Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

sábado, 30 de setembro de 2023

Rumo ao Deserto

Partimos de Khiva de madrugada para apanharmos o fresco que o deserto ainda permitir. Rumamos a norte em direção ao Caracalpaquistão, a única República Autónoma do Uzbequistão. Esta é uma região fora da rota tradicional, marcada por paisagens surreais e isoladas, mas também pelo cenário daquela que é amplamente conhecida como a maior tragédia ecológica do século XX: a secagem do Mar de Aral.

A viagem até ao extremo norte é longa, com cerca de 6 horas de estrada, mas o trajeto é enriquecido por paragens históricas. Deixamos o deserto profundo para trás e fazemos uma paragem nas margens do rio Amu Darya, onde observamos a Torre do Silêncio de Chilpik Kala (ou Chilpyk Dakhma), situada no topo de uma colina com cerca de 35 metros de altura.

Trata-se de um impressionante monumento funerário zoroastriano usado para a prática da excarnação (ou sepultamento celestial). Tem forma circular, paredes de tijolos de adobe com aproximadamente 15 metros de altura e cerca de 65 metros de diâmetro, tendo sido construída entre o século I a.C. e o século I d.C. Após as invasões árabes e a islamização da região, a estrutura deixou de funcionar como dakhma e passou a ser usada como torre de vigia e sinalização militar, graças à sua visibilidade de 360 graus sobre a estepe. Perto do monumento, podemos também observar iurtas, as tradicionais tendas nómadas da região.

Depois da paragem para almoço, seguimos viagem para Moynaq — o antigo porto de pesca que hoje fica a dezenas de quilómetros da água —, onde visitamos o Museu de História do Mar de Aral. É o local ideal para sentir a realidade do que foi, um dia, a vida desta vibrante vila piscatória: um porto de mar cheio de azáfama com uma forte economia assente na pesca.

Depois, segue-se o confronto direto com a destruição atual. Fazemos um passeio sereno pela antiga marginal onde, um dia, as ondas batiam e que agora se encontra a mais de 100 quilómetros de distância da água. No fundo seco do antigo leito do mar, a visão do Cemitério de Navios, com as suas carcaças de ferro abandonadas no meio da imensidão do deserto, é de cortar a respiração — um local de enorme impacto visual, histórico e melancólico.

Originalmente, o Mar de Aral era o quarto maior lago do mundo, com uma superfície de 68.000 km² e 1.100 km³ de volume de água salgada. No entanto, a partir de 1960, o lago começou a encolher drasticamente devido a projetos de irrigação soviéticos mal executados. Estas iniciativas desviaram os rios que o alimentavam — o Amu Darya e o Syr Darya — para a cultura intensiva do algodão, sendo esta a causa direta do seu desaparecimento. Em 2007, o mar estava reduzido a uns impressionantes 10% do seu tamanho original, entrando num avançado processo de desertificação.

Com o desenvolvimento da agricultura extensiva e da urbanização ao longo do curso dos rios, os afluentes passaram também a depositar nas suas águas grandes quantidades de poluentes, como pesticidas, agrotóxicos e efluentes industriais. O impacto ecológico e humano foi devastador:

Colapso da economia local: A atividade piscatória cessou por completo com a destruição do ecossistema. As cidades outrora prósperas e ligadas ao comércio marítimo foram progressivamente abandonadas pelas populações ribeirinhas. Perda de biodiversidade: O aumento abrupto da salinidade eliminou a fauna nativa, levando ao desaparecimento quase total de peixes e de outras espécies animais.

Crise de Saúde Pública: A areia exposta do fundo do lago acumulou metais pesados e substâncias químicas. Levada por violentas tempestades de vento, esta poeira tóxica continua a provocar taxas elevadas de cancro e doenças respiratórias crónicas nas comunidades que resistem na região. Alterações Climáticas Locais: Sem a grande massa de água para regular a temperatura, o clima local tornou-se extremo: os verões são cada vez mais quentes e secos, e os invernos mais frios e prolongados.

Para tentar travar as violentas tempestades de areia e sal que castigam a região, existem atualmente projetos ecológicos internacionais focados em plantar arbustos nativos (como o saxaul) diretamente no fundo seco do antigo mar, numa tentativa de criar barreiras verdes e "oásis artificiais" modernos.

No regresso, começamos a descer em direção a sul numa viagem de aproximadamente três horas. Pouco antes de chegar ao destino final, cerca de 22 quilómetros a norte de Nukus, fazemos uma paragem obrigatória na Necrópole de Mizdakhan. Esta é uma verdadeira "cidade dos mortos" com milhares de anos. O complexo histórico conta com centenas de túmulos e mausoléus, alguns dos quais remontam ao século XIV. O local está envolto em misticismo: reza a lenda local que é aqui que se encontra sepultado Adão, o primeiro homem.

Terminamos o dia em Nukus, a moderna capital do Caracalpaquistão, onde pernoitamos numa guesthouse. Com cerca de 320.000 habitantes, a cidade distingue-se totalmente de centros históricos uzbeques como Samarcanda ou Khiva, pois nunca foi um ponto de repouso medieval para as caravanas da Rota da Seda. A sua origem é inteiramente recente: cresceu de uma pequena povoação para uma cidade planeada na década de 1930, em pleno período soviético.

Geograficamente, situa-se junto ao rio Amu Darya e está rodeada pelo deserto de Kyzylkum. Graças ao rio e à imensa rede de canais artificiais construída para a agricultura do algodão, a área urbana funciona como uma surpreendente zona verde isolada pela aridez circundante. Hoje, a localidade serve como a principal base de entrada para os viajantes que procuram testemunhar o desastre ambiental do Aral.

Apesar da sua aura industrial e soviética, Nukus esconde um importante tesouro cultural: o Museu Estatal de Artes do Caracalpaquistão (homenagem a I.V. Savitsky). Igor Savitsky reuniu uma extensa coleção de joias, tapetes, moedas e trajes tradicionais da cultura caracalpaque, mas o grande destaque do espaço é a sua extraordinária coleção de arte de vanguarda soviética proibida. Desconhecido de grande parte do mundo, este acervo artístico sobreviveu à censura do regime de Estaline graças ao isolamento geográfico de Nukus, tornando este museu num dos mais fascinantes do planeta.

No dia seguinte, deixámos a região e apanhámos um voo doméstico da Uzbekistan Airways de Nukus/Urgench de volta à capital, Tashkent, onde aterrámos a meio da manhã. Ao final do dia, celebrámos o fim desta aventura num jantar de despedida, antes da última noite num hotel da capital.

Ao nono dia, terminámos a nossa viagem pelo Uzbequistão. Cada um dos participantes dirigiu-se ao aeroporto para apanhar os respetivos voos internacionais de regresso. No meu caso, voei primeiro com a Air Arabia de Tashkent para Abu Dhabi e daqui para Roma a bordo da Wizz Air. Da capital italiana regressei a Lisboa com a TAP, aproveitando um vale de reembolso de um voo que me tinha sido previamente cancelado por esta companhia. 


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