Este blog surgiu em 2009 com o intuito de relatar uma "Viagem Incógnita" pela Ásia que teve início com um bilhete só de ida para a Tailândia. Uma viagem independente, sem planos, a solo, que duraria quatro anos a Oriente. Pelo meio surgiu um projeto com crianças carenciadas do Nepal que viria a dar origem à Associação Humanity Himalayan Mountains. A minha vontade de partir em 'Viagens Incógnitas' mundo afora, nomeadamente por África, levou-me a expandir essa missão a outro país, a Gâmbia. Em 2019 agreguei aqui um outro blog relatando as viagens que realizara anteriormente a 2009. Assim, este blog é dedicado às minhas Viagens pelo Mundo, bem como às "Viagens Humanitárias", de horizontes longínquos, no Nepal e na Gâmbia.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Expresso do Oriente: BULGÁRIA

O comboio partiu da Gare du Nord em Bucareste (Roménia) cerca das 11 horas da manhã e chegaria a Sofia (Bulgária) cerca das 21h30. Mais uma longa viagem, mas desta vez diurna, apreciando a bonita paisagem que se desenrola aos nossos olhos. A travessia do rio Danúbio marcou a passagem da fronteira entre os dois países, de Giurgiu para Ruse Pyce.

O rio Danúbio serve como fronteira natural ao longo de aproximadamente 75% da extensão total da fronteira entre a Roménia (a norte) e a Bulgária (a sul). O seu caudal termina entre a Roménia e a Ucrânia, formando uma vasta e ecológica área alagadiça conhecida como o Delta do Danúbio, antes de se encontrar com as águas do mar Negro. É o delta mais bem preservado da Europa, famoso pela sua rica biodiversidade e está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

Da estação de comboios de Sofia apanhámos um troley para o Hotel Central, já noite. Foi jantar e descansar.

A capital desta nação dos Balcãs situa-se no oeste do país, aos pés do Maciço Vitosha, sendo uma das maiores áreas urbanas da União Europeia. É uma das capitais mais antigas da Europa, com mais de 7.000 anos de história. A sua localização estratégica nos Balcãs fez com que fosse sucessivamente moldada pelos impérios Trácio, Romano, Bizantino, Otomano e pela era Soviética.

   

No século VIII a.C. foi fundado pela tribo trácia dos Serdi um assentamento que denominaram de Serdica. Os trácios eram um numeroso povo indo-europeu que habitou os Balcãs e regiões adjacentes desde a Idade do Bronze e que se destacaram como guerreiros temíveis e excelentes ourives.

Durante um curto período do século IV a.C., foi possessão de Filipe II da Macedónia e de seu filho Alexandre, o Grande. Após a conquista romana da região em 29 a.C., o local tornou-se um importante centro administrativo e foi elevado a cidade no início do século II d.C. pelo Imperador Trajano. A partir do século VI, cresce como um centro administrativo e económico importante do Império Bizantino.

No subsolo da praça central e estendendo-se até à estação de metro Serdika, pode ver-se, nos dias de hoje, o complexo arqueológico subterrâneo que preserva as ruínas da antiga cidade trácia e romana de Serdica, escavações a céu aberto que revelam as suas ruas, esgotos e edifícios. As ruínas foram descobertas recentemente durante a expansão do metro e estão integradas nos túneis pedonais urbanos.

Aqui se pode ver também a Igreja de Santa Petka dos Seleiros (Sveta Petka Samardzhiyska), uma pequena e histórica igreja ortodoxa, parcialmente subterrânea, construída no século XI sobre um antigo edfício romano, famosa pelos seus afrescos medievais e por abrigar a irmandade dos seleiros.

Ali perto, entre o hotel Sofia Balkan Palace e o complexo da Presidência, situa-se a igreja Sveti Georgi (ou Rotunda de São Jorge), o edifício histórico mais antigo de Sófia, construída pelos romanos no século IV em tijolo vermelho. Destaca-se pela sua arquitetura circular e pelos belos frescos medievais no seu interior que sobreviveram ao período em que o espaço foi convertido em mesquita pelos otomanos. 

No século IX, a cidade foi integrada no Primeiro Império Búlgaro e passou a chamar-se Sófia no século XIV, ganhando forte identidade religiosa com a construção de monumentos como a Igreja de Santa Sofia. A fundação desta igreja remonta ao século VI sendo a igreja primitiva construída no local de duas outras igrejas anteriores do século IV. Anteriormente a estas igrejas, encontrava-se neste local a necrópole romana da cidade de Serdica e no século II era ocupado por um teatro romano. É presentemente considerada uma das mais valiosas peças da arquitetura paleocristã do sudeste europeu. 

Durante quase 500 anos (século XV ao XIX) de domínio Otomano, a cidade foi transformada administrativamente, ganhando mesquitas, fontes e banhos turcos (hammam).  A Mesquita Banya Bashi foi construída em 1576 pelo arquiteto otomano Mimar Sinan (o mesmo da Mesquita Azul em Istambul) e é a única mesquita ainda ativa na cidade. Destaca-se a sua enorme cúpula central e o minarete imponente. O nome "Banya Bashi" significa "muitos banhos", devido à sua localização sobre nascentes de águas termais.

   

Localiza-se mesmo ao lado do sumptuoso edifício dos Banhos Minerais Públicos (hoje o Museu Regional de História de Sófia), onde os habitantes locais ainda enchem garrafas diariamente nas fontes públicas de águas termais curativas. Este edifício icónico de 1913, desenhado em estilo Secessão Vienense, foi construído sobre as antigas ruínas de banhos termais.

Em 1878, Sófia foi libertada e escolhida como capital da Bulgária. Em 1882 foi iniciada a construção da Catedral de Alexandre Nevsky, erigida em homenagem aos soldados russos caídos em combate durante a Guerra Russo-Turca de 1877-1878, que libertaram a Bulgária do jugo otomano. É dedicada ao Santo Alexandre Nevsky, tem uma altura de 45m e pode conter mais de 5000 pessoas no interior que está repleto de frescos e lustres maciços. Esta gigantesca catedral ortodoxa em estilo neobizantino é hoje o monumento mais icónico de Sófia.

Durante a Segunda Guerra Mundial, devido à aliança da Bulgária com o Terceiro Reich, a cidade foi objeto de bombardeios aéreos por parte dos aviões britânicos e americanos. Posteriormente, o Exército Vermelho soviético entrou na Bulgária e o país uniu-se aos Aliados, contra a sua antiga aliada a Alemanha nazi. Após o final da guerra, foi criada a República Popular da Bulgária e este período comunista alterou drasticamente a arquitetura da capital, impondo edifícios de estética socialista.

Hoje, Sófia destaca-se pela sua paisagem urbana única, em que os monumentos da cidade refletem a ocupação grega, romana, otomana e soviética, e onde é possível encontrar uma sinagoga judaica (Sinagoga de Sófia), uma mesquita islâmica (Banya Bashi), uma igreja ortodoxa (Catedral de Sveta Nedelya) e uma catedral católica (Catedral de São José), a poucos passos de distância.

Estas atrações históricas de Sófia, onde templos de quatro religiões diferentes coexistem a poucos metros uns dos outros, estão concentradas no coração do centro histórico de Sofia, nas imediações da estação de metro Serdika e perto do famoso Mercado Central, num espaço designado por "Praça da Tolerância" que simboliza a diversidade e a convivência histórica pacífica de diferentes religiões no país.

A Catedral de Sveta Nedelya (Santa Nedelya) é uma imponente igreja da Igreja Ortodoxa búlgara com origens no século X que se destaca pela sua fachada de pedra. Marcada por uma história atribulada, a catedral foi reconstruída várias vezes e tragicamente notabilizada pelo atentado à bomba em 1925, que causou 128 mortes. Hoje, domina a praça homónima e é um dos marcos mais importantes da cidade.

Outro marco da cidade é a Estátua de Santa Sofia, localizada em frente à Catedral Católica de São José. Trata-se de um imponente monumento de bronze e cobre com 24m de altura, erguido no ano 2000 no exato local onde antes existia uma estátua de Vladimir Lenin. Retrata a padroeira da cidade com símbolos de Poder (coroa), Fama (ramo de flores) e Sabedoria (coruja no braço) — do grego ‘sophia’.

Outras atrações incluem a Mesquita Negra, o Palácio da Justiça, a Universidade, a estátua de São Clemente de Ohrid que criou o alfabeto cirílico, o Edifício da Presidência onde decorre a cerimónia de troca da Guarda de Honra, entre outros. A cidade tem também belos parques e jardins.

    

A Vitosha Boulevard é a principal rua pedonal de Sófia. Famosa pelas suas lojas e cafés, oferece uma das vistas mais icónicas da cidade: o impressionante maciço da Montanha Vitosha a servir de cenário natural no horizonte. Para deslocações na cidade o troley é uma boa opção.

Há também vários espaços interessantes para um bom repasto. Um deles é o restaurante Made in Blue, um local popular instalado numa casa azul antiga de dois andares com um belo jardim e que apresenta um menu moderno, com boa comida, e um design de interiores muito criativo.

Voltámos ao hotel a pé, iluminados pelas luzes da cidade e pela lua cheia.

Manhã cedo, partimos de comboio para uma visita a Plovdiv, a segunda cidade da Bulgária em população total, situada às margens do rio Maritsa, 145 km a este de Sófia. É a capital cultural da Bulgária e foi a Capital Europeia da Cultura em 2019. É um importante centro económico, cultural e educacional.

Seguimos para o centro atravessando o bonito jardim Tsar Simeon e tendo a oportunidade de presenciar por instantes a comemoração dos 130 anos do primeiro voo de balão sobre a cidade de Plovdiv, realizado em 1892. O evento marcou o início da aeronáutica na Bulgária e foi parte da Primeira Exposição Agrícola e Industrial em Plovdiv.

Plovdiv é uma fusão de história milenar e urbanismo moderno. A cidade está construída em torno de colinas e dividida de forma orgânica entre o centro histórico (Old Town) e a área contemporânea.

É a cidade continuamente habitada mais antiga da Europa, tendo começado como um assentamento trácio, situado numa das suas seis colinas. Foi rebatizada como Philippopolis por Filipe II da Macedónia e tornou-se a grandiosa Trimontium durante o Império Romano. A cidade é um verdadeiro museu a céu aberto e nela coexistem vestígios romanos, templos otomanos, mansões renascentistas e a agitação da vida moderna.

A zona moderna distribui-se pela área plana da cidade, estendendo-se em direção ao rio Maritsa. A rua Knyaz Aleksandar I, a principal artéria pedonal, concentra comércio e restaurantes e está ladeada por edifícios dos séculos XIX e XX (com arquitetura neoclássica e secessionista). Este centro contemporâneo de Plovdiv integra na perfeição ruínas antigas que é possível visitar, tanto no subsolo da movimentada rua principal como até de lojas comerciais.

O Complexo Arqueológico do Fórum, localizado junto aos Correios de Plovdiv, revela os vestígios da antiga praça pública de Philippopolis e do Odeon, que serviram como centro administrativo romano. O Estádio Romano, datado do século II d.C., está situado na praça central da cidade. É parcialmente visível a céu aberto, permitindo ver as bancadas de mármore integradas debaixo das lojas modernas.

   

Próxima do Estádio Romano está a Mesquita Dzhumaya erguida no século XIV durante o Império Otomano e que se destaca pelo seu minarete de tijolos brancos e vermelhos.

Depois dirigimo-nos para a Cidade Velha (Old Town) que fica num patamar mais alto da cidade e está erguida sobre três colinas principais: Nebet Tepe, Dzhambaz Tepe e Taksim Tepe. Destaca-se pelas ruas de paralelepípedos e pelas mansões coloridas do período do Bulgarian Revival (séculos XVIII e XIX), com fachadas ricamente decoradas.

Nebet Tepe é a colina onde a antiga cidade foi fundada. Os primeiros assentamentos remontam ao 4º milénio a.C. (há cerca de 6000 a 7000 anos). O local foi originalmente fortificado pelos trácios e mais tarde foi expandido por Filipe II da Macedónia e pelo Império Romano.

As muralhas da Fortaleza de Puldin foram reconstruídas durante o Império Bizantino nos séculos V-VI. As vistas do topo oferecem uma panorâmica incrível de Plovdiv e dos cumes nevados das montanhas.

Entretanto almoçámos no restaurante Rahat Tepe, ali bem perto.

O Teatro Romano de Filipópolis, construído no século I d.C., é uma das ruínas mais bem preservadas do mundo. Tem capacidade para entre 5.000 e 7.000 espectadores e ainda hoje é usado para espetáculos. E quem viria aqui atuar em junho? Pois: a Carminho.


    

Acompanhados pela guia local passámos ainda na "Sveta Bogoroditsa", a Igreja de Santa Mãe de Deus, um importante templo ortodoxo famoso pela sua arquitetura e preciosa iconóstase.

Depois seguimos para o Bairro de Kapana (A "Armadilha"), o antigo bairro de artesãos que foi revitalizado e se transformou no coração cultural e criativo da cidade. Está repleto de galerias, lojas peculiares, bares, cafés alternativos e arte urbana colorida. 


 

Outro monumento de interesse a visitar na região é o Mosteiro de Rila para onde nos dirigimos numa carrinha apreciando a paisagem pintada de verde rumo à cordilheira de Rila que é a mais alta da Bulgária.

O Mosteiro de São João de Rila é o maior e mais importante complexo monástico da Igreja Ortodoxa na Bulgária e está situado a noroeste dos montes Rila, 117 km a sul de Sófia, a uma altitude de 1.147 m. É o lugar mais religioso por excelência do país e está inscrito na lista de Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Fundado no século X pelo eremita São João de Rila, o Mosteiro de Rila é considerado o maior tesouro cultural, histórico e arquitetónico da Bulgária, sendo uma das mais importantes atrações turísticas de toda a Europa balcânica. Serviu como bastião da identidade e cultura búlgara durante a ocupação otomana. A sua arquitetura atual é uma obra-prima do Renascimento Nacional Búlgaro.

A sua evolução histórica divide-se em três grandes fases: Fundação (Século X) - São João de Rila (Ivan Rilski) retirou-se para uma caverna local para viver em meditação e oração. Após a sua morte, os seus discípulos fundaram um mosteiro no local, que se tornou um importante centro espiritual e local de peregrinação.

Período Medieval: No século XIV - O mosteiro foi ampliado com fundos do governante local Stefan Dragovol, incluindo a construção da Torre de Creles (ou Hrelja), entre 1334 e 1335. Esta estrutura de estilo fortaleza é a parte mais antiga do complexo sobrevivente.

Destruição e Renascimento (Séculos XV a XIX): Durante a conquista otomana, o mosteiro foi saqueado e destruído no século XV. Foi reconstruído nos séculos seguintes e, entre 1834 e 1862, durante o Renascimento Nacional Búlgaro, foi totalmente reerguido com doações generosas, ganhando o formato e os belos frescos que se podem observar hoje.

A Igreja da Natividade da Virgem, a igreja principal do Mosteiro de Rila, foi construída entre 1834 e 1837 pelo mestre arquiteto Pavel Ivanovich após um grande incêndio.

Absorvemos o ambiente místico do local, respiramos o ar fresco da montanha e contemplamos a bela paisagem em redor. Embuídos de tranquilidade e silêncio regressamos à capital para deixar o país.

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