domingo, 27 de dezembro de 2015

O lar acaba, o projeto renasce

Depois de ter visitado Kathmandu por uns dias com a Jyoti (conforme referi no post anterior), estava então de regresso a Pokhara no início de setembro de 2015. Não via os miúdos do lar "New Vision" desde agosto do ano passado, embora sempre fosse recebendo notícias. E encontrei os miúdos todos bem, felizmente. O susto do calamitoso terramoto, que ocorreu em abril, e das sucessivas réplicas já passara e a vida no lar das crianças regressou à normalidade.
E foi hora de distribuir por eles as prendas que trouxe comigo. Primeiro as doces, as amêndoas da mãe Odete. Em seguida, a roupa e os sabonetes gentilmente oferecidos pelo meu ex-aluno Bruno Vaz e pela sua mãe, Carla Sofia, que também tiveram um papel importante na angariação de fundos através de calendários de bolso, o que já foi referido aqui. Também a Jyoti ganhou deles uma linda pregadeira personalizada feita com muito carinho. 
No momento das oferendas os miúdos observam e escutam tudo com muita atenção. Logo experimentaram a nova roupa e os sabonetes, ricamente decorados e com as suas próprias fotos, despertaram imensa curiosidade. E perante a alegria destes presentes foi logo hora de fazer a festa. Dançar, dançar.
Apesar da tenra idade estas crianças já passaram por muito sofrimento na vida. Algumas são completamente órfãs e outras, a maioria, oriundas de família monoparental com poucos recursos. Foram entregues ao lar e, em particular, à Jyoti por algum familiar que a conhecia ou tinha ouvido falar dela e nela confiaram. Recordo que a Jyoti pertence a uma minoria de fé cristã existente no país e assume isto como a sua missão na vida. Ela própria foi abandonada pelo marido quando estava grávida da primeira filha. E é evidente a felicidade destas crianças junto dessa que desempenha, para elas, o papel de sua mãe, sendo frequentes as manifestações de afeto entre todos como se duma verdadeira família se tratasse.
Depois da distribuição dos presentes, levei papel, canetas e lápis de cor, borrachas e afias (material cedido pela D. Idália da EBFC) para pintar os nomes, em gesto de agradecimento, das pessoas minhas conhecidas que fizeram donativos logo antes de eu viajar para o Nepal: a Sophie Vieille, que conheci em Trieste em 2008, enviou 50€; a Margarida Morgado, que conheci em Timor-Leste em 2011 e reencontrei no Nepal em 2014, ofereceu 100€; e o Adriano e a Laura que, junto dos seus familiares e amigos, conseguiram recolher a fantástica quantia de 1020€. Até agora nunca nos conhecemos pessoalmente mas estamos em contacto desde que eles estiveram no Nepal no final de 2013.
O total angariado através destes donativos, dos restantes calendários de bolso (obrigada à minha mãe, à colega Olga Martins, à amiga São Bento e ao jovem Bernardo Vieira, da Batalha), e ainda através de feiras e exposições de pintura em que participei (obrigada à amiga Maria José Botelho, aos que visitaram a minha exposição na Batalha e, em especial, à amiga Cecília Heim que dela tomou conta), perfazia um total de cerca de 1400€. Esta verba, que inicialmente se previa ser destinada também a vítimas do sismo ou dos deslizamentos de terra, ficou totalmente reservada para o lar que passava por contratempos sobre os quais a Jyoti me foi pondo ao corrente desde que nos encontrámos em Kathmandu. Factos estes que me surpreenderam bastante.
Eu sabia que, ultimamente, o orfanato estava a ser ajudado por um grupo de espanhóis e julgava que tudo corria bem. Esse apoio regular, que cobria as principais despesas com as crianças, fora para mim um alívio e permitia-me, assim, fazer um contributo mensal menor para o lar ao mesmo tempo que ficava livre para prestar auxílio a outros casos de carência, neste país que conheço há dez anos. O grupo pagava a renda da casa, havia comida suficiente e os miúdos frequentavam todos a escola, perto do lar.
Acontece que este grupo, que formara a recente associação intitulada "Balabalika Pokhara", fazia chegar a ajuda ao lar em forma de géneros (bens alimentares) através de um coordenador, residente em Pokhara, que já tinha assento no comité de direção do lar, sendo a Jyoti completamente relegada para segundo plano em qualquer matéria. Como principal patrocinador do lar, o grupo espanhol reclamava agora o direito de controlar todos assuntos respeitantes às crianças e nada mais conveniente do que correr com a Jyoti que se começava a opor à sua presença. Ao que me fui apercebendo, esta perdia efetivo controlo sobre a direção da instituição que ela própria fundara e da qual ainda era presidente.
Através desse intermediário nepalês, o grupo pagava também às duas funcionárias, a cozinheira e a "explicadora", que igualmente ignoravam qualquer ordem da Jyoti. Estranhamente, era sempre a Jyoti que eu encontrava a trabalhar na casa quando lá chegava de manhã. Caso para dizer "patrão fora dia santo na loja". Também o quintal estava completamente descuidado não tendo havido qualquer manutenção da horta que fora arranjada com tanto carinho pela amiga Margarida Morgado (Maguy), no ano passado.
Enquanto eu e a Jyoti estivéramos em Kathmandu, o presidente dessa associação espanhola recém-criada, o Rafa (que conheci pessoalmente no verão de 2014) e que ainda se encontrava desta vez em Pokhara, convocou uma reunião com todos os elementos da direção do lar, à revelia da Jyoti, com o intuito de a afastar do mesmo. Tanto os vários elementos do grupo espanhol como voluntários do mesmo país marcavam presença diária no orfanato, em grupos de cinco ou seis pessoas, e levavam os miúdos para onde bem queriam trazendo-nas às horas que queriam. Não davam qualquer satisfação à Jyoti, diziam-lhe apenas que estavam ali para brincar e se divertirem com as crianças. Estas chegavam muitas vezes já noite e, por vezes, totalmente encharcadas por regressarem à chuva. O desespero da Jyoti, que fui acompanhando, era crescente.
Eu e a Jyoti saíamos quase diariamente para tratar de variados assuntos relacionados com o lar e dos quais os espanhóis não queriam saber. Era também evidente que a Jyoti não gostava de estar em casa na sua presença. Dizia-se saturada pois eram pessoas que mal comunicavam com ela e com quem não mantinha boas relações. Dirigiam-se a ela em tom autoritário, aos gritos até, coisa que ela, e qualquer nepalês em geral, nem entende. As relações entre este povo definem-se pela cordialidade. Ela queria deixar de trabalhar com eles, sentia-se oprimida e desrespeitada, e preferia que se fossem embora para sempre. De certo arranjaria outras ajudas para o lar assentes numa relação de confiança e amizade.
Logo desde que cheguei a Pokhara desloquei-me várias vezes ao hospital com a Jyoti por causa do Rajan que se encontrava doente e apresentava uns papos na cara. No espaço de quinze dias levámo-lo quatro vezes ao médico. O seu estado clínico implica vistorias regulares e tem que fazer análises ao sangue, o que para ele já é uma rotina. Nem sequer se queixa quando lhe espetam a seringa no seu braço fininho. Recorrendo à verba angariada, assegurei sempre as despesas dos exames e dos medicamentos quando não são comparticipados para crianças com o vírus da sida. Bem como, claro, da alimentação e de todas as deslocações, em transportes públicos, ao médico.
Depois foi a vez da Aarati. A Jyoti reparou, de manhã, que ela vomitava e expelia sangue. Só então lhe disseram que a miúda caíra no dia anterior e batera com a cabeça no chão. Telefonou-me, aflita, e levámos a Aarati ao hospital onde foi observada e fez exames à cabeça. Tinha uma pequena fratura e ficou logo internada, a soro e sob medicação.
Durante a semana em que esteve internada, ficou sempre alguém conhecido com ela, incluindo a Khusi, a sobrinha da Jyoti, que lá passou algumas noites fazendo-lhe companhia. A princípio víamos uma Aarati muda calada, o que levantava alguma preocupação. Mas passados quatro dias reencontrámos a criança bem disposta, sorridente e faladora que ela é. Talvez tivesse contribuído para isso o facto de termos levado a vê-la algumas das crianças mais novas do lar. 
Por vezes a Jyoti ausentava-se para as suas reuniões e compromissos e eu ficava no hospital com os catraios. Em plena recuperação e feliz com a visita da pequenada, a Aarati já não parava quieta no quarto e era vê-los em correrias pelos corredores do edifício. No final, claro, mais medicamentos e contas para pagar...
Viemos posteriormente a saber que foi um dos espanhóis que a deixou cair no chão quando brincava com ela ao colo. Desvalorizaram a situação, não disseram nada à Jyoti e nem sequer a levaram ao hospital, mesmo depois de a verem vomitar no dia em que caiu.
Entretanto fazíamos também visitas ao hospital onde estava internada a mãe da Rupa, antes e depois da operação a que foi submetida. Conheci a mãe da Rupa (e da Ruth, da Sanghita e do Ram) em 2013 quando fui com a Jyoti ao distrito de Gorkha e o post que escrevi na altura pode ser visto aqui. O tal grupo espanhol decidiu trazer para Pokhara a senhora que estava paralisada há 14 anos e patrocinar a sua operação à coluna para que ela recuperasse alguns movimentos. O ex-marido tomava conta dela no hospital há mais de vinte dias e acabei por os ajudar financeiramente a comprar comida, roupa e outros bens que diziam fazer-lhes falta, apesar de eu achar que alguém, intermediário, estaria a receber para o efeito.
Nos finais de setembro, a senhora teve alta e ficou em casa de familiares que moram em Pokhara, onde a costumávamos visitar. Não se notavam melhorias nem diferenças após a operação e ela lamentava-se com muitas dores tendo também febres altas. Encontrámos, algumas vezes, os filhos que viviam com ela, Sanghita e Ram, também a arder em febre e a queixarem-se com fome. O pai tinha regressado a Gorkha para junto da outra família que não via há já bastante tempo.
Dias depois os espanhóis colocaram a senhora num centro de reabilitação e pagavam a uma empregada para tomar conta dela. Eu e a Jyoti fomos com os seus quatro filhos visitá-la ali uma vez. Encontrámo-la de novo com muitas dores e completamente desmotivada. Não durou muito mais. Faleceu. Quanto a mim, não só da operação como de profunda tristeza!
E enquanto tudo isto decorria, eu e a Jyoti andávamos também numa azáfama constante, entre Lakeside e a cidade, tratando da papelada relativa ao lar e do tal "renew" anual obrigatório (Renewed Registration Certificate) que comparo ao nosso IRS. Era preciso andar sempre de um lado para o outro entre os vários serviços, o contabilista e o banco, onde fiz vários depósitos na conta da instituição. A crise do petróleo devido ao bloqueio da fronteira com a Índia dificultava as deslocações que fazíamos sempre em transportes públicos e, muitas vezes, a pé pois o tempo de espera era longo e os transportes chegavam já superlotados. Foram muitos dias nisto e muitas horas de espera em inúmeras filas. E muitas despesas também que ficaram por conta dos donativos e verbas angariadas.
Não era a primeira vez que tratava destes documentos com a Jyoti, só que o ano passado fiquei apenas um mês e foi ela que depois acabou de tratar do assunto. Este ano acompanhei todo o processo, que se prolongou por mais de dois meses, uma vez que entretanto também se meteram as festas do Dashain fazendo com que muitos organismos fechassem. E, desta vez, o caso estava complicado obrigando-nos a ir ao contabilista várias vezes. 
Basicamente, no gabinete de contabilidade, de renome e confiança, não entendiam como de, um ano para o outro, a Jyoti tivesse faturas de despesas quase a triplicar e tão poucos depósitos na conta da sua instituição. Ou seja, os fundos angariados pela instituição não cobriam de forma alguma as despesas que ela apresentava e algo estava muito errado! Foi um imbróglio difícil de resolver mas que, para mim, foi fácil de entender: os espanhóis mandavam o dinheiro para o tal intermediário e a Jyoti, praticamente, só recebia da parte deles ajuda em géneros. O intermediário é que lhe entregava as faturas, posteriormente. Ela nem sequer conseguia controlar se efetivamente elas se referiam apenas ao que lhe fora entregue, até porque, como se revelou mais tarde, muitas coisas eram desviadas pelas próprias empregadas sem ela dar conta. Enfim, tudo isto se revelava já "muita areia para o camião" da Jyoti...
Entretanto os espanhóis, ou melhor, o grupo "Balabalika Pokhara" recém-formado, começava a apertar o cerco à Jyoti para que ela abandonasse o lar e as crianças. As crianças eram propriedade sua já que há um ano e picos que eram o principal patrocinador do lar! O presidente dessa associação enviava de Espanha "fiéis colaboradores" ao Nepal para levarem a cabo esta missão. A missão de correr com a Jyoti e com a sua sobrinha, a Khusi, que ela trouxera para a ajudar nas lides do lar e que agora fazia uns biscates por fora para arranjar dinheiro para os seus estudos, uma vez que esses espanhóis preferiam pagar a outras pessoas para trabalhar com as crianças. Já fazia tudo parte do plano de controle do mesmo! Enviavam documentos por eles redigidos e pressionavam as pessoas do comité a assiná-los, sabe-se lá a que custo! Evidentemente que a Jyoti nunca aceitou ser afastada do seu próprio lar nem assinou documento algum, o que deverá ter sido para eles uma surpresa pois ela recusou o dinheiro que lhe foi oferecido e que, seguramente quanto a eles, serve para comprar tudo, quanto mais uma mulher nepalesa com filhos a seu cargo...
Foram inúmeras reuniões tentando resolver o assunto, mas os elementos do comité do lar já se revelavam literalmente comprados. Foram conversas com entendidos, muitos encontros com o secretário principal e, por fim, com um advogado que desde logo apoiou a Jyoti pois ela apresentou argumentos válidos e a documentação toda em ordem. Por que razão haveria ela de ser afastada do lar que ela própria criara e das crianças de que ela própria cuidava, algumas há mais de seis anos? Quem eram estes espanhóis para ter supremacia sobre ela se ainda por cima ela tinha a possibilidade de arranjar outras ajudas para o lar que não a deles?...
Em finais de outubro a documentação do "renew" estava quase toda pronta e eu já tinha gasto nisto mais de 400€. Faltava o aval da última instituição social, o “District Child Welfare Board”, que pôs um entrave que nunca julguei possível, uma afronta até, apesar da Jyoti já me ter alertado para o assunto. E claro, por essa instituição, eu não deveria saber disso nunca! A aprovação da renovação (renew) estava a ser confinada a lares geridos exclusivamente por hindus e todos os obstáculos estavam a ser colocados aos lares em que houvesse práticas cristãs, sendo o objetivo o fecho de muitos destes lares. Uma ideia que vem de fundamentalistas hindus.
Ora a Jyoti é cristã, já vem de família. Ela rege as crianças de que cuida por princípios cristãos. No documento que lhe era agora exigido para completar o "renew" ela teria que renunciar a todas as práticas cristãs dentro do lar onde, portanto, a Bíblia não poderia existir, as crianças não poderiam rezar nem poderiam nunca ir à missa. Ela que sabe que foram os cristãos estrangeiros os primeiros a fundar lares para crianças necessitadas no Nepal! Ironicamente, esta instituição viria a encontrar no grupo espanhol o aliado ideal para levar a cabo o seu intento.
E enquanto se dava este impasse, eu ia, aos sábados, à missa com a Jyoti... A igreja fica numa encosta a caminho de Sarangkot e ainda era uma bela caminhada até lá depois de apanharmos pelo menos dois autocarros. Percurso por caminhos e carreiros em que nos cruzamos com vacas, búfalos, cabras e macacos. É uma zona de selva com alguns campos de cultivo, meia dúzia de casas e paisagens deslumbrantes sobre o vale de Pokhara. Depois da missa visitávamos pessoas que por ali moram, algumas recentemente, desviadas das suas aldeias de origem pelo terramoto. Pessoas que nos recebem nas suas modestas casas com chá acompanhado com pipocas.
E eram muitas idas ao mercado e às lojas, pois desde agosto que o grupo espanhol não mais ajudava o lar e as contas para pagar acumulavam-se. Mas visitar os mercados locais cheios de cor, cheiros, sons e movimento também é sempre um prazer, um regalo para todos os sentidos.
Entretanto já tinha chegado ao Nepal a Nona, a espanhola que conheci há quatro anos e que se demarcou do tal grupo de conterrâneos por discordar completamente do modo como eles estavam a lidar com a situação e em especial com a Jyoti, como se fossem verdadeiros colonizadores do lar que assumem como seu e como um "reino espanhol", levando a cabo os seus intentos pelo poder do dinheiro.
E chegou também a portuguesa Sofia que, durante mais de um mês, de outubro a novembro, foi uma ajuda preciosa no lar cuidando das crianças, ora ajudando nos trabalhos de casa ora na sua higiene pessoal e tudo o mais que preciso fosse. Uma jovem dócil, de mente aberta, que facilmente se adaptou a esta nova cultura revelando-se sensível aos seus problemas. Que os miúdos logo adoraram e que viria a presenciar todos os problemas que assolaram o lar.
Final de outubro foi época de Dashain, a festividade mais popular e mais aguardada pelos nepaleses, tempo de reunião de família, de deslocações à terra natal e de férias escolares. Alguns miúdos do lar deslocaram-se às suas aldeias, algumas longínquas, para estar com a família. Eu própria e a Jyoti os entregámos a alguns familiares que os vieram buscar. Ausentaram-se do lar o Lajras, o Raju, o Suraj, a Bindi, os dois Santosh (o small e o big), o Rajan, a Aarati e o Rajeesh. 
Para além da Shanti que, juntamente com a Sunita, minha amiga e sua tia, levei à aldeia. Uma viagem longa e atribulada, em autocarro, jipe e a pé, percorrendo caminhos íngremes e sinuosos, de terra, cascalho e lama e atravessando rios de leitos pedregosos, sem pontes para veículos.
A pequena aldeia, num outro distrito, aninha-se numa encosta entre campos de cultivo, com magníficas vistas para os montes adjacentes e os cumes brancos dos Himalaias. A Shanti reencontrou-se com Susma, a sua irmã de sete anos, e a avó que nos preparou uma bela refeição: dal bhat! Depois apareceu também o pai das miúdas que deambula pelas redondezas sem nada fazer. Já teria abandonado o hábito de fumar mas não de beber. Depois de uma noite na aldeia, eu e a Sunita regressámos a Pokhara. A Shanti ficou por lá as férias todas, um mês. Fiquei receosa devido aos hábitos do pai e implorei à avó que me telefonasse se algo se passasse. Parece que correu tudo bem enquanto a Shanti lá esteve. Por sua vez, o senhor viria a falecer no final de 2015, tendo eu acabado de regressar a Portugal.
Ou seja, para além da sobrinha e das duas filhas da Jyoti, ficaram no lar o pequeno Parash, que não tem pai e cuja mãe foi trabalhar para um país árabe, e a pequena Rupa cuja mãe falecera recentemente. Estavam de visita ao lar os irmãos desta, ou seja, a Ruth, a Sanghita e o Ram. Estava também o pequeno Santosh que quisera interromper mais cedo as férias junto da mãe e voltara para o lar. O dia 8 de novembro parecia um como tantos outros. Eu e a Jyoti saíramos para tentar resolver assuntos do lar, enquanto a Sofia ficou com as crianças em casa. À vinda comprei fatiotas para as mais crescidas que não tinham recebido vestuário antes. Estavam felizes, a experimentar roupas novas e a rodopiar em saias compridas. Até que "eles" começaram a chegar...
Reconheci algumas pessoas de instituições sociais e governamentais onde ia com a Jyoti, mas ao início não suspeitei de nada, pensei que era uma visita de rotina. Mas eles chegavam cada vez mais, ultrapassou as vinte pessoas. Apercebi-me depois que, para além de representantes de várias instituições, havia polícias à paisana e jornalistas que vinham cobrir o "grande acontecimento". As crianças já se haviam barricado no quarto e ouviam-se os seus gemidos. Eu e a Jyoti éramos pressionadas para os tirar de lá sob ameaças, o que não fizemos. Pois se eu nem entendia porque estavam ali... Foi um aparato de mais de duas horas, ao final da tarde. As crianças, já fora do quarto, debatiam-se com quem agora as puxava à força e agarravam-se a nós, profundamente desesperadas. Eram choros, gritos e protestos. Uma cena terrível, arrepiante e violenta que durou até noite, altura em que as levaram a todas, exceto a filha mais velha da Jyoti, a Alisha, que se fartou de protestar com gritos descontrolados.
Levaram as nove crianças e jovens que lá estavam, incluindo a filha mais nova e a sobrinha da Jyoti. A Ruth e os irmãos estavam ali de férias mas também foram levados na "molhada". Era o fim do lar "New Vision"! Isto apesar de só estarem a levar três das crianças que efetivamente pertenciam ao lar: a Rupa, o Parash e o pequeno Santosh. Um dia traumatizante até para os adultos que a tudo isto assistimos, quanto mais para as crianças!
Ora o presidente da tal associação espanhola "Balabalika Pokhara", estava de regresso ao Nepal, por um curto período de tempo, nem dois meses depois de ter saído do país. É evidente que veio expressamente para este fim: fechar este lar. Não podendo ser seu, não é de mais ninguém. Se não é a bem, é a mal. Nem de propósito, dei de caras com ele e o seu colaborador nepalês, dono de hotéis, carros e casas, quando, depois de deixar a Jyoti, nesse mesmo dia, me dirigia ao hotel para jantar. Não me viram, vinham a conversar e a rir, todos satisfeitos. Interpelei-os para perguntar porque fizeram aquilo e o Rafa comenta com o amigo: "Não lhe dês explicações"... Eles que se pretendem pautar por um grupo "às claras", sem segredos. Para mim não restam dúvidas sobre os responsáveis pelo encerramento do lar. Como o conseguiram exatamente, não sei. E lamento profundamente que gente assim se assuma como "salvador das crianças" e empreenda uma disputa para "bem" das mesmas. Quando, realmente, se está para ajudar, não se fazem guerras, encontram-se soluções. Assim, quem se trama são as crianças.
As crianças foram levadas à força para outro lar em Pokhara, fugiram de lá na madrugada seguinte e apareceram todas em casa da Jyoti às 6h30 da manhã, incluindo a Rupa, a mais nova, de 3 anos. Fecharam-se outra vez no quarto até aparecerem três pessoas, uma delas o Rafa, que as levaram novamente sob ameaça da polícia. Colocaram-nas então num lar mais distante, aquele que já era frequentado pela Ruth que, por azar, estava no NVCH de férias naquele dia. Foi a segunda vez que a Ruth foi levada à força do "Everest/New Vision". Por alguma razão, os seus progressos na escola são tão lentos... Entretanto o Rajeesh fora apanhado na rua e também foi levado para lá. Os miúdos tornaram a fugir todos desse lar, percorrendo os cinco quilómetros que distam até Lakeside, e novamente foram recambiados para o mesmo sítio antes de terem tempo de chegar ao "New Vision". Passados uns dias fomos até lá visitá-los. E, claro, eles pediam para vir embora e para falar com a "Jyoti momie" ao telefone.
Dias depois fogem a Sanghita e o Ram que, para não serem apanhados novamente, se embrenharam pela selva e chegam todos arranhados a casa. Depois foge o Rajeesh que reaparece em casa da Jyoti preocupado com a escola, ele que era uma criança de rua até há bem pouco tempo. Graças à influência da Jyoti, tinha mudado os seus hábitos. A Jyoti mandava-os então para junto de familiares, nesta fase não havia outro remédio por mais que custasse vê-los sofrer.
Decorria ainda o período de festividades, de celebração com a família, que vai do Dashain ao Tihar. As outras crianças que não estavam no lar, estavam ainda a passar as férias escolares com familiares em terras mais distantes. Ao saberem do que se passava, choravam ao telefone com a Jyoti e não queriam voltar a Pokhara. Os familiares também não os queriam noutros lares.
Durante os dias que se seguiram, eu, a Jyoti e, muitas vezes, o secretário, andámos num rodopio empreendendo diligências junto de organismos oficiais, com a ajuda do advogado, para compreender a origem deste ato brutal que levou ao encerramento do lar. Tudo teve início na queixa apresentada ao “District Child Welfare Board” pelo grupo espanhol “Balabalika Pokhara” que, sendo ultimamente o principal patrocinador do lar, se julgou certamente no direito de usar todos os meios para usurpar o mesmo. Uma atitude de total desconsideração, vingativa e prepotente, para com a Jyoti que, ao aperceber-se dos seus intentos, os tentou afastar do lar. A queixa contém mentiras engendradas e redunda num triste ato de malvadez que, quanto a mim, só deixa mal quem teve a coragem de o perpetrar.
Investigado o lar, vieram a confirmar-se irregularidades e situações contraproducentes que, a bem ver, foram provocadas pelos próprios espanhóis. Ou seja:
- O lar não tinha uma situação financeira favorável, pois todos os donativos do principal patrocinador não iam para a conta bancária da instituição mas para uma conta particular;
- Havia conflitos internos na organização, também é verdade desde que os espanhóis causaram rutura entre os seus membros procurando aliciá-los a favor da saída da Jyoti;
- O lar não tinha “um ambiente amigável para as crianças”, pois as funcionárias do lar, pagas pelos espanhóis, batiam nelas e a Jyoti já tinha apresentado queixa na polícia mais que uma vez; além disso, havia práticas "desviantes" dentro do mesmo, como fumar e consumo de álcool, por parte de uma funcionária e dos visitantes espanhóis;
- Não havia cumprimento rígido de regras nem de horários, pois a Jyoti perdera o controle da sua organização e todos faziam o que queriam, levando as crianças para onde queriam, sem lhe dar qualquer satisfação;
- Dizer que havia estrangeiros a permanecer no lar (o que atualmente não é permitido no Nepal), referindo-se a mim e à Sofia, é prova de que esta queixa se baseou em muitas calúnias;
- Dizer que o lar não tinha licença, é preciso descaramento! Toda a documentação estava em ordem e o "renew" deste ano quase tratado (não fossem as práticas cristãs) e pago!!! Tínhamos todas as faturas.
Por tudo isto, a Jyoti  não apresentava perfil condigno para presidente da organização. Além disso, apercebi-me que ela carregava também o estigma negativo impresso pelo seu ex-marido ao anterior "Everest Children Home" que fechara por falta de fundos e circunstâncias irregulares. Não lhe adiantou muito registar um novo lar com outro nome...
A imprensa local publicara ainda que algumas das crianças do lar estavam desaparecidas. Ora essas crianças estavam de férias e várias não queriam voltar da aldeia por causa de toda esta situação. A Jyoti foi instigada a apresentá-las todas às autoridades competentes, não fosse ela ser acusada de tráfico de menores, incorrendo em prisão. Desprezível e injusto o que fizeram para com esta mulher, pessoas que no início apareceram no lar para a "ajudar". Ela que gosta de prestar ajuda a crianças carenciadas, fazendo disso a sua missão na vida! Se ela não fosse tão simples não teriam brincado com ela assim...
Começámos pela Aarati que estava mais perto, em casa de uma irmã, casada e com um bebé. Quando a Jyoti não podia ir, até porque estava lesionada de um pé, era eu que encaminhava os familiares àquele organismo social onde tinham que apresentar as crianças e assinar documentos.
Também a Nona ajudou a conduzir para lá o Rajan que esteve este tempo em casa com o pai e a nova companheira, para os lados de Sarangkot. Depois foi a vez do big Santosh que veio do distrito de Gorkha para junto de uma irmã e a Shanti que veio do distrito de Parbat para junto da Sunita, sua tia. Entretanto as aulas recomeçaram e, ficando em casa destes familiares que moram em ou perto de Pokhara, estas crianças puderam retomar as aulas na escola Shining Star que já frequentavam.
 
Faltavam as quatro crianças que estavam nas aldeias mais distantes, no sul do país: o Lajras, o Raju, o Suraj e a Bindi. Como os familiares não tinham condições financeiras para a deslocação, a Jyoti ausentou-se dois dias para os ir buscar. Claro que lhe prestei ajuda financeira para tal. O Lajras apareceu com o avô; o Raju com o irmão mais velho de dezassete anos que é o "homem da casa" trabalhando para sustentar a mãe, doente, e os irmãos; e a Bindi e o Suraj vieram com a avó deste. A Bindi fora adotada por uma filha da senhora, tia do Suraj, que se ausentou faz tempo para outras paragens, tal como a outra filha.
Nenhum destes familiares queria as crianças noutro lar que não o da Jyoti, já extinto, e portanto voltaram, depois de assinados os documentos, para as aldeias, uma vez que não tinham qualquer outro parente em Pokhara que ficasse com a sua guarda. O seu ano escolar ficou, assim, comprometido e havia que planear, rapidamente, uma solução para todas estas situações pois as famílias são de parcos recursos.
Fiz contas e estipulei dar a cada família de acolhimento das crianças três mil rupias por mês para as ajudar nos seus estudos. Sem estar preparada e apanhada de surpresa com todos estes acontecimentos que se sucediam em catadupa, foi aquilo com que consegui comprometer-me para auxiliar mensalmente 10 pessoas, partindo do princípio que poderia ter que contar apenas com o fruto do meu trabalho, e do facto de estar, até final do ano, em licença sem vencimento... 
Para além do mais, a Jyoti tinha que mudar de casa pois foi despejada daquela onde funcionava o lar. Nem, aliás, precisaria agora de uma casa tão grande cujo valor da renda os espanhóis inflacionaram. Eu e a Jyoti andáramos também, portanto, numa azáfama à procura de nova casa o que, na área de Lakeside, se vai tornando difícil. Foram muitos quilómetros batalhados a andar, a coitada magoada do pé... Quando, por fim, encontrámos uma que reunia as condições, vieram familiares da Jyoti para ajudar na mudança, incluindo um sobrinho e os pais dela.
 E a casa onde até há pouco funcionara o "Everest Children Home" primeiro e o "New Vision Children's Home" depois, ia-se esvaziando a olhos vistos.
Contratámos uma carrinha e depois um trator para proceder à mudança.
E a tralha foi-se acumulando na nova casa, de rés-do-chão.
Foram-se acumulando também as contas para pagar e que, claro, sobravam para mim. E tive logo que adiantar dois meses de renda. Felizmente, ia contando com os donativos e aqui agradeço uma vez mais a todos aqueles que me ajudaram a fazer face a todas estas despesas que me surgiram de forma tão repentina e inesperada, durante esta minha passagem pelo Nepal.
A Sofia Ribeiro passara quase dois meses no Nepal e já tinha ido embora, não sem antes deixar o seu contributo, juntamente com familiares e amigos, de 100€. A Marlene, que conheci no lar das crianças no verão de 2012, e que o visitou pela segunda vez em janeiro deste ano, enviou 150€. A minha prima Céu Lopes, que não vejo há tantos anos, quis também ela contribuir com 50€. O Ali, apesar de estar tão longe, na Costa Rica, nunca se esquece destes miúdos e mandou 50€. A Carla Loretz, enviou 217€ da Suíça através do "Cook For It", grupo que já anteriormente ajudara a pagar a renda da casa onde funcionava o lar. E o João Miguel, filho da minha ex-colega e amiga Adelaide Silva, quis comparticipar com 180€ para ajudar naquilo que fosse preciso. Bem-haja do coração a todos vós!
E eu passei a ter outras rotinas pois a Shanti passou a ficar comigo no hotel. Era levantar para preparar o pequeno-almoço e ir levá-la à escola. E depois era ir buscá-la, à tarde, ao final das aulas. E dar-lhe banho, vesti-la, calçá-la, penteá-la, preparar o lanche, a roupa, o uniforme...
As crianças estavam felizes por voltar à escola e aparentavam estar bem, apesar da reviravolta que se verificou nas suas vidas, a meio de um ano letivo.
Só a Rupa não conseguia disfarçar. Era profunda tristeza. A mãe biológica morrera mas o desgosto foi quando lhe tiraram aquela que considerava a sua mãe. O facto de estar agora com familiares afastados não lhe trouxe ânimo algum e foi assim que a vi enquanto estive no Nepal.
Já a Shanti estava cada vez mais tagarela, a evoluir no seu inglês. Acompanhava-me para todo o lado, não me largava. Nem eu a ela... Depois de fazermos os deveres, eram passeios pelo lago e visitas às minhas amiguinhas que lhe apresentei e que ela adorou conhecer.
Ainda passámos pelo hospital dos olhos para ver como estava a sua visão mas nada de preocupante. E andávamos, à noite, a caminhar por Lakeside entre um hotel e outro, ora para jantar ora para dormir. O cão da Jyoti, o "Unique", que também parecia afetado com o desaparecimento das crianças, seguia-nos para todo o lado. Chegava a dormir à porta do nosso quarto de hotel.
E o meu quarto virou um depósito de brinquedos, um recreio, uma alegria!
Logicamente foi a despedida mais difícil. E claro que, procurando eu padrinhos e madrinhas para as crianças, a Shanti fica para mim!...
Entretanto a nova casa da Jyoti onde, para já, fica a viver com as suas duas filhas, Alisha e Jasmine, bem como com a sobrinha, a Khusi, ia tomando cada vez mais forma, mais arrumada e organizada, tornando-se, finalmente, habitável. Só a luz, essa, já é hábito faltar muitas horas por dia e as crianças estão mais que acostumadas a fazer os trabalhos à luz da vela. No Nepal quando água, luz e gás não faltam ao mesmo tempo já é bom... E esta altura de bloqueio das fronteiras, com a consequente escassez de gás e petróleo, não foi fácil.
Até que chegou a hora da minha despedida, daquele aperto no coração que sempre sinto quando daqui me vou. Dentro dos possíveis, fiz o que pude, prestando também algum auxílio a outras crianças que, na sua maioria, conheço há cinco anos, ora fornecendo-lhes algum material escolar, ora participando no pagamento das propinas da escola. O que fica neste post, já bem longo, é uma amostra das fotos e dos comprovativos que tenho desta minha passagem de mais de três meses pelo Nepal. Agradeço também à Brenda Nolden, que conheci em 2010 na Malásia, e que, mais uma vez, patrocinou o ano escolar do Manish Nepali.
Na ajuda também não foram esquecidos os pintores que são parte integrante deste projeto que, agora mais do que nunca, aí está, em força! São, para já, 10 pessoas a quem tentamos prestar uma ajuda mensal, para além do pagamento da renda da casa onde vive a Jyoti que, provavelmente, e depois da "poeira assentar", acolherá outras crianças necessitadas.

Obrigada a todos os que me ajudaram a ajudar! Namastê!

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