" do Cáucaso.


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