segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Orfanato: sobreviver ou não

 
Depois da partida dos anteriores voluntários lá fui eu dando uma mãozinha a muitas mãozinhas, vestindo, calçando, acompanhando a refeição matinal dos meninos, levando-os à escola. Uma mãozinha aqui outra acolá…
Um grupinho vindo de Portugal fez chegar ao Nepal escovas e pasta de dentes oferecidos por um seu amigo dentista, bem como os materiais escolares carinhosamente adquiridos a pouco e pouco pela amiga Lígia, a que prontamente foi dado uso.
A ajuda monetária que a mim desta vez chegou, de cinco benfeitoras amigas, foi de pouco mais de cem euros…  Não dá, não deu, para a escola das meninas e foi usado para outras necessidades prementes.
Comida. Compras com a Jyoti nas lojas e mercados da cidade. Arroz, lentilhas, grão, feijão, farinha, legumes, fruta…
E a renda de casa que foi regularizada também com a ajuda da Nona, a complacente espanhola que aqui conheci nos finais de janeiro.
Queremos assim expressar os nossos sinceros agradecimentos a quem por bem isto permitiu.
No entanto, as carências são imensas e há ainda muita coisa por reparar naquela casa incluindo o portão de entrada que tem uma barra partida e por onde qualquer um pode agora furar…
As capoeiras continuam vazias já que o homem até as galinhas e os coelhos levou. As malas dos meninos rasgadas, fechos estragados… Tanta coisa a fazer, a arranjar, a substituir! A jardinar e plantar.
Depois há os assuntos burocráticos, como legalizar e passar tudo para o nome da Jyoti. Tenho andado com ela numa roda viva procurando ajuda em portas que teimam em se fechar. Uma mulher sozinha numa sociedade conservadora apoiada por uma outra, estrangeira, que se perde nestas leis. E tudo tem custos.
O comité de direção indisponível para conversar. As portas a que já não sei a que bater dadas as crises e dificuldades também lá onde o meu blog se difunde. A ajuda prometida mas que afinal nunca chega. A indiferença de quem visita. A desconfiança. Forças que nos derrubam e que nos levam a pensar em abandonar o barco.
Mas olho para a Jyoti, sempre determinada. Chegam notícias da Nona que pôs à venda calendários feitos com as fotos que tirou aos miúdos. Uma alma irmã que vê e sente o Nepal como eu, de um modo que dificilmente se explica. Um povo pobre e muito simples mas sempre simpático e sorridente, um país de paisagens exaltantes que permaneceu fechado ao mundo até há uns 60 anos, onde nos sentimos privilegiados não só por aqui estar como por aprendermos o valor de 'pequenos luxos' que  normalmente damos como adquiridos. A água da torneira, mesmo fria, a luz elétrica, a toda a hora...
E uma lufada de ar fresco portuguesa! 
O Gonçalo e o Tiago chegaram hoje, dois jovens em 'gap year' apoiados pela Fundação Lapa do Lobo.
Já visitámos o lar, já passeámos com as crianças junto ao lago parando para um lanche de ‘pani puri’, já se ventilam ideias novas, já assistimos a shows de cantorias e danças em miniatura, já se sentem cumplicidades… Amanhã iniciam as suas funções de voluntariado no orfanato.

Vamos ver...

2 comentários:

  1. Olá Marília.
    Que vida emocionante, boa sorte para ti e para os meninos e meninas que ajudas.
    Célia Sérgio

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    1. Obrigada, Célia. Será que nos conhecemos?...

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