quinta-feira, 29 de março de 2012

Orfanato: voluntários e visitas

Durante as três semanas que permaneceram em Pokhara os jovens  portugueses, o Gonçalo e o Tiago, compareciam ao 'serviço' no orfanato logo pela manhã, ajudavam a preparar a refeição matinal das crianças e depois conduziam-nos à escola. Muitas vezes vinham recambiados com eles já que no Nepal há sempre um festival, um feriado, uma greve inesperada...
Depois ajudavam na lida caseira e lá iam consertando o possível, como foi o caso do galinheiro. Muita brincadeira com a pequenada que os adorou tal como ao baloiço que eles construíram...

Eu continuei as 'conversações' com o advogado e o comité de direção mas acabei por me cansar.

Para além de decorrerem maioritariamente em nepalês, só podendo eu praticamente contar com a tradução no limitado inglês da Jyoti, deu para perceber que o processo vai ser bem moroso.
Das quinze pessoas do comité, e após longa insistência nossa, compareceram apenas três numa reunião. Os outros membros teimam em não se pronunciar quanto à sua continuidade ou não, dificultando o processo legal e administrativo para a alteração do nome do presidente da instituição que passaria a ser a Jyoti.
Entretanto chegou mais uma contribuição no total de cem euros, uma recolha feita entre quatro professores da Escola Profissional de Leiria, pessoas que não conheço pessoalmente, colegas e amigos do meu irmão, um gesto benevolente que muito aprecio e agradeço em nome de todos. Para além do anteriormente mencionado foi tudo o que recebi de donativos 'singulares' até agora, este ano.
Mas felizmente veio visitar-nos ao Nepal este mês uma 'pessoa coletiva', daquelas que 'enchem a casa' nem que a sua passagem seja breve, e que deixou atrás de si um rasto de possibilidades para dar mais condições àquele lar. O Dr. Carlos Torres, presidente da Fundação Lapa do Lobo que apoia o 'Gap Year' destes dois jovens portugueses, fez um generoso donativo de cujos resultados darei conta num próximo post neste blog.
Foi recebido com alegria, cartazes, flores, palmas, desenhos, música,  cânticos e danças, beijos e abraços. Prontamente o Suraj se alapou no colo dele sorrindo de satisfação, exibindo a sua muito deteriorada, apesar de jovem, dentição...
Visitando a casa e constatando as necessidades de melhoramento nomeadamente em relação à falta de canalização funcional.
A Jyoti preparou um saboroso almoço: dal bhat, claro está. Após a oração de agradecimento habitual (repito: estas crianças são educadas segundo os princípios cristãos há muito presentes na família da Jyoti) deliciou-se a esfomeada criançada e depois nós, os adultos.
Sinceros agradecimentos à FLL e em especial ao Dr. Carlos Torres por tudo o que a sua passagem por cá proporcionou a este lar de crianças. Podemos dizer que Portugal esteve em grande este ano e que aqui dá frutos pela sua generosidade.
E, pelo que me foi dado a conhecer do Dr. Carlos na sua curta estada, pela pessoa extraordinária que é e a riqueza que revela em termos de valores humanos e universais, apetece-me dizer que pessoas destas deviam dirigir um país e não apenas uma fundação. Seria um mundo melhor...
Leia-se no desenho: 'Mr President, please come back to Nepal'.
Alguns dias depois, chegou a hora da partida dos dois jovens que vão continuar viagem por esse mundo fora. Para além dos beijos e abraços na hora da despedida, foram agraciados com lenços kata como forma de reconhecimento pelo trabalho prestado e pelo elo de ternura que com todos estabeleceram.
Deixam uma imagem positiva não só neste lar mas por todos os locais por onde passaram incluindo o hotel em Pokhara. São dois jovens de apenas 18 anos, educados, interessados, solidários, humildes e disponíveis, com uma enorme capacidade de adaptação a novas situações e culturas, qualidades tão importantes numa viagem deste género principalmente Ásia adentro. Um exemplo não só para jovens como para adultos e que a mim, modéstia à parte, por tão bem representarem e enaltecerem o meu país, me deixou particularmente orgulhosa.
Gonçalo e Tiago, aqui ficam os nossos desejos de continuação de boas viagens, aventuras emocionantes e aprendizagens enriquecedoras, muitas felicidades e sucessos! E que a vossa cruzada seja uma lição a seguir por muitos.
Entretanto dirigi-me com a Jyoti à escola pública para pagar contas devidas relativas a oito das crianças. Mesmo sendo supostamente grátis, há sempre coisas a pagar, como: inscrição nos exames, uso de computadores, material escolar... Como já referi, nas escolas públicas é sempre usada, oralmente e na escrita, a língua nepalesa e, quando muito, os alunos poderão ter uma hora semanal de Inglês, o que não os torna proficientes nesta língua, tão importante para lidar com os turistas, por exemplo. Aliás, eles não saem destas escolas muito bem preparados para o que quer que seja.
E dirigi-me também à escola privada, frequentada pelas duas meninas do lar, para me inteirar dos custos do novo ano escolar que se aproxima. Os preços, que aqui pagam a qualidade do ensino maioritariamente ministrado em inglês, subiram bastante, o que se entende se pensarmos que, dessas propinas dos alunos, e para além de muitas outras despesas, são pagos os salários dos professores que aqui rondam as 8000 rupias mensais (80 euros)...
A Alisha e a Jasmine terminam brevemente os seus exames finais. Seria bom que as outras crianças do lar pudessem frequentar também esta escola e, por isso, procuram-se 'padrinhos e madrinhas'. Sairão daqui, sem dúvida, mais preparados para enfrentar o mundo laboral que vive, nestas localidades, tão à base do turismo.
Em termos de resultados de donativos, e enquanto não sai outro post aqui no blog, posso adiantar o seguinte: no orfanato foram supridas, de momento, muitas das necessidades básicas e o próximo ano escolar das duas meninas na escola privada já está totalmente pago!






A crónica dos dois jovens voluntários portugueses, Gonçalo e Tiago, sobre a sua passagem pelo Nepal e este orfanato, intitulada 10 motivos para ajudar, foi mais tarde publicada no seu livro «Gap Year, o ano das nossas vidas»:





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