Rapidamente, decidi continuar o meu périplo pelo arquipélago dos Açores, tal como fizera em 2020, e meti-me num avião para a Ilha Terceira, logo no dia 1 de janeiro. Era necessário ter o Certificado de Vacinação (Certificado Covid UE) e apresentei igualmente um teste antigénio à ida (não obrigatório) e outro à vinda (obrigatório), feitos 48 horas antes do voo. No regresso a Portugal Continental era ainda obrigatório preencher um Formulário de Localização (PLF). E, claro, viajamos de máscara. Voos diretos Ryanair, de ida e volta, Lisboa-Praia da Vitória. Uma semana para ver a ilha à vontade.
Aterrei às 20h00 nas Lajes (uma hora a menos que em Portugal Continental), mostrei o Certificado Covid, saí do aeroporto e apanhei um táxi para a bem próxima Praia da Vitória. Tudo rápido. Pouco movimento e só levava bagagem de mão. Não estava ninguém na receção e abri a porta do Hostel Palmeira com o código da chave que me haviam enviado por email. Hostel com óptimas condições e, além do mais, um dormitório com WC interior e varanda só para mim! Foi o meu quarto privativo, portanto. Levava apenas 4 noites reservadas, duas na Praia da Vitória e duas em Angra do Heroísmo, e mais nada, não gosto de planear muito as viagens.
Tomei o pequeno-almoço no hostel (incluído), conversei com a rececionista que me passou o contacto de um condutor local, caso precisasse, e encetei a exploração, a pé, da localidade. Era a minha primeira vez nesta ilha.
A Ilha Terceira é a terceira maior ilha dos Açores e faz parte do Grupo Central do Arquipélago, juntamente com as ilhas Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. A Praia da Vitória é a segunda maior cidade da ilha e está localizada numa grande baía na costa leste. Tem uma bela marina e uma extensa zona balnear com ótimas infraestruturas de apoio para usufuir nos meses de verão. O tempo nas ilhas é sempre muito variável e, nesta altura, apanhei vento e alguma chuva, mas temperaturas não muito frias.
A marginal da Praia da Vitória, além de cafés e restaurantes com agradáveis esplanadas, exibe monumentos e murais de homenagem a gentes da terra e que nos contam um pouco da história da povoação, como podemos apreciar no ‘Passeio dos Poetas’. Povoação esta que ganhou reconhecimento pela sua agricultura, mas sobretudo pelo seu porto marítimo que impulsionou o desenvolvimento regional a partir do séc. XV.
No decorrer da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), aqui se travou a Batalha da Praia em 11 de Agosto de 1829, quando frustrou a tentativa de desembarque de uma esquadra de tropas miguelistas. Como reconhecimento pela resistência e vitória na batalha, a então Vila da Praia recebeu da Rainha D. Maria II os títulos de "Mui Notável" e "da Vitória", passando a designar-se Vila da Praia da Vitória, tendo sido elevada à categoria de cidade em 1981.
A povoação sofreu intensas crises sísmicas de origem tectónica que ficaram conhecidas por Caída da Praia. A primeira crise começou a 9 de abril de 1614 e a segunda ter-se-á iniciado em 12 de junho de 1841. A vila foi reconstruída e, no século XX, foi construído um novo porto de mar e também um aeroporto militar que fizeram prosperar a economia da ilha.
O centro histórico da Praia da Vitória preserva os seus vários monumentos, igrejas e edifícios com uma arquitetura muito típica e colorida e com azulejos característicos portugueses. É agradável percorrer as suas ruas tradicionais destacando-se a calcetada Rua de Jesus, a rua comercial mais conhecida, ladeda de edifícios com longas varandas de sacada, típicos dos séculos XVIII e XIX. No final da rua, encontra-se o Mercado Municipal, construído no século XIX, situado em frente a um pequeno jardim público.
- A Igreja Matriz de Santa Cruz, um dos maiores e mais belos monumentos religiosos da ilha Terceira, datada do século XV e caracterizada pelo seu majestoso portal gótico e pela sua porta lateral em estilo manuelino.
Outra atividade incontornável é passear pelo Paul da Praia da Vitória, uma zona húmida, a dois passos da marina, com um ecossistema muito peculiar que surgiu em resultado da reunião de um lençol freático, com um graben (Graben das Lajes) e com um sistema dunar.
Na sobranceira Serra de Santiago localiza-se o Miradouro do Facho onde se encontra o icónico Monumento ao Imaculado Coração de Maria, uma estátua de bronze com cerca de seis metros, instalada sobre um pedestal com 16 metros de altura. O Miradouro, cujo nome advém do fato de, primitivamente, aqui ter sido mantida uma fogueira, acesa todas as noites, com a função de farol de aviso à navegação, oferece uma magnífica vista panorâmica sobre a Praia da Vitória e a Serra do Cume.
E foi para a Serra do Cume que me dirigi, no dia seguinte, com o Sr Hildeberto que me trouxera de táxi do aeroporto. No topo do complexo desmantelado da Serra do Cume localiza-se um miradouro de elevado interesse paisagístico, oferecendo uma das mais belas paisagens da ilha: de um lado, a 542 metros acima do nível do mar, o oceano Atlântico, a baía e cidade da Praia da Vitória conjuntamente com a planície das Lajes e, pelo outro, a 545 metros acima do nível do mar, a grande planície do interior da ilha, com os seus típicos "cerrados", separados por muros de pedra vulcânica e hortênsias.
O complexo desmantelado da serra do Cume constitui-se nos restos de um primitivo vulcão, possivelmente o vulcão primordial da ilha, que apresenta uma vasta caldeira com um diâmetro de aproximadamente 15 quilómetros. A sua erupção formou um maciço de grandes dimensões que ampliou em vários quilómetros os limites da ilha. O interior dessa caldeira é atualmente uma vasta planície ocupada por largas extensões de vegetação e áreas de pastagem.
Esta típica paisagem geométrica de milhares de parcelas de terreno pintadas em tons de verde e delimitadas pelo negro da pedra lávica dos muros que as separam, avistada do Miradouro da Serra do Cume, é popularmente designada por “manta de retalhos“. Trata-se, afinal, da maior área de produção de leite dos Açores. Observam-se ainda pequenos domos vulcânicos, de erupções posteriores, que se alinham ao longo de uma falha vulcânica.
Descemos a Serra do Cume em direção às Piscinas Naturais de Porto Martins e a São Sebastião. A Igreja Matriz de São Sebastião é considerada uma das mais belas e valiosas obras de arte do arquipélago. Foi edificada pelos primeiros povoadores da ilha em 1455 e destaca-se pelos seus portais em estilo manuelino, arcos e abóbadas nervurados e afrescos tardo-medievais. “Império” é a denominação do pequeno templo de tipologia única no panorama arquitetónico nacional onde, entre o domingo de Páscoa e os domingos de Pentecostes ou da Trindade, predominantemente, se venera o Espírito Santo nos Açores. A Ilha Terceira tem 72 Impérios. O Império de São Sebastião foi fundado no século XIX.
“Império” é a denominação do pequeno templo de tipologia única no panorama arquitetónico nacional onde, entre o domingo de Páscoa e os domingos de Pentecostes ou da Trindade, predominantemente, se venera o Espírito Santo nos Açores. A Ilha Terceira tem 72 Impérios.
Depois a Ermida de Maria Vieira, o Farol e a Ponta das Contendas e a Baía da Salga. Esta baía foi palco da famosa Batalha da Salga, contenda travada no dia 25 de julho de 1581, no contexto da Dinastia Filipina. Junto à baía existe um monumento a Brianda Pereira, mulher que conduziu a luta da resistência e que soltou sobre o exército espanhol uma manada de touros bravos, obrigando o exército a retornar às embarcações e a retirar. Durante dois anos, a ilha tornou-se o único território português independente. O pretendente ao trono de Portugal, D. António Prior do Crato, foi aclamado rei aquando do seu desembarque em 1582.
Continuámos o Tour da Costa Leste da Terceira passando por Porto Judeu, Cruz do Canário, Feteira e descendo até à Serretinha e Fajã do Fisher, com vista para os Ilhéus das Cabras.
Finalmente, dirigimo-nos para Angra do Heroísmo onde visitámos o Outeiro da Memória e o Monte Brasil.
A sua cratera está rodeada por quatro elevações: os Picos das Cruzinhas, do Facho, da Vigia da Baleia e do Zimbreiro. No início do séc. XVII, foi quase inteiramente rodeada por uma das maiores fortificações atlânticas da época: a Fortaleza de São João Baptista que, juntamente com o Forte de São Sebastião, defendia a cidade e o porto de Angra dos ataques dos piratas e corsários que tentavam apoderar-se das riquezas trazidas pelas naus da Carreira da Índia.
Associada aos Descobrimentos durante os séculos XV e XVI, Angra do Heroísmo é o exemplo da criação de uma cidade intimamente ligada à sua função marítima, tendo sido porto de escala obrigatória das frotas de África e das Índias. O porto, centrado na prestação de serviços de reabastecimento e reaparelhamento das embarcações carregadas de mercadorias e de valores, impulsionou o seu grande progresso.
Angra foi duas vezes capital de Portugal, respetivamente, no governo de D. António, Prior do Crato (5 de agosto de 1580 a 6 de agosto de 1582) e aquando da instalação da Junta Provisória, em nome de D. Maria II (15 de março de 1830 a 3 de março de 1832), durante a Guerra Civil Portuguesa. Também aqui encontrou refúgio Almeida Garrett, durante a Guerra Peninsular, entre 1809 e 1816, para escapar à segunda invasão francesa, e por aqui passou Charles Darwin, a bordo do "HMS Beagle", em 1836.
Angra foi a primeira cidade portuguesa a ser classificada como Património Mundial da UNESCO, em 1983, precisamente devido à sua importância histórica como porto estratégico e à arquitetura singular e pluricultural da Zona Central da Cidade decorrente do facto de ter sido um ponto crucial nas rotas de navegação entre os séculos XV e XIX, mantendo vestígios desse passado glorioso, mesmo após um terramoto em 1980.
As suas casas coloridas e as ruas estreitas pavimentadas, com cafés, restaurantes, lojas tradicionais e marcos históricos, reforçam o encanto da cidade. Entre os locais mais emblemáticos estão a Praça Velha (com os Paços do Concelho) e a Rua da Sé, merecendo visita a Igreja do Santíssimo Salvador da Sé, ou Sé Catedral de Angra, as Portas do Mar e a Igreja da Misericórdia, o Convento e Igreja de São Francisco, o Convento e Igreja de São Gonçalo, o Museu de Angra e o Jardim Duque da Terceira, o Império dos Remédios, entre outros.
O Palácio dos Capitães Generais é outro monumento histórico a não perder. O edifício foi inicialmente concebido como Colégio da Companhia de Jesus, fundado em 1570 por alvará do rei D. Sebastião de Portugal. Após a expulsão dos jesuítas da Ilha Terceira, em 1760, o Marquês de Pombal cria uma nova organização administrativa, civil e judicial para o Arquipélago, centralizada na cidade de Angra e personificada na figura do Capitão-General, sendo o antigo edifício religioso transformado em residência palaciana. Por duas vezes foi Paço Real: em 1832, no reinado de D. Pedro IV e em 1901, no reinado de D. Carlos I. Hoje é sede da Presidência do Governo Regional dos Açores e possui um percurso museológico visitável.
Museu este com um admirável espólio onde podemos admirar o Bergantim Real, transporte náutico, dos finais do séc. XVIII, para uso dos capitães generais, tendo sido também utilizado no embarque e desembarque de outras personalidades como o rei D. Pedro IV e o Infante D. Luís, e adaptado a Bergantim Real para a visita régia do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia aos Açores, em 1901.
O recente Monumento ao Toiro, escultura com 11 metros de altura instalada em 2011 junto à Praça de Touros, homenageia a cultura tauromáquica da Ilha Terceira e é também um símbolo da resiliência dos terceirenses, na vitória da célebre Batalha da Salga.
No dia seguinte, aluguei um carro por dois dias com o intuito de conhecer o interior da ilha. E conduzi cerca de 12 quilómetros serra acima observando a verdejante paisagem e os campos onde vive o gado bravo. Estacionei junto à Gruta do Natal e à Lagoa do Negro, local onde começa e termina o Trilho dos Mistérios Negros. Este trilho circular desenvolve-se ao longo da Reserva Natural da Serra de Santa Bárbara e dos Mistérios Negros do Parque Natural da Terceira, uma das zonas mais selvagens da ilha, e talvez o seu percurso pedestre mais emblemático.
Já a pé, dirigi-me para a floresta de criptomérias por um caminho de terra batida meio enlameado pois chovera na noite anterior. Um casal com quem me cruzei logo no início voltava para trás, precisamente devido às condições do terreno que pioravam mais adiante. Estava vento e o ar fresco. Fiquei relutante em fazer o percurso sozinha, mas logo sou ultrapassada por um jovem casal e o meu gosto pela aventura reinstalou-se. E fui. Não vi absolutamente mais ninguém durante a minha caminhada.
O Trilho dos Mistérios Negros tem sensivelmente 5 km de extensão (um pouco mais subindo ao Pico Gaspar). É, portanto, um trilho curto mas de dificuldade alta devido ao piso que é extremamente irregular e escorregadio, sobretudo nestes dias de elevada humidade e chão coberto de lama. Eu fi-lo em 2 horas.
Após uma zona de pastagem, o caminho começa a estreitar por entre exemplares de vegetação endémica, como a urze, o cedro-do-mato, a uva-da-serra, o zimbro, o mirtilo, o louro, o azevinho, o tamujo, e passamos por três pequenas lagoas conhecidas como Lagoinhas do Vale Fundo, onde param algumas aves migratórias.
O percurso continua marcado pelos domos traquíticos de cor negra, resultado da erupção vulcânica de 1761. São estas imponentes cúpulas de rocha preta, formadas por acumulações de lavas recentes e que acolhem ainda uma vegetação incipiente, que dão o nome a este trilho – Mistérios Negros. Aqui o terreno é muito acidentado exigindo bastante cuidado.
Mais à frente, no ponto mais alto do percurso, é possível observar o Pico Gordo, o Maciço Central da ilha e o Pico Gaspar. Descemos então ao longo de um bosque de Cedro Japonês (Cryptomeria japonica), conífera exótica introduzida, originária do Japão e China, que prosperou nos Açores onde se tornou uma espécie florestal economicamente vital e que não impacta negativamente a vegetação nativa, como a Laurissilva. E continuamos pela várzea que vai dar à estrada florestal, à direita da qual se encontra o Pico Gaspar, um vulcão de spatter com uma altitude máxima de 645 m. O trilho termina mais adiante, junto à Gruta do Natal.
Comprei bilhete combinado Gruta do Natal + Algar do Carvão (que só abrem à tarde) por 12 euros. Depois de conhecer o Centro de Interpretação que se encontra na recepção e já devidamente equipados com touca e capacete, partimos à descoberta do interior da gruta acompanhados por um guia especializado. Esta gruta é uma formação geológica única constituída por um extenso tubo lávico com cerca de 700 m de comprimento, formado por escoadas incandescentes deixadas pelas erupções fissurais. A designação atual da gruta surgiu após a missa de Natal de 1969, que se tornou já uma tradição, para assinalar a abertura do local à população.
A cavidade apresenta admiráveis estalactites e estalagmites e as paredes são ricas em minerais de ferro e sílica, com algumas camadas de basalto, que lhes conferem cores diversas. A rematar esta beleza, encontra-se no fundo uma lagoa de água pluvial cristalina.
Para aceder a esta experiência subterrânea única, que nos permite entrar no interior de um vulcão, atravessa-se o túnel artificial e descem-se 338 escadas. O ambiente é muito húmido e o chão pode ser escorregadio devido à água que goteja constantemente.
A pouco mais de 2 km do Algar estão localizadas as Furnas do Enxofre, um grande campo fumarólico, com uma área total de aproximadamente 14 hectares, criado pelas várias manifestações de atividade vulcânica e geotérmica provenientes de gases vulcânicos emitidos a altas temperaturas - 95°C à superfície e 130°C a uma profundidade de meio metro. Percorri os passadiços de 1 km em redor da área mais representativa das fumarolas, sendo a visita gratuita e livre. Outros pontos de interesse próximos são o Miradouro da Serra de Santa Bárbara, um dos pontos mais altos da ilha, e a Lagoa das Patas, onde muitos patos passeiam entre os nenúfares.
Próxima fica também a Caldeira de Guilherme Moniz, uma caldeira de colapso implantada no topo do vulcão central com o mesmo nome, com campos de lava, domos, fumarolas e cavidades lávicas com fontes de água cristalina. Uma área de 1218 hectares a uma altitude máxima de 660 metros, em que a paisagem natural coexiste com a paisagem humanizada resultante das atividades agropecuárias, onde o gado bravo, como o toiro de lide, encontra o seu expoente máximo. É possível percorrer vários setores desta área protegida realizando o trilho 'Passagem das Bestas'.
No dia seguinte, regressei de carro à Praia da Vitória, onde fiquei de o entregar. Percorri de novo a Costa Leste e parei junto à Praia da Riviera para admirar o espetacular arco-íris que vi inteirinho enquanto conduzia.