Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Para além de Baku

• Península de Absheron - Fenómenos Naturais

A Península de Absheron, situada nos arredores de Baku, é o cenário de fenómenos geológicos únicos que moldaram a identidade cultural do Azerbaijão. Esta região destaca-se pelas suas reservas subterrâneas de gás natural que, ao escaparem para a superfície e entrarem em contacto com o oxigénio, entram em combustão espontânea. Esta particularidade inspirou historicamente o Zoroastrianismo (religião que venera o fogo) na região e justifica plenamente o famoso epíteto do país: a "Terra do Fogo". Dois dos locais mais emblemáticos para testemunhar este legado são Yanar Dag e Ateshgah.

Localizada a cerca de 25 quilómetros a nordeste do centro da capital, Yanar Dag (que se traduz literalmente como "montanha que arde") é um dos fenómenos naturais mais raros e fascinantes do mundo. Trata-se de uma encosta de arenito poroso onde chamas alimentadas por uma fuga constante de metano ardem ininterruptamente há séculos, atingindo por vezes até 3 metros de altura. A força deste fogo subterrâneo é tal que permanece ativo mesmo sob chuva intensa, vento forte ou neve.

Este e outros focos semelhantes na região foram documentados historicamente por exploradores como Marco Polo e estão na génese da herança espiritual do país ligada ao zoroastrianismo (o culto do fogo). Atualmente, o espaço está estruturado como um moderno complexo de reserva histórica e cultural.

O magnetismo místico deste território estende-se até à vila de Surakhani, a cerca de 30 quilómetros de Baku, onde se encontra o Templo de Ateshgah. O seu nome traduz-se do persa como "Casa" ou "Lugar do Fogo" e este complexo fortificado do século XVII é um dos monumentos mais singulares do país.

Construído em formato pentagonal com um pátio central, a sua estrutura foi estrategicamente erguida sobre uma das muitas saídas naturais de gás da península. Esta particularidade transformou o espaço num importante santuário de peregrinação para devotos do zoroastrianismo, do hinduísmo e do sikhismo, atraindo viajantes de toda a Ásia que ali se deslocavam para prestar culto às chamas sagradas do Cáucaso.

O coração do complexo é uma rotunda ou altar central de pedra (tetrapilar) onde ardia uma chama eterna, outrora alimentada por emanações naturais de gás subterrâneo. Contudo, devido à intensa exploração industrial de petróleo e gás na região durante o final do século XIX, as bolsas de gás natural esgotaram-se e o fogo original acabou por se extinguir em 1902.

Atualmente, o monumento funciona como um museu que preserva esta forte ligação histórica entre a geologia da região e a fé dos seus antigos visitantes. A chama simbólica é mantida ativa através de uma ligação à rede pública de gás. Nas antigas celas de pedra onde os monges e os mercadores da Rota da Seda pernoitavam, podemos hoje examinar inscrições originais em sânscrito, punjabi e persa, que comprovam a histórica fusão cultural e religiosa que marcou a história do Cáucaso.

• Rota Sul (Bibi-Heybat, Gobustão e Vulcões de Lama)

Situada à beira-mar, a cerca de 6 quilómetros a sul do centro de Baku, a Mesquita Bibi-Heybat é uma imponente mesquita xiita e um dos centros espirituais mais importantes do Azerbaijão. O edifício atual, concluído no final dos anos 1990, é uma recriação fiel de uma célebre mesquita do século XIII construída pela dinastia dos Shirvanshahs. A estrutura original foi totalmente dinamitada e destruída pelos bolcheviques em 1936 durante a campanha antirreligiosa soviética. O complexo abriga o túmulo de Ukeyma Khanum, um descendente direto do Profeta Maomé, e destaca-se externamente pelas suas três cúpulas e minaretes.

    

Continuando para sul a partir de Bibi-Heybat, a cerca de 60 quilómetros de Baku, encontra-se a Reserva Nacional do Gobustão, riquíssima em vestígios arqueológicos da presença humana. A reserva preserva uma impressionante coleção de mais de 6.000 petróglifos (gravuras na rocha) que se estendem desde o Paleolítico Superior até à Idade Média.


O complexo integra o Museu de Arte Rupestre, um museu interativo moderno de alta qualidade.

O Gobustão serve também de acesso à maior concentração mundial de vulcões de lama. O Azerbaijão acolhe cerca de metade destes vulcões em todo o planeta, oferecendo uma paisagem lunar única onde pequenas crateras de argila cinzenta borbulham continuamente com lama fria impulsionada por bolsas subterrâneas de metano.

• Rota do Interior Oeste (Shamakhi, Lago Nohur e Sheki)

Situada na histórica cidade de Shamakhi, a aproximadamente 120 quilómetros a oeste de Baku, situa-se a Mesquita Juma, a mesquita mais antiga do Azerbaijão e um dos marcos islâmicos mais importantes de todo o Cáucaso. Fundada originalmente em 743 d.C. durante o Califado Omíada, a estrutura destaca-se pela sua arquitetura única baseada num plano de três salões de oração independentes, cada um com o seu próprio mihrab e entrada.

Ao longo dos séculos, o edifício revelou uma resiliência extraordinária, tendo sobrevivido a sismos devastadores (com particular gravidade em 1859 e 1902) e a incêndios provocados por conflitos étnicos em 1918. Durante a era soviética, o espaço foi desativado para fins religiosos e funcionou como museu.

Após a independência, a mesquita foi alvo de uma profunda intervenção arqueológica e de um rigoroso projeto de restauro estatal concluído em 2013. O trabalho devolveu ao monumento os traços tradicionais da escola arquitetónica de Shirvan-Absheron, consolidando-o como um dos mais imponentes e ornamentados locais de culto e tolerância religiosa do país.

   

Continuando viagem rumo a oeste, em direção ao distrito de Gabala, parámos no Lago Nohur para almoçar. O lago está localizado numa depressão natural a cerca de 700 metros de altitude, entre as montanhas de Gulluburun, Goydag e Yumuru. Este deslumbrante espelho de água rodeado por densas florestas de pinheiros foi expandido pós-Segunda Guerra Mundial para servir como reservatório de água. Hoje é um dos refúgios de natureza e lazer mais procurados do país.

No inverno, a superfície do lago congela por completo com uma espessa camada de gelo, oferecendo um cenário alpino dramático. O perímetro do lago está equipado com pequenos mercados de artesanato, mel local, frutos secos e casas de chá tradicionais, onde se pode saborear o típico chá azeri (servido em copos em forma de pera) com doces de Gabala face à paisagem das montanhas do Grande Cáucaso.

O Apogeu da Rota da Seda no Norte do País

Sheki é uma cidade localizada no norte do Azerbaijão, na parte sul da cordilheira do Grande Cáucaso, a cerca de 300 km de Baku. Foi fundada por volta do século VIII a.C. e era um dos maiores estados albaneses caucasianos da região. O seu centro histórico e o palácio principal foram inscritos na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2019 pela sua arquitetura única e como um importante centro comercial ao longo da histórica Rota da Seda.

O Palácio dos Khans de Sheki (Xan Sarayi), construído em 1762 como residência de verão, é uma obra-prima arquitetónica de dois andares erguida sem o uso de um único prego ou cola.

O edifício é mundialmente famoso pelas suas janelas em shebeke — complexos mosaicos de vitrais coloridos montados em treliças de madeira geométricas. O seu interior está integralmente coberto por frescos detalhados do século XVIII que retratam cenas de caça, guerras e motivos florais.

O Caravançarai de Sheki é um enorme complexo fortificado de pedra do século XVIII que servia de estalagem e entreposto comercial para os mercadores da Rota da Seda. O edifício ostenta um grande pátio central arqueado e parte da estrutura funciona ainda hoje como um hotel histórico, permitindo aos visitantes pernoitar num autêntico cenário medieval.

A Igreja de Kish localiza-se na pitoresca vila de Kish, a apenas 5 quilómetros de Sheki. Trata-se de uma igreja paleocristã de pedra com telhado cónico, sendo um dos monumentos sobreviventes mais fascinantes da antiga Albânia do Cáucaso (uma entidade histórica distinta da Albânia europeia).

    

Tal como a visita à Península de Absheron em conjunto com a Rota Sul, esta viagem ao interior também foi uma excursão de um dia que marquei localmente numa agência. No regresso a Baku, já noite, parámos num restaurante local para jantar e provar o ‘qutab’, uma espécie de panqueca ou pão achatado muito fino, recheado com carne picada, queijo ou ervas, cozinhado numa chapa tradicional convexa (saj).

   

   

Em suma, a simbiose perfeita entre a sofisticação europeia e a hospitalidade milenar da Eurásia consolida o Azerbaijão não apenas como um destino turístico emergente, mas como uma experiência cultural obrigatória e inesquecível no coração do Cáucaso.