Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

terça-feira, 26 de abril de 2022

Expresso do Oriente: ROMÉNIA

Apanhámos um comboio noturno de Budapeste para Bucareste e instalámo-nos nas carruagens-cama. Dormia ferrada quando nos acordaram para controlo de passaportes, primeiro do lado da Hungria e depois já na Roménia. Entrava assim pela primeira vez neste país, completamente ensonada. Pela manhã, bebericando um café na carruagem-bar, os meus olhos apreciavam a bela paisagem que diante deles se desenrolava.

A Roménia é um país localizado na encruzilhada da Europa Central, Oriental e do Sudeste, famoso pela sua herança latina e pelas paisagens dramáticas. Situa-se na região dos Balcãs, na parte norte da Península Balcânica, e é banhado pelo Mar Negro a sudeste. Faz fronteira com cinco países: Hungria (a oeste), Ucrânia (a norte e a leste), República da Moldávia (a leste), Bulgária (a sul, ao longo do rio Danúbio) e Sérvia (a sudoeste).

Ocupa a maior parte da bacia inferior do Danúbio e das regiões montanhosas da bacia média do mesmo rio e estende-se pelos dois lados das Montanhas dos Cárpatos, que formam a barreira natural entre as duas bacias do Danúbio. Os Montes Cárpatos formam a segunda maior cordilheira da Europa, com 1.500 km de extensão em forma de arco e dominam a parte ocidental da Roménia, com picos de até 2.700 metros. O mais elevado, o Moldoveanu, atinge os 2.744 metros.

Estendem-se por sete países (Roménia, Ucrânia, Polónia, Eslováquia, República Checa, Hungria e Sérvia), sendo o principal refúgio de vida selvagem do continente, albergando grandes populações de ursos-pardos, lobos e linces. A Roménia tem uma das maiores áreas de florestas intactas na Europa.

A herança latina da Roménia deriva da conquista e colonização da Dácia pelo Império Romano. Em 107 d.C., o imperador Trajano incorporou a região no império, originando o processo de romanização e dando origem à língua romena atual.

A sua história é marcada por uma mistura única de culturas e pela sua identidade singular, sendo o único país do Leste Europeu com uma língua originária do latim que está cercado por nações de origens eslavas e húngaras que, evidentemente, o influenciaram.

O país foi formado pela união de três províncias históricas principais com trajetórias distintas: a Valáquia, a Moldávia (que resistiram fortemente ao Império Otomano) e a Transilvânia (que esteve durante séculos sob domínio húngaro e austro-húngaro). Esta Grande União deu-se a 1 de dezembro de 1918, já depois de a nação ter conquistado a plena independência do Império Otomano em 1877. Após a Segunda Guerra Mundial, territórios da Roménia foram ocupados pela União Soviética e o país tornou-se uma república popular sob regime comunista até 1950.

Em 1989, uma revolução sangrenta derrubou o ditador Nicolae Ceaușescu que, ao impor medidas de austeridade para pagar a elevada dívida externa romena contraída com projetos megalómanos, mergulhara o país numa situação de extrema pobreza. Iniciou-se então uma transição para a democracia e a economia de mercado capitalista, tendo o país aderido à NATO em 2004 e à União Europeia em 2007. A moeda oficial é o Leu romeno (RON), pois apesar de a Roménia pertencer à União Europeia, o país não adotou o euro. 1 EUR equivale aproximadamente a 5 RON.

O comboio atravessa sequencialmente as regiões da Crișana (após cruzar a fronteira húngara a partir de Debrecen entrando na Roménia pela cidade de Episcopia Bihor), a vasta e icónica região da Transilvânia (a mais famosa, com cenários deslumbrantes, elevada concentração de minorias étnicas do país e ligada ao mito de Drácula), seguindo em direção aos Cárpatos Orientais e cruzando a sub-região histórica do País Székely (marcada por fortes influências culturais húngaras) e, finalmente, ao sair de Brașov, o comboio percorre os impressionantes desfiladeiros das Montanhas dos Cárpatos e entra formalmente na região da Valáquia, passando pela estância montanhosa de Sinaia e cruzando as planícies do sul até entrar na Gare do Norte, em Bucareste.

Após esta longa mas deslumbrante viagem de comboio, chegámos à capital da Roménia cerca das 17h00 e apanhámos um autocarro para o Hotel Capitol. Depois saímos para jantar no centro, mesmo ali ao pé.

O histórico distrito de Lipscani é o coração pulsante da cidade, repleto de cafés, restaurantes, bares e lojas. As ruas de pedra e os edifícios restaurados criam um ambiente encantador, especialmente ao entardecer quando as esplanadas ganham vida.

O jantar foi ótimo num restaurante com uma decoração original e com comida requintada, saborosa e colorida. Algumas das iguarias típicas da Roménia são: Covrigi (um típico snack romeno), Sarmale (rolinhos de couve recheados), Mici (rolos de carne grelhada), Ciorbă (sopa azeda tradicional), Papanași (donuts com natas e compota) e a Pălincă (aguardente tradicional).

No dia seguinte, visitámos a cidade com um guia e historiador espanhol que aqui mora há anos. Capital oficial, cultural, industrial e financeira do país, Bucareste, localizada na região histórica da Munténia (parte da Valáquia), às margens do rio Dâmbovița, é conhecida como “Pequena Paris”, exibindo uma mistura de estilos desde edifícios neoclássicos a blocos comunistas e modernos arranha-céus.

A Praça da Revolução e a Praça da Universidade são locais históricos fundamentais para compreender a história recente da Roménia e a queda do regime comunista em 1989. Foi na varanda da antiga sede do Partido Comunista Romeno, atualmente parte do Ministério da Administração Interna, que o ditador Nicolae Ceaușescu proferiu o seu último discurso, em 21 de dezembro de 1989, perante uma multidão que o vaiava. E foi do telhado desse edifício que, menos de 24 horas depois, Ceaușescu e a mulher fugiram de helicóptero, sendo capturados, julgados e executados três dias depois.

O Ateneo Romeno é uma joia arquitetónica com frescos impressionantes e interiores sumptuosos onde é possível assistir a um concerto da Filarmónica de Bucareste na sua sala de espetáculos considerada uma das mais belas da Europa.

Mesmo no centro, entrámos na Livraria Cărturești Carusel, considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, instalada num edifício histórico restaurado com escadarias em espiral e uma decoração deslumbrante.

Continuámos a explorar o enorme labirinto de ruas da cidade admirando outros icónicos e históricos edifícios como o luxuoso Hotel Casa Capsa e a Câmara Municipal e passando por vários atalhos para atravessar algumas das enormes avenidas. Um destes atalhos é a peculiar Pasajul Victoriei, a rua dos guarda-chuvas coloridos suspensos, e outra famosa “passagem” é a Pasajul Macca-Villacrosse conhecida pela sua rua em forma de garfo e pela sua arquitetura Belle Époque, com arcadas cobertas por um telhado de vidros amarelos e verdes, abrigando antiquários, restaurantes e cafés charmosos.

Localizado em pleno coração de Bucareste, Cismigiu é o parque mais antigo e característico da cidade, inaugurado em 1860. Um majestoso pulmão verde com uma extensão de 17 hectares que também serve de inspiração a poetas e artistas.

Mas o monumento que mais se destaca na capital é, sem dúvida, a gigantesca sede do governo, o Palatul Parlamentului (Palácio do Parlamento), símbolo da era comunista. É o edifício civil mais pesado do mundo e o segundo maior edifício administrativo depois do Pentágono. Esta obra faraónica da era Ceaușescu impressiona pela sua dimensão colossal com mais de 350.000 m² contendo 1.100 aposentos.

O Bloco "Adriatica-Trieste", também conhecido como Cladirea Romaneasca ou Casa Romena, é uma joia arquitetónica situada no final da Calea Victoriei, com vista para o sereno rio Dâmbovița. Construídos em meados da década de 1920 pelos arquitetos Paul Smarandescu e Petre Antonescu, estes magníficos edifícios gémeos servem de testemunho da rica história e herança real de Bucareste.

O Palácio Curtea Veche (a Antiga Corte), é o monumento medieval mais antigo de Bucareste, residência dos líderes da Valáquia. Construída no século XV como palácio durante o reinado de Vlad III, o Empalador (Vlad III Drácula), a praça é o núcleo histórico e o coração da fundação original da capital romena. Atualmente, constitui um museu no centro da cidade.

Interrompemos a visita para almoçar num antigo caravançarai (Hanul Hanuc), construído em 1808, um dos últimos caravançarais da Europa, localizado no coração da cidade velha, que atualmente alberga um agradável restaurante onde podemos saborear as delícias gastronómicas deste país. 

Visitámos também algumas das mais particulares e coloridas igrejas ortodoxas como a pequena Igreja Ortodoxa de Stavropoleos, um pequeno tesouro escondido no centro histórico, famoso pelo seu pátio interior tranquilo e pela arquitetura do estilo Brâncovenesc caracterizado por uma mistura de elementos tradicionais, bizantinos, renascentistas e barrocos.

A Catedral Patriarcal é o centro espiritual da Igreja Ortodoxa Romena, com decorações douradas fascinantes e ícones religiosos de valor incalculável. Culturalmente, a Roménia destaca-se como o único povo neolatino a adotar maioritariamente o Cristianismo Ortodoxo (de matriz bizantina e eslava), diferenciando-se dos países latinos do Ocidente.

A histórica Igreja de Mihai Voda, uma das igrejas mais antigas preservadas de Bucareste, permanece escondida atrás de altos edifícios de apartamentos da era comunista. Tem o nome do seu fundador, o príncipe valáquio Miguel, o Bravo (1558-1601) e é reconhecida não só pelo seu valor histórico, mas também como um exemplo raro da arquitetura eclesiástica medieval valáquia. Foi uma das igrejas que foram realocadas para ser salva das demolições levadas a cabo pelo regime comunista na década de 1980. A igreja e o seu campanário foram removidos da colina onde estavam há quase 400 anos e transportados por cerca de 290 metros.

A Nova Igreja de São Jorge (Biserica Sfântul Gheorghe Nou), situada no "quilómetro zero" da cidade, foi construída em 1705 e foi mais uma das igrejas que sobreviveu à destruição dos locais de culto pelo comunismo. Preserva belíssimos murais no pórtico e no interior e, no seu exterior, encontra-se a estátua de Constantino Brâncoveanu, o governante que foi executado pelos otomanos, juntamente com os seus filhos, por se recusar a renunciar à sua fé. É um santo da Igreja Ortodoxa Oriental e os seus restos mortais repousam nesta igreja, uma das maiores construídas em Budapeste durante o seu reinado.

Depois da visita, ainda tive tempo para atravessar as pontes do rio Dâmbovița e percorrer a Bulevardul Unirii, a grande Avenida em frente ao Parlamento, uma das mais importantes e movimentadas de Bucareste, com as suas fontes e jatos de água em movimento.

O amplo boulevard, com 2,8 km de extensão, representa o eixo longitudinal do projeto do Novo Centro Cívico, impulsionado pelo sismo de 1977. A construção de novos edifícios e do Palácio do Parlamento em Bucareste pelo regime de Ceaușescu, foi uma obra que exigiu esforços financeiros e materiais notáveis e que causou danos inestimáveis ao património histórico e arquitetónico da capital.

Uma área de aproximadamente 5 km de comprimento por 1 km de largura foi completamente arrasada. Dezenas de mosteiros históricos, sinagogas e mais de vinte igrejas ortodoxas foram demolidos ou deslocados. Também cerca de 40.000 habitantes foram removidos à força de forma repentina para dar lugar à grandiosidade utópica e megalómana exigida pelo regime, o que levou à imposição de duras medidas de austeridade à população romena.

Fui deambulando pelas ruas animadas vislumbrando monumentos e imponentes edifícios a cada esquina.

Entretanto, lanchámos num outro espaço espetacular, o “Caru’en bere”, um restaurante-bar tradicional e emblemático, com um interior ricamente decorado, onde reina a cerveja artesanal e a boa gastronomia romena: sarmale, rasol, mici e as variadas ciorbă (tipos de sopa) e sobremesas. Fruto da história, a cozinha romena é influenciada por temperos de países vizinhos, como a Bulgária, a Turquia, a Hungria e a Alemanha. Aberto desde 1879, é considerado um dos mais antigos restaurantes da capital.

Mais tarde, o jantar no restaurante La Mahala, uma antiga taberna com uma decoração bastante boémia onde se podem experimentar pratos típicos.

Na manhã seguinte, despedimo-nos desta monumental e vibrante cidade que muito nos surpreendeu pela positiva. Hora de apanhar outro comboio, continuando na rota do Expresso do Oriente, rumo a outro destino, outro país, outra capital.


Sem comentários:

Enviar um comentário