Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei a este um outro blog com viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

domingo, 24 de abril de 2022

Expresso do Oriente: Áustria e Hungria

Não tinha planos para o período da Páscoa e procurava ideias na internet para uma viagem curta e que me permitisse conhecer um novo país europeu. Eis que me aparece um roteiro de 11 dias denominado “Expresso do Oriente” da agência Landscape (que não conhecia) com a indicação de que havia apenas 1 vaga. Claro que era para mim! Por que não uma viagem já organizada (de que normalmente não sou fã) mas que me pouparia tempo e trabalho?! Inscrição de última hora na sequência de uma desistência.

O itinerário atravessaria 5 países, 3 dos quais eu já conhecia (Áustria, Hungria e Turquia) e 2 dos quais em que eu nunca havia estado (Roménia e Bulgária). Que bom! Para além de explorar as suas emblemáticas capitais, a viagem permitiria degustar a gastronomia típica de cada país. As deslocações eram para ser feitas, tanto quanto possível, de comboio, recriando a rota do famoso ‘Expresso do Oriente’ mas em versão "low cost". 


 (imagens retiradas da net)
O Expresso do Oriente original, inaugurado em outubro de 1883 e que ligava Paris a Constantinopla (Istambul), foi o primeiro serviço ferroviário internacional de longo curso a ligar o Ocidente ao Oriente. A sua rota, alterada muitas vezes fosse por logística ou por questões políticas, inspirou o clássico romance "Crime no Expresso do Oriente" (1934) da escritora Agatha Christie. Foi considerado um dos comboios mais luxuosos do mundo, com passageiros que incluíam desde burgueses milionários até membros da aristocracia europeia. O serviço foi extinto em 1977, embora as carruagens originais tenham continuado a operar noutros trajetos reduzidos até 2009. Hoje, a mítica viagem de luxo é operada pelo Venice Simplon-Orient-Express, enquanto a rota histórica clássica é feita recorrendo a uma combinação de comboios regulares.
     ÁUSTRIA

Comprei o voo de ida na Ryanair direto para Viena de Áustria, cheguei na madrugada do dia 9 de abril e saí manhã cedo do aeroporto num comboio direto à estação central da cidade. Daí fui a pé para o Austria Trend Hotel beim Theresianum que era perto. Deixei a bagagem guardada e saí sozinha para revisitar a cidade, uma vez que o restante grupo ainda não chegara.

Sensação estranha… Só então me apercebi: aos anos que não punha os pés numa capital europeia (excetuando Lisboa, claro)! Em 2017 estive em Tbilisi, capital da Geórgia (país considerado transcontinental), e em 2015 em Reiquiavique, capital da Islândia. Mas na ‘Velha Europa’ só mesmo antes de iniciar a minha ‘Viagem Incógnita’ em 2009, já que a partir daí só tenho praticamente andado pela Ásia e pela África.

Fui direta ao Belvedere Schlossgarten, jardins fantásticos inspirados em Versailles, onde se encontra o Palácio Belvedere, em estilo barroco, destinado a residência de verão do Príncipe Eugénio de Saboya. O complexo é dividido em duas partes: o Belvedere Inferior, inaugurado em 1716, e o Belvedere Superior, construído em 1720. O Salão de Mármore foi o local da assinatura do Tratado do Estado da Áustria, que formou a Áustria moderna, em 1955. O complexo foi vendido a Maria Teresa da Áustria que lhe deu o nome de Belvedere (que em italiano significa Bela Vista).

Passei pela Igreja de Santa Isabel (Kirche St. Elisabeth Zur Frohen Botschaft), pela Catedral Ortodoxa Russa de São Nicolau e entrei no Stadtpark, o parque público mais antigo de Viena. Aqui se destacam o Kursalon Wien, um grandioso edifício do século XIX em estilo renascentista, atualmente utilizado para concertos de música clássica, a estação Stadtpark, um impressionante projeto de Otto Wagner em estilo Arte Nova e a estátua de bronze dourado de Johann Strauss. Sítios onde eu já andara há muitos anos.

Regressei ao hotel, alguns elementos do grupo já tinham chegado, e saímos para almoçar com os dois líderes da viagem (comi ‘schnitzel’, um dos pratos mais famosos da cozinha austríaca). 


À tarde, apanhámos o trolley para Grinzing, um encantador bairro vinícola situado nas colinas a noroeste de Viena, que também revisitei com agrado. A história desta localidade remonta ao século XII quando a região era habitada por agricultores e vinicultores. Com ruelas pitorescas, casas tradicionais, conceituados vinhedos e acolhedores Heuriger (tavernas de vinho), Grinzing é um lugar agradável constituindo um escape para os habitantes da cidade.

No regresso a Viena jantámos no mercado de rua Naschmarkt, um mercado ao ar livre que se estende entre Karlsplatz e Kettenbrückengasse, com mais de 100 bancas e restaurantes que misturam a gastronomia austríaca com sabores do mundo todo.

No dia seguinte, logo após o pequeno-almoço, o grupo de viagem, já completo (12 pessoas e 2 líderes), saiu do hotel para mais uma voltinha pela capital.

Passámos pelos Jardins de Belvedere e pela Hochstrahlbrunnen (fonte com jatos de água muito altos), um marco histórico localizado na praça Schwarzenbergplatz. Inaugurada em 1873 com a presença do Imperador Francisco José I, a fonte celebra a construção do primeiro aqueduto de água alpina que abasteceu a capital austríaca. Situa-se exatamente em frente ao altivo Memorial de Guerra Soviético (Heldendenkmal der Roten Armee), mais formalmente conhecido como Monumento aos Heróis do Exército Vermelho, que se encontra parcialmente envolvido por uma colunata semicircular de mármore branco, inaugurada em 1945.

Depois entrámos na Karlskirche, uma grandiosa igreja barroca dedicada a São Carlos Borromeu (um dos grandes precursores da contrarreforma do século XVI), onde logo nos ofereceram um raminho de flores e assistimos ao início da missa, já que era Domingo de Ramos.

Continuámos o nosso passeio pelas ruas da outrora capital do Império Austro-Húngaro, admirando os seus imponentes e simbólicos edifícios, como a estação de metro Karlsplatz, o Parlamento, o Palácio Imperial de Hofburg, o Teatro Nacional, a Rathaus (Câmara Municipal) ou o Café Central que abriu as suas portas em 1860 e se transformou num dos pontos de encontro mais importantes dos intelectuais vieneses.

Visitámos a Catedral de Santo Estêvão, também denominada "Steffl", uma das mais antigas catedrais do estilo gótico europeu e um exemplo da arquitetura do século XII, e seguimos para o Bairro dos Museus (MuseumsQuartier Wein), um dos maiores e mais vibrantes complexos culturais do mundo localizado nos antigos estábulos imperiais no centro de Viena, onde almoçámos.

Depois embarcámos numa visita guiada à sumptuosa Ópera de Viena, de estilo neo-renascentista, o primeiro grande edifício a ser construído no Wiener Ringstraße. Foi a primeira construção com finalidade operística em Viena, inaugurada em 1869 com a ópera ‘Don Juan’ de Wolfgang Amadeus Mozart.


À tarde, pegámos nas nossas bagagens que ficaram guardadas no hotel e dirigimo-nos para a estação onde apanhámos o comboio para a capital da Hungria.


HUNGRIA

Chegámos à capital húngara ao princípio da noite e jantámos perto da estação de comboios, antes de seguirmos de metro até ao Hotel Erzsébet City Center. Mais uma capital europeia revisitada: a bonita Budapeste que, tal como Viena, é atravessada pelo rio Danúbio.

Orientados por uma guia local, partimos a visitar a cidade descobrindo alguns dos pormenores e recantos de Peste, na margem esquerda do rio, o lado mais plano, mais agitado, o centro comercial e político.

No Bairro Judeu, admiramos a Grande Sinagoga ou Sinagoga da Rua Dohány, a maior da Europa, as mini-esculturas criadas pelo artista Mihály Kolodko, espalhadas por locais estratégicos da cidade, as estátuas e os murais de arte urbana, alguns em homenagem à Imperatriz Elisabeth da Áustria, carinhosamente conhecida como “Sissi”, pelo seu apoio ao país e pelo papel fundamental na criação do Império Austro-Húngaro em 1867.


Passando pela famosa Avenida Andrássy, a mais emblemática de Budapeste que remonta ao ano de 1872, fomos dar à Basílica de Santo Estêvão, a maior igreja da cidade, construída entre 1851 e 1905 em estilo neoclássico, um marco histórico e arquitetónico, famosa pela sua cúpula de 96 metros de altura e que se situa numa zona da cidade repleta de restaurantes e cafés. Homenageia Estevão I (975-1038), o primeiro rei da Hungria, e guarda no interior a sua mão direita como relíquia sagrada.

O Monumento às Vítimas da Ocupação Alemã, localizado na Praça da Liberdade, mostra uma águia imperial alemã a atacar o arcanjo Gabriel que representa a Hungria. Foi inaugurado em 2014 e é considerado bastante polémico. Ainda na mesma praça fica o Memorial de Guerra Soviético.

Perto do Parlamento erguem-se o Monumento aos Mártires Nacionais e o Monumento a István Tisza, um político húngaro, primeiro-ministro e membro da Academia Húngara de Ciências.

A visita termina junto ao edifício do Parlamento Húngaro, o ex-libris da cidade, um edifício imponente de estilo neogótico às margens do Danúbio que está incluído na lista de Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Daqui o grupo foi ver os ‘Sapatos no Danúbio’, um monumento criado em memória dos judeus mortos durante a Segunda Guerra Mundial pelas milícias da Cruz de Ferro entre 1944-1945 e aos quais eram retirados os sapatos (para posterior venda) antes de caírem ao rio. Eu não vi este emocionante e triste memorial porque me dirigi para o restaurante (onde o grupo iria depois almoçar) a fim de poder assistir a uma reunião online, usando o wifi do estabelecimento.

O rio Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa (depois do Volga), atravessando o continente de oeste a leste, desde a sua nascente na Floresta Negra (Alemanha) até desaguar no Mar Negro, no delta do Danúbio (Roménia). Passa por diversas capitais e cidades europeias e constitui a fronteira natural de dez nações. Ambas as margens do rio em Budapeste estão ligadas pela icónica Ponte das Correntes que, nesta altura, se encontrava em obras.

Após o almoço, apanhámos um autocarro para Buda, na margem direita do rio, o lado mais montanhoso, histórico e que abriga a antiga zona real.

   

Aqui se encontra o Palácio de Buda, o Bairro do Castelo (Várnegyed) com suas construções tradicionais, entre elas a Igreja Mathias e o Bastião dos Pescadores.

A Igreja de Matias, com o seu bonito telhado de cerâmica colorida, é uma igreja histórica onde imperadores foram coroados. O Bastião dos Pescadores é um monumento neogótico com sete torres que oferecem uma vista panorâmica deslumbrante do rio e de Peste.

O Castelo de Buda (Palácio Real), antiga residência dos reis húngaros, abriga hoje museus e galerias. A Colina Gellért e a Citadella, o ponto mais alto da cidade, com a Estátua da Liberdade no topo, oferece uma vista fantástica.

Descemos a colina nos elevadores gratuitos, apanhámos um autocarro para Peste e depois caminhámos até às Termas de Széchenyi, passando pela Praça dos Heróis, uma praça monumental que celebra os líderes das sete tribos fundadoras da Hungria.

O Balneário Széchenyi é um dos maiores recintos termais da Europa. Localizados no Parque da Cidade, os banhos foram construídos em 1913 em estilo neo-barroco, segundo o projeto do arquiteto Győző Czigler.

A sua água é abastecida por duas nascentes termais, uma a 74 °C e outra a 77 °C. Os componentes da água termal incluem sulfato, cálcio, magnésio, bicarbonato e uma quantidade significativa de ácido metabórico e flúor. Tem 15 piscinas, 3 grandes ao ar livre e 12 pequenas nos recintos do interior, onde também há várias saunas e salas de massagem.

Foi um fim da tarde relaxante e espetacular, onde ficámos um bom par de horas. Saímos já noite e apanhámos o metro para o centro, tendo ainda a oportunidade de apreciar um pouco da noite em Budapeste antes de irmos ao hotel recolher as nossas bagagens e seguir para a estação de comboios.

Párisi Passage


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