terça-feira, 20 de julho de 2010

Voluntariado

Fazer voluntariado era um dos objectivos desta minha viagem incógnita, uma experiência que sempre quis ter, e nada melhor do que fazê-lo no Nepal, este país que me detém...

Procurei informações eu mesma aqui em Pokhara, junto dos locais, queria certificar-me de que o faria numa instituição verdadeiramente carenciada e não onde nos pedem quantias exorbitantes pela oferta do nosso trabalho, como é o caso de alguns sites de organizações que se encontram através da net.

Dei então com o Orfanato Everest Children Home, localizado numa colina com vista sobre a cidade e o lago, supervisionado por um casal nepalês, o Chandra e a Jyoti, que me pareceram verdadeiramente empenhados em proporcionar um lar a estas crianças órfãs e desfavorecidas que já passaram por bastante sofrimento na sua curta vida.

A oferta do nosso tempo e trabalho não é grátis mas foi-me pedida uma quantia que posso compreender pois o orfanato não tem outros meios de subsistência senão a ajuda beneficente através de donativos ou voluntariado. Não há qualquer comparticipação do Estado na ajuda a estas crianças. A família de acolhimento aplica a nossa contribuição nas despesas essenciais do dia-a-dia: refeições, cuidados de saúde, despesas escolares...

Trabalhei por um período de um mês, das 8 às 17 horas, e tinha no orfanato duas refeições ao dia, o pequeno-almoço e o almoço.

Existe um quarto, com wc privativo (embora a água não corra), destinado a voluntários que desejem permanecer na residência, sendo então pago um total de 350USD. Não foi o meu caso, preferi ficar no meu hotel.

As crianças são apenas oito neste momento: O Joseph, 14 anos; a Alisha, 13 anos; a Jasmine e a Binkashi, 10 anos; o Rabin, 8 anos; o Bishal, 6 anos; a Ruth e o Raju, 4 anos. Há condições logísticas para mais mas não condições financeiras.

E, claro, estas crianças cativam-nos à chegada, correm para nós de braços abertos a chamarem-nos "tia, tia" e atiram-se para o nosso colo. E era assim todos os dias. Passamos a fazer parte da família, deles, nepaleses, que se tratam todos por irmãos, irmãs, pais e tios uns dos outros (e não é isso o que somos todos afinal?)...

A Jyoti é incansável, desdobra-se em afazeres constantes e oferece atenção, sorrisos e gargalhadas cristalinas a qualquer instante. Começa por servir o pequeno-almoço dos adultos (o casal acompanha os horários alimentares a que nós, ocidentais, estamos habituados) enquanto prepara o das crianças.

Esta família é cristã, religião adoptada há muitos anos pela família da Jyoti, e reza-se a missa todos os sábados. Algumas pessoas de fora vêm assistir a esta missa celebrada pelo Chandra.
As crianças rezam em coro antes de qualquer refeição.

E como comem! A primeira refeição do dia não é um "pequeno" almoço mas sim um bem grande: invariavelmente o 'dal bhat' que eles adoram e que comem às 9 horas antes de irem para a escola.

E todos cumprem os cuidados de higiene após as refeições.

Em seguida há que preparar o equipamento escolar. As minhas tarefas diárias iniciam-se com o apoio nos deveres e no estudo, às 8 horas da manhã e, depois da refeição matinal, ajudando os mais novos a vestir os uniformes.
Estando prontinhos e as meninas de lacinhos na cabeça, seguimos pelo 'caminho de cabras', primeiro uma ladeira acentuada, escorregadia e cheia de pedras, e depois um estreito caminho ao lado de um canal de água, até à escola.

As actividades escolares tem início às 10 horas.

E a escola exibe uns dizeres bem elucidativos de um país que, embora economicamente pobre, aposta num futuro melhor através da educação...

Diariamente, ao som do tambor, os alunos alinham-se em filas, entoam palavras de lealdade, respeito e dedicação, ouvem as recomendações do director, fazem alguns exercícios físicos de relaxamento e concentração, rezam e depois dirigem-se ordenada e ordeiramente para as salas de aula. Um exemplo para os países 'desenvolvidos'...


Depois de os levar à escola regresso a casa e ajudo a Jyoti no que for preciso, por exemplo, a costurar a roupa mais que usada dos miúdos ou a lavar. Tarefa árdua já que tudo é feito da forma mais elementar, não há máquinas nesta casa a não ser um frigorífico que não trabalha a servir de despensa.

Lavar a roupa das camas nestas condições é o que se torna mais difícil.

Estende-se a roupa no terraço, sem molas, em princípio não voa dali...

A água usada para lavar e para a higiene pessoal é a água da chuva que é armazenada num depósito.
Se por ventura não chove, como aconteceu no início, em Junho, em que a monção ainda não estava no seu forte, vamos com a roupa já ensaboada para a floresta, onde corre um fio de água, para a passar a limpo... E depois todos tomam banho.

Quando chove acartamos a água da chuva retida no terraço, que escorre lá para baixo por um cano, para dentro do depósito. A chuva é uma bênção, a água ali à mão, e todos podem tomar banho num chuveiro natural, ao relento. A casa está preparada com canalização mas os motores para puxar a água estão todos avariados, portanto a água não corre nas torneiras...
Depois chega a hora de preparar o nosso almoço, o dos adultos.
Escolho o arroz,
corto legumes que nunca vi nem conheço a tradução:

neuro, lauka, karela, gheeraula...

As refeições são saborosas mas quase sempre o incontornável dal bhat!

Às 15h30 vou buscar as crianças à escola.

Chegados a casa é hora de descalçar os sapatos e trocar de roupa.

E hora de fazer os deveres e estudar, coisa que os miúdos fazem com o maior gosto.
Eles aprendem simultaneamente, desde a mais tenra idade, dois alfabetos e três numerações, incluindo a romana.

O Nepali é uma língua indo-ariana escrita com o alfabeto Devanagari, tal como o hindi e o sânscrito, que se desenvolveu a partir do Brahmi no século XI.

Ajudo, principalmente, os mais novos no inglês e na matemática mas quando se trata de assuntos em nepalês essa tarefa fica a cargo dos miúdos mais velhos que a cumprem primorosamente.

E os mais novos obedecem à risca sem nunca se queixarem. E é assim todos os dias.

Existem outros "hóspedes" na casa que todos adoram. Os coelhos não são para comer, são animais de estimação.
Como passatempo gostam de jogar 'caramboard' e todos se deliciam com as telenovelas nepalesas que observam na pequena, velha e roufenha televisão a preto e branco.
E quando alguém adoece há que ir com eles ao hospital.

O tempo livre é hora de brincadeira,

de vestir uma roupinha nova,
de ir lanchar ao meu hotel,
ir para o parque correr e relaxar,
ou simplesmente contemplar o lago...