Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Portugal: Comboios, rios e cruzeiros (Sul)

Visitas realizadas nos últimos anos relacionadas com rios, cruzeiros e comboios, em Portugal. Tema introduzido no meu blog durante a pandemia de Covid-19.

O rio Guadiana, com os seus 829 quilómetros de comprimento total, destaca-se como o quarto mais longo da Península Ibérica. Nascido em Espanha, nas Lagoas de Ruidera (província de Cidade Real), atravessa o território espanhol e entra em Portugal na zona de Elvas e Mourão. No nosso país, o rio toma uma direção dominante de norte para sul, percorrendo cerca de 260 quilómetros em solo português, onde se assume como a grande fronteira natural do Sul.

No concelho de Elvas, no ponto onde o rio passa a tocar Portugal, o Guadiana serve de pano de fundo a um dos monumentos mais carregados de simbolismo e história da Península Ibérica: as ruínas da Ponte de Nossa Senhora da Ajuda. Mandada construir por D. Manuel I em 1510 para ligar Elvas a Olivença, as suas arcadas imponentes, destruídas em 1709 durante a Guerra da Sucessão Espanhola, mantêm-se como um testemunho monumental de pedra recortado na paisagem.

Logo abaixo, encontramos a Fortaleza de Juromenha, a célebre "Sentinela do Guadiana". Erguida estrategicamente num cerro escarpado, oferece vista panorâmica sobre as águas calmas do rio e sobre a vizinha Espanha. O monumento está presentemente em obras de consolidação e restauro das muralhas com o objetivo de o salvar de mais de um século de abandono e ruína progressiva. O trabalho foca-se na reconstrução e estabilização dos três níveis de muralhas (islâmica, medieval e seiscentista), recorrendo inclusivamente a técnicas ancestrais como a taipa.

Esta histórica fortificação localiza-se no concelho do Alandroal, uma terra de casario branco vigiada pelo seu castelo altivo, fundado no século XIII por D. Dinis. É aqui que o Guadiana também se serve à mesa e onde paramos para saborear a tradicional e reconfortante sopa de peixe do rio — ou caldeta —, onde o barbo e as ervas aromáticas da região enriquecem um caldo secular servido sobre o fiel pão alentejano.

Descendo o curso do rio, encontramos a icónica vila medieval de Monsaraz, no concelho de Reguengos de Monsaraz. Erguida majestosamente no topo de uma colina, esta antiga vila museu — protegida por imponentes muralhas de xisto e caracterizada pelas suas ruelas estreitas e casario caiado de branco — parece congelada no tempo.

No coração do seu centro histórico, deparamo-nos com a igreja principal da vila, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa. Construída no século XVI em estilo renascentista sobre as ruínas de um templo gótico anterior, a sua fachada robusta de duas torres sineiras guarda um interior imponente com colunas de xisto regional e o túmulo em mármore de Estremoz de Gomes Martins Silvestre, cavaleiro templário e primeiro alcaide da vila.

Caminhando até ao extremo oposto da colina amuralhada, alcançamos o imponente Castelo de Monsaraz, edificado no século XIII pelo rei D. Dinis. Do alto da sua mítica torre de menagem, a nossa perspetiva abre-se para um cenário avassalador: a vastidão da planície alentejana pontuada por sobreiros e a imensidão azul do Alqueva.

Descemos então a colina em direção ao Centro Náutico para realizar uma das atividades centrais do nosso passeio: um memorável cruzeiro pela albufeira do Alqueva.

Flutuar por este gigantesco espelho de água, outrora moldado pelo curso do Guadiana, permite-nos apreciar o recorte monumental da silhueta de Monsaraz lá bem no alto e experimentar uma sensação única de paz ao deslizarmos suavemente pelas águas calmas que redesenharam a paisagem da região.

E chega a hora de mais uma incursão na gastronomia alentejana, mais um convívio salutar num restaurante local, desta vez o Restaurante Sem-Fim, instalado num antigo lagar de azeite recuperado e decorado com peças de arte e maquinaria original do lagar.

À mesa chegam os primeiros petiscos: pão regional do Telheiro, azeite perfumado, manteiga e azeitonas britadas. Seguem-se os pratos principais que vão desde as migas gatas acompanhadas por carne de porco preto à tradicional carne de porco à alentejana ou ao bacalhau d'azeite alhado, uma homenagem à tradição do lagar onde o restaurante se insere. Cada garfada é acompanhada por um vinho encorpado da região. Depois do célebre ‘pijama’ (uma sobremesa partilhada de vários doces regionais da casa) ainda se provam bebidas típicas…

Atravessamos a albufeira e fazemos uma paragem em Mourão para visitar o seu castelo, construído também para vigiar a linha de fronteira. Erguido no ponto mais alto da vila, o Castelo de Mourão impressiona pela sua robusta malha defensiva de xisto, mármore e granito, cujas origens remontam ao século XIII e ao reinado de D. Sancho II. O monumento apresenta uma curiosidade única: a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Candeias, edificada no século XVI, encontra-se integrada diretamente na estrutura da muralha medieval.

Ao percorrermos o adarve das muralhas triangulares reforçadas por torres quadrangulares, sentimos o peso dos séculos de contendas hispânicas e da posterior remodelação baluarte durante as Guerras de Restauração. Do topo, continuamos com vistas deslumbrantes: o casario branco de Mourão, o imenso espelho de água do Alqueva e a silhueta da vizinha Monsaraz a recortar o horizonte.

Deixando Mourão para trás, rumamos em direção à Aldeia da Luz, um lugar que carrega uma das histórias mais singulares e emotivas de todo o território do Alqueva. Esta aldeia, totalmente reconstruída a poucos quilómetros da sua localização original, nasceu do sacrifício da antiga povoação que ficou submersa pelas águas da barragem em 2002. No Museu da Luz, um espaço museológico minimalista, preservam-se as memórias, as fotografias e os objetos da antiga aldeia, prestando uma bonita homenagem à resiliência dos seus habitantes.

Continuando a contornar os recortes deste mar interior, rumamos em direção à isolada e autêntica Aldeia da Estrela. Ao contrário da Luz, a Estrela não foi submersa, mas sim transformada pelo Alqueva, que a abraçou quase por completo, convertendo-a numa península. Nesta pequena aldeia sentimos o Alentejo autêntico e profundo, onde o ritmo abranda de forma absoluta. Caminhamos pelas ruelas estreitas, ladeadas por tradicionais casas térreas com barras azuis e amarelas, e deixamo-nos guiar até à singela Igreja de Nossa Senhora da Estrela.

Toda esta imensidão líquida converge na Barragem de Alqueva, a colossal obra de engenharia que começou a ser planeada a partir da segunda metade do século XX, de forma a mitigar os problemas de falta de água na região, mas só viu as suas obras arrancarem de forma definitiva após a Revolução de 25 de Abril de 1974.

A represa deu vida ao maior lago artificial da Europa, no âmbito do qual foi necessário transferir a vizinha Aldeia da Luz para um novo local, por estar situada num ponto que viria a ser totalmente alagado pela albufeira. Visitar o coroamento da barragem impressiona pela escala e ajuda a compreender como o Guadiana foi domado para transformar o clima, a paisagem e a economia de toda a região alentejana. Esta grande infraestrutura ergue-se nas proximidades da localidade de Alqueva, que lhe deu o nome, no município de Portel, ligando-se ao município de Moura, na margem oposta.

Numa outra ocasião, aproveitando um feriado, cruzámos as terras de Portel até à Herdade Monte Santos para visitar o peculiar Museu do Medronho, um espaço que celebra o ciclo de vida deste fruto silvestre e a arte ancestral da sua destilação.

Após a visita ao museu e a prova da bebida partimos de trator para um Safari no Montado Alentejano, um passeio de cerca de 45 minutos pela natureza local que nos proporciona a observação de animais no habitat natural: gamos e veados, javalis, muflões e arruís.

Dirigimo-nos depois para Moura, já no distrito de Beja, para uma rápida visita, à medida que a tarde começava a cair. Vislumbrámos o charme da sua herança árabe visível na pitoresca Mouraria e a imponência do seu castelo medieval, marcado pela trágica lenda da princesa Salúquia.

Ao afastarmo-nos, lançamos um último olhar sobre a cidade agora envolta num tom rosado. A luz do pôr do sol alentejano transforma-se, banhando as planícies e as oliveiras com uma paleta de cores até que a lua cheia se destaca num intenso azul.

Continuando para sul, pernoitamos na bonita vila de Serpa, a uns 30 quilómetros de Moura, nas proximidades do Guadiana.

Serpa é uma encantadora e histórica vila alentejana, famosa pelo seu riquíssimo património cultural e pela sua gastronomia. Conhecida como a "Vila Branca", destaca-se pelas suas ruas estreitas caiadas de branco e pelo ambiente pacato tipicamente alentejano.

Serpa é um dos grandes bastiões do Cante Alentejano, classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO e, como tal, alberga o Museu do Cante Alentejano, dedicado à preservação desta arte.

A vila é abraçada por uma imponente cintura de muralhas medievais, onde se destaca a Porta de Beja. No ponto mais alto, erguem-se as ruínas do Castelo de Serpa, que oferece uma vista panorâmica fantástica sobre as planícies e o vale do Guadiana.

Junto às muralhas, sobressai o Aqueduto de Serpa (século XVII), que transportava a água até ao Palácio dos Condes de Ficalho.

Mais a sul, visitamos as Minas de São Domingos, um impressionante complexo mineiro desativado no concelho de Mértola. Com origens que remontam à época romana, esta antiga mina de pirite cúprica viveu o seu período áureo entre a segunda metade do século XIX e meados do século XX, sob a gestão da companhia britânica Mason & Barry. Foi um verdadeiro motor de progresso na região, chegando a albergar a primeira central elétrica do Alentejo e uma linha ferroviária pioneira que ligava o complexo ao porto fluvial do Pomarão.

Hoje, as imponentes ruínas industriais da Achada do Gamo, as antigas oficinas e a gigantesca corta a céu aberto — agora inundada por águas ácidas de tonalidades avermelhadas e ocres — criam uma paisagem de uma beleza crua e inesquecível. Para lá do impressionante passivo ambiental e do património industrial, a própria aldeia mineira preserva a memória desses tempos na Casa do Mineiro, um espaço museológico que recria as duras condições de vida dos operários.

Em absoluto contraste com a aridez do cenário mineiro, contornamos nas proximidades a Praia Fluvial da Mina de São Domingos (ou Praia Fluvial da Tapada Grande), uma fantástica lagoa com relvado e Bandeira Azul que nasceu de uma antiga albufeira criada no século XIX pela empresa mineira Mason & Barry para apoiar a atividade metalúrgica e ajudar na lavagem do minério. Esta Praia Fluvial é alimentada pelo Barranco da Cabeça de Aires (também referido como Barranco do Pego do Boi), cujas linhas de água estão integradas na grande bacia hidrográfica do rio Guadiana.

Rumamos a sudoeste, em direção ao leito original do grande rio do sul, agora largo e navegável, para visitar outra localidade repleta de história: a airosa vila de Mértola. Coroada pelo seu castelo medieval sobranceiro ao rio, ela abre-nos as portas para uma viagem inesquecível pelas heranças islâmicas e romanas que marcam o coração do Parque Natural do Vale do Guadiana.

   

Ao cruzar as muralhas, perdemo-nos pelas ruelas empedradas de casas caiadas de branco e descobrimos os tesouros que lhe valeram o título de vila-museu. A vila é o berço do Campo Arqueológico de Mértola e abriga o Museu Cláudio Torres, composto por 14 núcleos museológicos espalhados ao ar livre.

À entrada do recinto muralhado, destaca-se a imponente estátua equestre em bronze erguida sobre um pedestal de pedra. Trata-se de uma homenagem a Ibn Qasi, o célebre líder místico e Senhor de Mértola entre 1144 e 1147.

Nascido em Silves numa família de posses, pensa-se que pertencia à comunidade dos muladis (ibéricos de origens romanas ou cristãs convertidos ao Islão gerações antes). Na juventude, após a morte repentina dos pais, vendeu todos os seus bens, doou metade do dinheiro aos pobres e usou o restante para fundar um ribat (um retiro espiritual fortificado) na Arrifana (Aljezur). Dedicou-se ao Sufismo, a vertente mística e contemplativa do Islão, e fundou a sua própria ordem e movimento político-religioso, os muridines (os discípulos ou iniciados).

Em 1144 tomou o castelo de Mértola aos Almorávidas, um império islâmico de origem berbere, vistos por muitos locais como opressores e excessivamente rigorosos na religião. Vendo-se encurralado entre várias fações muçulmanas rivais estabeleceu um ousado pacto de não-agressão e apoio mútuo com D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Revoltados por esta aliança com os cristãos, um grupo de opositores acabou por assassinar e decapitar Ibn Qasi, que séculos mais tarde continuaria a ser elogiado pela sua justiça e beleza espiritual. Para além da espada, Ibn Qasi manejou a pena: escreveu um famoso tratado de metafísica e misticismo intitulado Khalʿ al-Naʿlayn (O Descalçar das Sandálias), uma alusão ao mandamento divino dado a Moisés no Monte Sinai.

Logo atrás da sua estátua ergue-se o Castelo e a Torre de Menagem. Construído no século XIII sobre fundações muçulmanas quando a vila foi sede da Ordem de Santiago, a sua sala de armas exibe uma abóbada gótica e elementos arquitetónicos decorativos de estilo visigótico. Subir à imponente Torre de Menagem garante uma vista panorâmica deslumbrante sobre o rio Guadiana e toda a envolvente natural.

Mesmo ao lado do castelo, a Alcáçova e Casa Islâmica é uma impressionante plataforma arqueológica que reúne várias camadas de história. Na base esconde-se um criptopórtico romano (uma galeria subterrânea que suportava o antigo fórum da cidade de Myrtilis). Por cima, encontram-se as ruínas de um complexo religioso paleocristão e um bairro habitacional almóada do século XII, onde uma das habitações foi integralmente recriada para mostrar em detalhe como era o quotidiano islâmico.

Mais abaixo, situa-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção, uma antiga mesquita reconvertida em igreja cristã. No seu interior, num ambiente de rara beleza e sincretismo religioso, ainda é possível vislumbrar os arcos em ferradura originais e o mihrâb (o nicho de oração virado para Meca).

Instalado junto à antiga Porta da Ribeira, o Núcleo de Arte Islâmica exibe o fruto de mais de 40 anos de escavações, guardando a coleção de cerâmica do período muçulmano (séculos IX a XIII) mais importante do país. O Núcleo Casa Romana está instalado na cave da própria Câmara Municipal! Após um incêndio nos anos 80, as obras camarárias revelaram as fundações de uma domus romana dos séculos I a IV. O projeto arquitetónico foi alterado para preservar o impluvium original e hoje expõe esculturas de magistrados e moedas cunhadas na própria vila.

No mês de maio (em anos ímpares), Mértola transforma-se completamente para acolher o seu famoso Festival Islâmico. Visitámos o festival em maio de 2022, na excecional e memorável 11ª edição, que marcou o grande regresso do evento após as restrições da pandemia. Essa edição teve como imagem de marca os belíssimos motivos vegetalistas inspirados na cerâmica de corda seca do século XII, pertencente ao próprio acervo do Museu de Mértola.

Durante quatro dias, as ruas estreitas do centro histórico cobrem-se de panos coloridos e transformam-se num autêntico souk (mercado tradicional). O ar enche-se com o aroma a especiarias, incenso e chá de menta fresco. É uma imersão cultural única onde a música árabe ecoa pelas esquinas, misturando-se com artesãos tradicionais, bailarinos e uma gastronomia de fusão que celebra a tolerância e o encontro de culturas nas margens do Guadiana.

Já em fevereiro de 2023, alojámo-nos por duas noites no Espargosa Monte de Baixo, em Castro Marim, para participarmos num grupo de caminhada pelo Sapal e outras áreas do Baixo Guadiana. Estamos na área do troço final do Guadiana, em que o canal é totalmente navegável ao longo de cerca de 48 quilómetros desde a foz até ao antigo porto mineiro do Pomarão, sendo que embarcações mais pequenas de recreio conseguem estender esta subida fluvial até Mértola, totalizando cerca de 68 quilómetros de navegação.

Este grande rio internacional vai desaguar no oceano Atlântico, no golfo de Cádis, entre as cidades de Vila Real de Santo António (Portugal) e Ayamonte (Espanha), criando um estuário rico em biodiversidade e sapais protegidos. É precisamente numa destas zonas húmidas de importância internacional — a Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António, a primeira reserva natural a ser criada em Portugal, em 1975 — que iniciamos a nossa caminhada.

Caminhar por este labirinto de águas e terra é entrar num ecossistema complexo onde as marés ditam o ritmo da vida. O sapal funciona como um berçário natural para dezenas de espécies de peixes e moluscos, mas é o céu e os espelhos de água que roubam todas as atenções. Quanto à sua emblemática avifauna, contam-se mais de 200 espécies de aves registadas ao longo do ano, sendo a reserva um dos pontos mais importantes da Península Ibérica para o birdwatching.

Para além dos flamingos-comuns - as estrelas incontestáveis do sapal, que aqui se encontram em grandes bandos durante quase todo o ano, alimentando-se nas águas rasas e salobras -, avistamos pernilongos, uma elegante ave de longas pernas vermelhas que é o verdadeiro símbolo de Castro Marim, e também alfaiates e maçaricos, espécies limícolas que procuram nos sapais pequenos invertebrados com os seus bicos especializados. Outras aves raras podem ser avistadas, embora com menor probabilidade, nas salinas do Cerro do Bufo, como a gaivota-de-audouin ou a perdiz-do-mar.

Quanto à flora, a vegetação que molda a paisagem é composta por plantas halófitas, capazes de sobreviver em solos com elevadas concentrações de sal: a salicórnia, que cobre extensas áreas do sapal; os juncos e os sapatinhos-do-mar, que estabilizam as margens dos esteiros e criam zonas de abrigo perfeitas para os ninhos das aves; e as ervas marinhas, fundamentais para reter carbono e filtrar a água.

Depois do almoço, a carrinha levou-nos em direção ao interior do concelho para iniciarmos um novo percurso pedestre no Azinhal. Caminhar pelas ruelas desta aldeia permite-nos apreciar de perto a arquitetura tradicional do Baixo Guadiana, com as suas casas caiadas de branco e chaminés rendilhadas.

Iniciamos então o PR3 CTM, uma rota circular panorâmica na freguesia do Azinhal, concelho de Castro Marim, de cerca de 8 km e dificuldade média.

Aqui somos acolhidos por uma paisagem ondulante de cerros cobertos de esteval e pomares de sequeiro, onde algumas amendoeiras já começam a florir, um cenário bem diferente da brisa salina do estuário.

Também temos vistas sobre o vale do rio Guadiana, enquanto uns pingos de chuva nos molham a cabeça. Ao início da noite jantamos num restaurante típico em Castro Marim e recolhemos ao nosso poiso para uma merecida noite de descanso.

No dia seguinte, iniciamos a caminhada em Odeleite percorrendo parte da Grande Rota do Guadiana (GR15) até à Foz de Odeleite, o ponto exato onde a ribeira se entrega solenemente ao Rio Guadiana.

O trilho levou-nos a acompanhar de perto as linhas de água, serpenteando por caminhos outrora vigiados pela Guarda Fiscal e rodeados por pequenas hortas ribeirinhas e pomares de citrinos.

Regressamos pela outra margem da ribeira passando pelo Moinho das Pernadas. Subindo as encostas ao longo do vale, a nossa jornada pedestre terminou na pitoresca aldeia de Odeleite. Conhecida pela envolvência com a sua ribeira, a aldeia estende-se encosta acima com o seu casario branco, oferecendo-nos do topo uma vista magnífica sobre o vale.

Despedimo-nos do Baixo Guadiana com as pernas cansadas, mas a alma cheia, levando na memória o sal do estuário, o perfume do esteval e o correr calmo das águas.

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