quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Kathmandu após sismo

Viajei na Turkish Airlines para o Nepal no início de setembro, tendo requisitado previamente uma licença sem vencimento de três meses no meu serviço. A viagem correu bem, o stopover é só de duas horas em Istambul, a única paragem na ligação Lisboa-Kathmandu. A aproximação ao Nepal faz-se de madrugada quando os primeiros raios de sol despontam na cadeia dos Himalaias.
Apanhei um táxi no aeroporto e alojei-me no hotel do costume, o Hotel Hana, em Thamel, a zona mais turística da cidade. Estava no quarto, ao segundo dia, quando senti uma "tontura"... Soube depois que havia sido mais uma réplica ligeira do terramoto, a única que senti no Nepal.
Como combinado antes da minha chegada ao Nepal, a Jyoti foi ter comigo a Kathmandu onde ficámos quatro dias. Ela tinha documentos a tratar relativos às crianças do lar e assim aproveitava para visitar a capital, coisa que raramente fez na vida, na minha companhia.
E assim estivemos com a mãe adotiva da Bindi, criança abandonada à nascença à porta do hospital, que a criou até aos cinco anos de idade, altura em que a entregou ao orfanato em Pokhara antes de partir para a capital à procura de uma vida melhor.

Aproveitámos para visitar nas redondezas o templo de Budhanilkantha onde eu havia estado pela primeira há uns nove anos. Só mais tarde me apercebi que nesse dia se festejava o Janmashtami, uma celebração anual do nascimento da divindade hindu Krishna, o oitavo avatar de Vishnu. As pessoas deslocam-se aos templos para aí deixar penas de pavão ou fazer a puja, coisa que eu também fiz sem saber que esse era um dia considerado auspicioso. A pena do pavão é um símbolo de beleza e conhecimento. O olho visível na pena representa a sabedoria divina ou o terceiro olho de Krishna .
Nas ruas entoam-se versos do Bhagavad Gita e cantam-se canções religiosas chamadas bhajans. Os templos dedicados ao Senhor Krishna são decorados e tocam-se bhajans e kirtans.
Andámos sempre de um lado para o outro nos transportes públicos, de Micro ou de Tempo, normalmente tudo ao molho.
 
Já passaram quatro meses depois do terramoto, muito já foi limpo na cidade e as coisas voltaram a uma aparente normalidade. Mas nalgumas zonas da capital os destroços e os danos provocados são ainda bem visíveis e os sorrisos afáveis das pessoas escondem certamente histórias de pânico, sofrimento e de sobrevivência por parte de cada uma delas.
Visitámos alguns dos locais mais turísticos de Kathmandu, todos eles grandemente afetados pelo sismo, em que se incluem locais emblemáticos da capital como a Durbar Square, Boudanath e Swayambhunath.
Singha Durbar
Durbar Square
Era na Durbar Square que os reis da cidade eram coroados e legitimados e de onde governaram. O complexo constituído por palácios, templos e praças representa o coração tradicional da cidade velha contendo o legado mais espetacular da arquitetura newari de Kathmandu. A maioria das estruturas data dos séculos XVI e XVII, com algumas secções do século XII. Foi largamente destruída pelo terramoto, edifícios inteiros ruíram.
Boudhanath
Boudhanath é um dos sítios budistas mais sagrados de Kathmandu, à volta do qual se concentra um elevado número de refugiados tibetanos. A enorme e maciça estupa, que domina o horizonte a nordeste do centro da cidade, é uma das maiores estupas semi-esféricas do mundo e o templo budista tibetano mais sagrado do mundo fora do Tibete. Desde 1979 que Boudhanath também está inscrito na lista do Património Mundial da UNESCO, por integrar o "Vale de Kathmandu". O imponente monumento foi gravemente danificado pelo terremoto e está em reconstrução.
Swayambhunath, o Templo dos Macacos
Swayambhunath é um complexo religioso, principalmente baseado na tradição Vajrayana do budismo newari, mas também importante para budistas de muitas escolas e igualmente reverenciado por hindus. Fica situado no cimo de uma colina no vale de Kathmandu e tem acesso por estrada no lado sudoeste e por uma longa escadaria muito íngreme, com 365 degraus, que conduz diretamente à plataforma principal do templo, na parte leste da colina. 
Também é conhecido como Templo dos Macacos devido à existência de uma colónia de macacos considerados sagrados. A estupa tem os "olhos de Buda" pintados nas quatro faces da torre e, tal como a estupa de Boudhanath, foi também bastante afetado pelo terramoto do passado dia 25 de abril.
Daqui se avista toda a cidade incluindo acampamentos de tendas que agora se espalham por todo o lado.
No decurso destas visitas a Jyoti foi-me pondo ao corrente dos "big big problems" que atualmente interferem na vida do lar das crianças em Pokhara e que me deixaram perfeitamente espantada...