Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

sábado, 30 de abril de 2022

Expresso do Oriente: Turquia

Saímos ao fim da tarde de Sófia para Istambul. O último troço da viagem deste roteiro do “Expresso do Oriente” não pôde ser realizado em comboio pois a ligação ferroviária esteve suspensa devido às restrições da pandemia e, presentemente, também devido à guerra na Ucrânia. Partimos então de autocarro, noite passada a bordo. Paragem na fronteira (Kapikule) durante a madrugada para controlo de passaportes. Chegámos às 7h00 da manhã a esta grande metrópole situada na ligação entre dois continentes.

Da estação terminal de autocarros (Otogar) apanhámos o metro para Yenikapi e depois a linha Marmaray para o centro. Marmaray é um sistema ferroviário, inaugurado em 2013, que liga as partes europeia e asiática de Istambul por um túnel submarino, de 13 km, debaixo do Estreito de Bósforo. Tem 76,6 km de extensão e 43 estações, atravessando toda a área metropolitana, desde Halkalı (lado europeu) até Gebze (lado asiático).

Saímos em Sirkeci, no centro histórico. Era precisamente aqui, no coração da cidade na margem europeia e junto ao Corno de Ouro, a estação terminal do lendário “Expresso do Oriente”, uma estação de arquitetura orientalista, pensada como o ponto de encontro simbólico entre a Europa e a Ásia. Atualmente, o edifício histórico encontra-se preservado, mantendo a sua traça original de 1890. Alberga o histórico Orient Express Restaurant e um pequeno museu que documenta a história ferroviária.

                                                                  (imagens retiradas da net)

Seguimos a pé com as malas para o Hotel Erboy, deixámos a bagagem e saímos para dar uma volta pela cidade, entrando no Parque Gülhane, ali bem perto. É uma sensação agradável rever monumentos e locais por onde já passámos em anos anteriores, recordar visitas e experiências, constatar as mudanças e ver as coisas de outro prisma. Havia visitado a Turquia em abril de 2001 e havia estado de novo em Istambul em 2014.

A antiga Bizâncio e Constantinopla é a única cidade do mundo que se divide entre dois continentes, Europa e Ásia, às margens do estreito de Bósforo. A Cidade Velha reflete as influências dos muitos impérios que já governaram a região, tornando-se um caldeirão cultural que agrada os apaixonados por história, arquitetura, gastronomia e compras. Há sempre uma imensidão de coisas a descobrir nesta buliçosa cidade que mistura influências ocidentais e orientais numa combinação singular. 

O Portão Imperial é a entrada principal do Palácio de Topkapı. Construído em 1478 pelo sultão Maomé II, destaca-se pelo arco revestido a mármore e pela caligrafia otomana dourada, que inclui versos do Alcorão. Marca a transição para o primeiro pátio do palácio. O Palácio Topkapı é um testemunho da grandeza do Império Otomano. Esta notável estrutura de grande beleza arquitetónica serviu não só como residência principal dos sultões otomanos, mas também como centro administrativo.


Passamos pela Igreja de Santa Irene e pela Fonte de Ahmet III e entramos na admirável Santa Sofia – Agia Sophia, que significa "Sagrada Sabedoria", oficialmente Grande Mesquita de Santa Sofia. É um imponente edifício construído durante o mandato de Justiniano entre 532 e 537 pelo Império Bizantino para ser a catedral de Constantinopla. Em 1204 foi convertida em catedral católica romana durante o Patriarcado Latino de Constantinopla.

Voltou a ser Igreja Ortodoxa em 1261 e em 1453 foi tomada pelo Império Otomano e transformada em mesquita. Em 1935, Atatürk transformou o templo em museu, até que, no ano 2020 converteu-se novamente em mesquita, aberta ao público (fora do horário das orações) e de entrada livre. É um símbolo de Istambul e o epítome da arquitetura bizantina, um testemunho da rica e diversificada história de Istambul e Património Mundial da UNESCO.

A Praça Sultanahmet remonta ao século III quando era o Hipódromo Romano, construído pelo Imperador Septímio Severo e ampliado por Constantino. Depois foi o centro religioso Bizantino e o núcleo imperial Otomano. O 'Hipódromo de Constantinopla' está rodeado por algumas das mais grandiosas estruturas de Istambul. Ali permanecem até aos dias atuais o Obelisco Egípcio, ou Obelisco de Teodósio (390 a.C.), trazido de Karnak, o Obelisco Murado e a Coluna Serpentina, dedicada a Apolo, trazida de Delfos. No início da praça, ergue-se uma elegante estrutura de inspiração neo-bizantina: a Fonte Alemã.

Situada nesta praça, encontra-se a Mesquita do Sultão Ahmed, mais conhecida por Mesquita Azul devido aos milhares de azulejos de İznik em tons de azul que adornam parte do seu interior. Foi construída entre 1609 e 1616, tem 43 metros de altura, possui seis minaretes e é um exemplo perfeito da arquitetura otomana clássica. 

    

Desta vez não visitei o interior desta mesquita mas entrámos em muitas outras, não tão imponentes mas também muito bonitas, como a Mesquita de Rüstem Paxá, do século XVI, decorada com uma grande variedade de azulejos de İznik, florais e geométricos.

Depois de uma apetitosa refeição no restaurante Ortaklar Kebab (pratos turcos tradicionais a preços muito acessíveis) deambulámos pelas ruas de arquitetura histórica do bairro Küçük Ayasofya cujo nome deriva da Mesquita Küçük Ayasofya, localizada dentro dos seus limites. Administrativamente, o bairro faz fronteira com Binbirdirek a norte, Şehsuvarbey a oeste, Sultanahmet a leste e o Mar de Mármara a sul.

A zona é conhecida pela sua atmosfera que parou no tempo, com ruas estreitas e pitorescas ladeadas por casas tradicionais de madeira da era otomana. Entre as suas encantadoras vias, destaca-se a rua Şehsuvar Bey, famosa pelas suas fachadas e por preservar o verdadeiro espírito histórico e fotogénico do antigo bairro.

Outra atração de Istambul são os bazares, mercados históricos com milhares de lojas distribuídas por corredores labirínticos. Os mais famosos são o Grande Bazar e o Bazar das Especiarias.


O Grande Bazar (Kapalıçarşı), o maior mercado coberto do mundo, é um complexo do século XV com mais de 60 ruas internas e 4.000 lojas, ideal para comprar cerâmicas pintadas à mão, tapetes, joias de ouro, artigos de couro e lembranças turcas.

O Bazar das Especiarias (Mısır Çarşısı), também conhecido como Bazar Egípcio, é o local ideal para adquirir especiarias autênticas, chás, frutos secos, o famoso doce lokum (manjar turco) e o tradicional café turco. Está localizado no bairro de Eminönü, muito próximo das águas do Bósforo.

Dentro do Grande Bazar está localizado o Zincirli Han, um histórico caravançará construído por volta de 1460 e que servia originalmente como estalagem para viajantes e comerciantes da Rota da Seda. Hoje, o pátio abriga diversas lojas, além de cafés tradicionais. Aí se situa também o restaurante do "Homem do Sal" (Nusret Gökçe), mundialmente conhecido por Salt Bae. O talhante, chef e restaurateur turco tornou-se uma sensação na internet em 2017, quando um vídeo seu a fatiar carne de forma teatral e a salpicar sal com elegância do antebraço se tornou viral. É proprietário do Nusr-Et, uma luxuosa cadeia de churrascarias.

A Mesquita Süleymaniye ou de Solimão é outra imponente mesquita imperial otomana situada numa colina, no bairro histórico de Eminönü, dominando o horizonte de Istambul. É uma das maiores realizações do prolífico e genial arquiteto Mimar Sinan, encomendada pelo sultão Suleyman, o Magnífico, em 1550. O complexo abriga uma madraça (escola islâmica), que foi um dos centros de conhecimento mais prestigiados do Império Otomano oferecendo estudos em direito islâmico, teologia e filosofia.

O interior exibe belíssimas decorações, destacando-se o mihrab (nicho de oração) e o minbar (púlpito) pela beleza e pelos detalhes minuciosos. O pátio da mesquita contém uma fonte e túmulos de figuras otomanas notáveis, incluindo os túmulos do Sultão Suleyman e sua esposa. Do seu complexo é possível desfrutar de vistas deslumbrantes sobre o Corno de Ouro, o Bósforo e a silhueta histórica de Istambul.

Atravessamos a pé a Ponte de Gálata e apanhamos o ferry em Karaköy Iskelesi para Ayvansaray, cerca de 30 minutos de viagem, deslizando pelo estuário do Corno de Ouro adentro. O barco para em vários portos, ziguezagueando entre as margens, proporcionando vistas fantásticas de ambas as partes da cidade, apesar do dia chuvoso.

Estamos em Balat, um bairro histórico na margem sul do Corno de Ouro que se transformou radicalmente nos últimos anos, passando de área esquecida a um dos locais mais trendy e procurados pelo turismo.

O bairro destaca-se pelas suas ruas estreitas e íngremes de paralelepípedos, casas históricas coloridas de madeira e uma atmosfera única que mistura tradição e modernidade. Igrejas, mesquitas e sinagogas alinham as ruas de Balat, intercaladas entre lojas de antiguidades, galerias de arte, cafés modernos e lojas de roupas vintage.

Kiremit Caddesi é a rua mais famosa do bairro com as suas icónicas casas de madeira do século XIX, caracterizando-se pelas fachadas estreitas e janelas em bay-window, recentemente restauradas e pintadas com cores vibrantes. Outro lugar fantástico para fotografar é a rua Merdivenli Yokuş (que significa literalmente rua da rampa com degraus) com as suas casas coloridas e inclinadas em fila.

Durante séculos, Balat foi o coração da comunidade judaica de Istambul, tendo também acolhido gregos e arménios. É um bairro multicultural, lar de várias famílias judias e ortodoxas gregas. A diversidade desta zona reflete-se nas opções de alimentação: padarias, cafés autênticos e coloridos, restaurantes, meyhanes e muito mais. E foi aqui que almoçámos.

Entrámos na Igreja ortodoxa Búlgara de Santo Estêvão, também conhecida como a Iron Church, localizada nas margens do Corno de Ouro. É feita de ferro fundido no estilo neobarroco. As peças de ferro da igreja foram fabricadas em Viena e o campanário foi um presente da Rússia.

Em Fener, visitámos a sede do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla que é a "Igreja Mãe" e o centro espiritual de milhões de cristãos ortodoxos em todo o mundo. Desde aproximadamente 1600, o complexo centraliza-se em torno da Catedral Patriarcal de São Jorge cujo interior é ricamente decorado com talha dourada e ícones sagrados. O templo alberga importantes relíquias, incluindo os restos mortais de Santos e Doutores da Igreja como São João Crisóstomo e São Gregório de Nazianzo, além do Trono Patriarcal de madeira que remonta à época bizantina.

Precisamente nesta altura decorriam os preparativos de uma cerimónia exclusiva que ocorre a cada dez anos: a Consagração do Santo Crisma (conhecido na tradição como Santo Mírron). Trata-se de um óleo sagrado muito especial, composto por uma mistura de 57 substâncias aromáticas, plantas e óleos essenciais, preparado segundo antigas prescrições. A confeção e consagração deste óleo exigem um processo litúrgico solene que dura vários dias durante a Semana Santa.

A fervura dos elementos é feita em caldeiras de cobre e enquanto o óleo é mexido continuamente por perfumistas oficiais (podendo os visitantes participar também), o clero lê os quatro Evangelhos sem interrupção. Após ser consagrado, o óleo é fracionado e enviado para todas as Igrejas Ortodoxas autocéfalas do mundo, sendo depois utilizado na administração do sacramento do Crisma (ou Confirmação) em todos os fiéis ortodoxos. A cerimónia de Consagração do Santo Crisma decorreria na Quinta-feira Santa, dia 21 de abril, 3 dias após a nossa visita. 

Apanhámos um autocarro para a Praça Taksim, o coração da Istambul moderna e o principal ponto de encontro e celebração da cidade. O Monumento à República, no centro da praça, foi inaugurado em 1928 e celebra a fundação da República da Turquia em 1923 exibindo estátuas de figuras fundadoras importantes, como Mustafa Kemal Atatürk. A Mesquita de Taksim foi inaugurada em 2021 e trouxe um forte elemento da arquitetura otomana moderna para o local.

A partir daqui percorremos a Avenida Istiklal, uma famosa artéria pedonal repleta de lojas de marcas internacionais, livrarias antigas, galerias de arte contemporânea, cafés, teatros e embaixadas. Ao contrário do centro histórico, a Istiklal exibe imponentes edifícios do século XIX e início do século XX com estilos Arte Nova, Neoclássico e Belas-Artes.

A Passagem das Flores (Çiçek Pasajı) é uma galeria histórica coberta, inaugurada em 1876. Originalmente cheia de floristas russas, hoje abriga vários restaurantes tradicionais (meyhanes) onde se servem petiscos (mezes) e bebidas ao som de música ao vivo. A Passagem Atlas (Atlas Pasajı) é um centro cultural e comercial que abriga um cinema histórico e o Museu do Cinema de Istambul.

Por aqui passa o icónico elétrico vermelho, um dos símbolos fotográficos mais famosos de Istambul. O Elétrico Vintage (Nostaljik Tramvay) cruza toda a avenida desde 1990, replicando a linha histórica original que teve início em 1871 e fora desativada na década de 1960.

    

A avenida está em movimento constante e é um paraíso para quem quer explorar a cultura local. É o sítio ideal para provar o famoso gelado turco (Maraş dondurma), conhecido pelas brincadeiras dos vendedores, os mexilhões fritos (Midye tava) e os doces tradicionais, como o baklava e o lokum, em pastelarias centenárias como a Hafız Mustafa. A avenida estende-se por cerca de 1,4 quilómetros, ligando a Praça Taksim à zona da Torre de Gálata.

A Torre de Gálata é uma das silhuetas mais marcantes de Istambul. Tem cerca de 62 metros de altura e as paredes na base são extremamente robustas, com quase 3,7 metros de espessura. Foi construída em 1348 pelos genoveses (uma colónia comercial italiana em Constantinopla) como parte das fortificações do seu bairro. Chamavam-lhe Torre de Cristo e era o ponto mais alto das muralhas de Gálata. Após a conquista da cidade em 1453, os otomanos usaram a torre para várias funções: prisão, quartel militar, observatório astronómico e, mais tarde, como torre de vigia para detetar incêndios na cidade.

Tornámos a atravessar a Ponte de Gálata a pé, desta feita no sentido Karakoy-Eminönü e pelo tabuleiro inferior. A Ponte de Gálata une as duas partes europeias de Istambul,  atravessando o estuário do Corno de Ouro, no local onde se situava o principal porto da antiga Constantinopla.

Seguimos até ao hotel admirando o entardecer na cidade. Mais tarde, reunimo-nos para o jantar de despedida no restaurante Rakofoli instalado nos andares superiores de um antigo edifício grego, oferecendo comida tradicional turca e espetaculares vistas panorâmicas para a península histórica.

Ao 3º dia em Istambul e ao 11º dia do roteiro “Expresso do Oriente”, dirigimo-nos para o aeroporto e cada um seguiu a sua viagem de regresso a casa. Cheguei a Lisboa num voo direto da Turkish Airlines.

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