No início de junho de 2023, participei num grupo de caminhada que se dirigiu à comunidade autónoma da Andaluzia, em Espanha, para percorrer o famoso Caminito del Rey e visitar localidades emblemáticas como Setenil de las Bodegas e Ronda.
Setenil de las Bodegas situa-se a norte de Ronda e faz parte da Rota das Aldeias Brancas (la Ruta de los Pueblos Blancos), na província de Cádis. É uma das vilas mais bonitas e peculiares do mundo, declarada Conjunto Histórico-Artístico em 1985 devido à beleza e originalidade do seu traçado urbano. O casario desce em alto declive desde o castelo até ao percurso do rio, apresentando uma singular disposição em diferentes níveis de altura que oferece vistas deslumbrantes sobre a envolvente serra de Grazalema.
Na parte baixa, os habitantes aproveitaram a erosão das rochas escavadas pelo rio para construir as chamadas "casas sob rochas" (abrigos bajo rocas). Contrariamente a outras construções semitroglodíticas da Andaluzia, estas habitações não foram escavadas do zero; os moradores limitaram-se a fechar a parede rochosa exterior, desenvolvendo a residência de forma longitudinal. Os melhores lugares para admirar este fenómeno são as icónicas ruas Cuevas del Sol e Cuevas de la Sombra, onde sobressai uma impressionante rocha gigante que cobre por completo a rua principal, desafiando a gravidade.
Ronda, localizada na província de Málaga, é uma cidade monumental erguida sobre um impressionante promontório rochoso que se abre para a imensidão da serra de Ronda. Oferece panoramas magníficos sobre o vale dividido pelo rio Guadalevín e é mundialmente famosa pela sua Puente Nuevo. Concluída em 1793 após décadas de construção, esta imponente ponte de pedra une o centro histórico à parte nova da cidade, superando o abismo do cânion El Tajo, que conta com cerca de 100 metros de profundidade.
A cidade destaca-se não só pela sua impressionante arquitetura, mas também pela sua enprme importância histórica. Durante a visita ao casco viejo (o centro histórico), passeámos pelas suas encantadoras ruas brancas, onde o grande destaque foi a Igreja de Santa María la Mayor. Esta igreja ergue-se sobre a antiga mesquita maior da cidade, um edifício do século XIII do qual ainda permanecem visíveis os vestígios do antigo miradouro e do arco do mihrab.
Para além do seu património sagrado, Ronda é tida como uma das cidades-berço das touradas modernas a pé. A cidade alberga a prestigiada Plaza de Toros de Ronda, inaugurada em 1785, considerada como uma das praças de touros mais antigas, belas e historicamente significativas de Espanha.
Esta forte tradição taurina e a beleza dramática de Ronda atraíram grandes figuras da cultura mundial, com especial destaque para o escritor norte-americano Ernest Hemingway que visitou a cidade pela primeira vez em 1923 e se apaixonou imediatamente pelo seu magnetismo. Na sua obra Morte à Tarde (1932), o autor imortalizou a cidade ao escrever que Ronda era o local ideal em Espanha para passar uma lua de mel ou para fugir com alguém. A sua profunda amizade com a dinastia de toureiros locais, os Ordóñez, serviu-lhe de inspiração para várias crónicas e romances, incluindo O Verão Perigoso.
Além disso, o cenário dramático de El Tajo inspirou um dos capítulos mais célebres e violentos do seu livro sobre a Guerra Civil Espanhola, Por Quem os Sinos Dobram (1940), onde descreve prisioneiros a serem lançados do topo de uma falésia. Hoje, o seu legado permanece vivo na cidade através do Paseo de Ernest Hemingway, um miradouro pedestre junto à falésia que exibe um busto em sua homenagem.
A par de Hemingway, o lendário cineasta norte-americano Orson Welles também viveu uma profunda e mítica história de amor com Ronda, onde costumava passar longas temporadas de verão. Fascinado pela beleza dramática do desfiladeiro de El Tajo e pela ancestral tradição taurina da região, Welles celebrizou a frase: "Um homem não pertence ao lugar onde nasce, mas sim ao lugar onde escolhe morrer". E assim o fez. Após falecer em Los Angeles, em 1985, a sua família decidiu que o seu verdadeiro lugar de descanso seria a Andaluzia. Dois anos mais tarde, as suas cinzas foram trazidas para Ronda e sepultadas no fundo de um poço artesanal na propriedade rural Recreo de San Cayetano, pertencente ao seu grande amigo e célebre matador de touros Antonio Ordóñez.
Atualmente, a homenagem da cidade a esta figura do cinema mundial pode ser testemunhada no Paseo de Orson Welles, um bonito percurso pedestre onde se ergue um busto em bronze que celebra o realizador como um dos grandes embaixadores históricos de Ronda.
O Caminito del Rey é um deslumbrante trilho aéreo cravado nas paredes rochosas dos desfiladeiros de Gaitanejo e dos Gaitanes, na região de El Chorro, a norte de Málaga. Elevando-se a uma altitude que supera os 100 metros acima do rio Guadalhorce nas suas incríveis paredes verticais, o percurso oferece uma experiência vertiginosa e inesquecível, não sendo por isso adequado a quem sofra de vertigens.
A sua construção, concluída em 1905, foi projetada pela Socied Hidroeléctrica del Chorro. Os trabalhadores necessitavam de uma passagem rápida que cruzasse os desfiladeiros para o transporte de materiais, vigilância e manutenção do canal de água que ligava os reservatórios do norte à central hidroelétrica.
Em 1921, o rei Afonso XIII cruzou este vertiginoso caminho para inaugurar a vizinha Represa del Conde del Guadalhorce, e foi a partir dessa visita real que a rota passou a ser popularmente conhecida pelo seu nome atual: "Caminito del Rey".
Com o passar dos anos, o abandono total e a falta de manutenção fizeram com que a estrutura de betão original se deteriorasse gravemente, com várias secções a desmoronarem por completo. Longe de afastar as pessoas, este cenário atraiu centenas de aventureiros de todo o mundo, desejosos de percorrer o que foi considerado durante décadas como "o caminho mais perigoso do mundo".
No entanto, após uma sucessão de trágicos acidentes que resultaram na morte de vários turistas entre 1999 e 2000, o governo local decidiu fechar a rota, estipulando pesadas multas para quem a tentasse invadir.
Entretanto, deu-se início a um ambicioso projeto de reabilitação do caminho que reabriu ao público totalmente transformado em março de 2015, tendo sido facilitada a sua travessia através da instalação de passadiços de madeira com redes de proteção lateral de aço, ancorados à rocha.

O antigo e degradado percurso de betão ainda pode ser visto imediatamente por baixo do atual.
Durante a caminhada, as vistas são avassaladoras: a força da água que esculpiu o desfiladeiro ao longo de milhões de anos corre sob os nossos pés, enquanto as cristas afiadas das montanhas andaluzas se erguem ao nosso redor, servindo frequentemente de refúgio e habitat a imponentes abutres-fouveiros que sobrevoam o cânion.
Uma das maiores surpresas geológicas do percurso surge gravada diretamente numa das paredes de rocha calcária do Desfiladeiro dos Gaitanes: o fóssil perfeitamente preservado de uma amonite pré-histórica gigantesca, um cefalópode marinho que ali ficou petrificado na época em que toda esta região montanhosa se encontrava submersa pelo antigo mar de Tétis.
Para além do calçado de caminhada adequado a pisos irregulares, o uso de capacete de proteção é obrigatório durante todo o percurso, sendo fornecido gratuitamente logo à entrada. Adicionalmente, nas visitas em grupo, cada participante leva ao pescoço um aparelho recetor de radioguia com auscultadores, indispensável para se conseguir ouvir as explicações históricas do guia, contornando o forte eco do vento e o ruído da água no fundo do desfiladeiro.
O itinerário linear faz-se no sentido Norte-Sul e tem uma extensão de aproximadamente oito quilómetros, dos quais cinco correspondem a trilhos florestais de terra batida e acessos, e três são passados diretamente nas espetaculares passarelas suspensas no coração dos desfiladeiros.
Este programa em autocarro incluiu uma noite de alojamento no Hotel La Sierra, em Antequera, e foi realizado em regime de pensão completa, englobando o jantar de sábado, o pequeno-almoço de domingo e os dois almoços do fim de semana. Os valores deste pacote turístico rondaram os 270 € por pessoa.



































































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