segunda-feira, 23 de julho de 2012

As outras crianças

Últimos dias em Pokhara. A grande preocupação são agora as outras crianças que ajudei também o ano passado. E a 'dolorosa' decisão: pagar ou não as despesas escolares a elas relativas contando apenas com algum apoio por parte da Nona, da Eva e da Kellie. Mas apesar dos meus parcos recursos de viajante e a perspetiva de não ter emprego no regresso a Portugal, decidi avançar com o pagamento e deslocar-me às suas escolas. Preferi isso a arrepender-me de o não ter feito depois de partir.
Comecei pela escola da Asmita e do Anish, situada numa pequena localidade nos arredores de Pokhara, uma viagem de quase três horas de autocarro.
No início do percurso acompanhamos o leito do rio Seti Gandaki, o rio Branco. Um rio que este ano causou inúmeras mortes e vasta destruição devido a inundações provocadas por fortes chuvadas e avalanches desencadeadas na cadeia dos Annapurna.
Apeamo-nos do autocarro na estrada principal de ligação a Baglung e iniciamos uma subida de quase uma hora até à pequena aldeia no distrito de Parbat. O topo do monte oferece-nos espetaculares vistas para o vale do rio Kali Gandaki, o rio Negro, que desce veloz dos Himalaias.
Um conjunto de casas típicas nepalesas, ainda pouco invadidas pela inestética chapa de zinco, constituem a pequena aldeia cujos habitantes se dedicam principalmente à atividade agrícola nos campos que a circundam.
O principal cultivo é, evidentemente, o arroz que durante o mês de julho tem o seu 'apogeu': é a altura da monção, a época de o plantar. As próprias crianças estão de férias na escola e todos na família se fazem aos campos para labutar.
É um mês muito significativo para os nepaleses, celebrado com alegria e festa, uma vez que representa o garante do seu sustento básico, diariamente presente no prato tradicional, o 'dal bhat': arroz com lentilhas, legumes e molho picante.
E foi a deambular por aqueles carreiros enlameados que dei com a Binu a trabalhar no campo. Imediatamente veio ter comigo, tal como a Asmita e o Anish, apesar de envergonhados pelo seu 'revestimento' a lama.
Na aldeia todos os olhares curiosos se centram em nós. Nós, turistas. Nunca ali aparece algum...
A cozinha da Binu continua na mesma: simples e funcional.
Depois de tomarem banho debaixo da torneira de água fria no quintal, a Asmita e o Anish querem mostrar-me os conhecimentos que adquiriram em língua inglesa. O Anish é o melhor aluno da turma dele. A Asmita, que o ano passado não dizia uma palavra em inglês, já compreende a língua e escreve orgulhosa e rapidamente todo o abecedário que é completamente diferente do alfabeto devanagari usado na língua nepalesa.
Na escola as crianças levam-me a percorrer as salas de aula e a Asmita exibe, contente, a sua. Uma sala nova, com chão de terra e com telhado...
Pago então as propinas de todo o ano escolar referentes às duas crianças ao diretor desta escola que aqui se deslocou de propósito durante as férias. É o segundo ano que aqui venho com o mesmo fim. Como já referi anteriormente este dinheiro serve também para pagar salários de professores já que estas escolas são construídas pela comunidade e não têm qualquer apoio governamental.
Ao fim da tarde, faço-me ao caminho descendo a vertente e apanho lá em baixo na estrada um autocarro apinhado de povo. Chego a Pokhara durante a noite.

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Num dia de chuva desloquei-me de mota a Begnas Lake, uma localidade mais próxima e a bom caminho de Pokhara.
Na presença do diretor e do avô do Manish paguei todo o ano escolar desta criança que, tal como a irmã, e como já referi no meu blog o ano passado, foi abandonada pelos pais. O Manish está agora no sexto ano. Impressionou-me vê-lo tão reservado, tão caladinho, tão magro. Só então soube que ele esteve gravemente doente com febre tifóide encontrando-se ainda medicado.
A Asmita, o Anish e o Manish foram as outras três crianças que auxiliei este ano e com as quais gastei mais de quatrocentos euros só para propinas escolares; materiais, livros, uniformes e outras despesas não incluídas. Outras crianças ficam por ajudar mas mais não me foi de todo possível.
Procuro a partir de agora pessoas que queiram apadrinhar estas crianças em cada ano escolar. As despesas poderão ir dos duzentos aos quatrocentos euros por ano consoante o nível escolar frequentado (ver à direita a etiqueta 'Patrocinar as Crianças' na lista do Voluntariado) e ainda mais se a criança estiver numa 'boarding school'. Alguém interessado em o fazer queira contactar-me, por favor. Grata.

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Antes de abandonar Pokhara, tomei também a opção de ajudar os pintores a abrir o seu próprio atelier de pintura. Para além de esporadicamente lhes comprar tintas e rolos de telas, comprei quadros a óleo e acrílico por eles pintados... Na esperança de que este investimento ajude a subsidiar outras crianças. Veremos.
Os donativos que entretanto me chegaram e que serviram para colmatar parcialmente estas despesas foram da sempre presente amiga FÁTIMA R. e ultimamente da MARGARIDA M., uma amiga que eu conheci em Timor. Obrigada, Margarida, é bom saber e sentir que certos encontros não são efémeros mas antes os encontros certos que dão frutos além fronteiras... Até um dia no Nepal!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Como fica o orfanato

As crianças têm estado todas de férias depois de finda a época de exames na escola privada.
 E a Maya continua a vir dar-lhes explicações todos os dias.
 Também a sobrinha da Jyoti continua aqui em Pokhara os seus estudos, tem quatorze anos e está no nono ano.
Todos lá em casa vão ajudando nas tarefas diárias. Brincam com o inseparável felino ou vêem televisão nos tempos livres. Por vezes saem para um passeio.
A casa sofreu mais algumas melhorias mas o projeto de construção da grande capoeira está ainda por concretizar.

E a Jyoti recebeu um belo donativo que a liga agora ao mundo a partir de casa. Um computador portátil moderno e funcional como eu não tenho! E vai escrevendo os emails em inglês com a ajuda do seu sobrinho que agora aqui vive com eles. O rapaz dá uma grande ajuda em casa mas também faz planos para continuar os seus estudos superiores.

 A Kellie continua a enviar encomendas da Austrália com roupa, livros e até comida.
Eu andei uma vez mais 'entretida' a levar os miúdos ao médico dentista e a fazer compras na cidade com a Jyoti.
A casa dela vai-se compondo e a minha bolsa vai-se esvaziando. Mas felizmente encontrei alguma ajuda por parte de uma senhora alemã que aqui trabalha no ramo da hotelaria e que se ofereceu para ir comprando regularmente os géneros alimentares. Uf! Um grande peso que me sai de cima.
Para uma alimentação mais equilibrada, compro-lhes, de quando em vez, carne e peixe, acontecimento que constitui curiosidade geral, tão raro é terem estes ingredientes na base da sua dieta normal.
Ofereci-lhes também uma pequena bateria recarregável, com duração para umas três ou quatro horas, dados os constantes cortes de energia elétrica, ficando tudo na casa escuro como breu à noite.
Grande ajuda tem sido a Nona que, com os seus amigos, vai angariando fundos que asseguram o pagamento da renda de casa.
E a Kellie comprometeu-se a arranjar padrinhos e madrinhas para que várias destas crianças tenham a hipótese de frequentar a escola privada no próximo ano letivo.
Assim, falta apenas apadrinhar três destas crianças:
a Bindi, o Suraj e o Lajras.
Agradeço às pessoas amigas acima 'retratadas' que, mais do que me ajudarem a cobrir estas últimas despesas, me deram o seu grande apoio e incentivo. E, de um modo geral, agradeço a todos quantos contribuíram para comigo 'ressuscitar' este Lar de Crianças que esteve na iminência de ser encerrado no início deste ano.
De momento, aguardam-se voluntários residentes na próxima semana e espero que os seus donativos para alojamento e comida ajudem também a fazer face às despesas do dia-a-dia da casa.
Aproxima-se a hora da despedida. Deixo-os pois a cantar e a dançar e com as necessidades básicas essenciais asseguradas.
Pelo menos para já em melhores condições que eu que ainda tenho outras contas por pagar, referentes a outras crianças da periferia, e para as quais não tenho recebido qualquer auxílio...