Viagem realizada no início do mês de março. Já havia estado de passagem, há vários anos, nesta localidade antiga e pitoresca, de ruelas tortuosas, delimitada por uma muralha medieval. Desta vez visitei com mais tempo e pude contemplar as fantásticas vistas panorâmicas com a serra ao redor coberta de neve.
Segóvia é uma cidade situada no Planalto Interior da Península Ibérica, na região de Castela e Leão, no centro da Espanha. As suas casas aninham-se numa curva do rio Eresma e os séculos de ocupação resultaram num abundante legado arquitetónico, incluindo muralhas medievais, igrejas românicas, um bairro judeu, casas senhoriais, um antigo palácio real e uma catedral gótica.
A cidade tem a maior concentração de ruas pedonais e igrejas romanescas de toda a Europa, sendo famosa pelos seus edifícios históricos, incluindo três pontos turísticos principais: o Aqueduto romano, a Catedral e o Alcázar. O centro de Segóvia foi declarado Património Mundial da UNESCO em 1985.
Na Praça Oriental, perto do aqueduto, deparamo-nos com uma réplica em bronze da Loba Capitolina, famosa escultura romana que representa a loba amamentando Rómulo e Remo, os fundadores míticos de Roma, oferecida por esta cidade italiana em 1974 para comemorar o 2000º (dois milésimo) aniversário do aqueduto, simbolizando a herança romana na região.
O Aqueduto é o grande símbolo da cidade e um dos mais espetaculares legados que o Império Romano deixou em Espanha, com mais de 160 arcos e uma extensão de mais de 17 quilómetros. A parte do Aqueduto da Plaza del Azoguejo é a mais bem conservada, mas este monumento continua em pé e prolonga-se até à serra.
Uma das melhores vistas do Aqueduto é do alto das escadas do Postigo del Consuelo. Transportava a água desde La Acebeda até ao Alcázar, desafiando a gravidade, pois apenas o equilíbrio de forças mantém de pé esta edificação, sem qualquer tipo de argamassa.
A icónica Plaza Mayor serve de centro cultural e social de Segóvia, sendo o cerne da vida pública já desde os tempos medievais, quando era utilizada para mercados, cerimónias religiosas e festividades reais. Atualmente continua a ser uma área bastante movimentada e animada pelas esplanadas dos restaurantes nas suas arcadas. À volta da praça estão vários edifícios notáveis, como o do Ayuntamiento ou o do Teatro Juan Bravo, construído em 1917, cada um com estilos arquitetónicos únicos que refletem diferentes épocas, desde o período românico ao renascentista.
Dominando um dos lados da praça, ergue-se a magnífica Catedral de Segóvia, dedicada a Nossa Senhora da Assunção e a São Frutoso. A sua construção iniciou-se em 1525 e foi a última catedral gótica construída em Espanha. É admirada pela elegante fachada, pináculos imponentes, vitrais do século XVI e pelo Retábulo Maior, da autoria de Sabatini. O abside deste templo marca a fronteira entre a Plaza Mayor e o Bairro Judeu.
Na rua da Judiaria Velha visitámos a Antiga Sinagoga Mayor, um dos marcos históricos mais significativos da presença sefardita em Espanha, construída no séc. XIV. A comunidade hebraica de Segóvia foi uma das mais prósperas do Reino de Castela antes da expulsão decretada pelos Reis Católicos em 1492. No início do séc. XV, o edifício foi consagrado como igreja cristã e, mais tarde, transformado em convento.
É a mais bem preservada das cinco sinagogas que existiam na cidade e onde peculiarmente se encontra a mistura de ambas as religiões, combinando a arquitetura da antiga sinagoga principal do bairro judeu com a decoração cristã (com vários retábulos dedicados a São Francisco de Assis) da atual Igreja de Corpus Christi, integrada no Convento das Clarissas.
No coração do antigo bairro aristocrático, a Praça Medina del Campo resume a história de Segóvia com os inúmeros monumentos que a adornam: uma casa do século XV com uma alta galeria, a torre do Palácio do Marquês de Lozoya e a fachada plateresca da Casa de los Solier. A localização estratégica da praça fez dela um ponto de encontro e de mercado para os habitantes locais e viajantes que passavam pela antiga estrada romana que atravessava a região.
Aqui se ergue ainda um monumento de homenagem a Juan Bravo, um dos líderes da Revolta dos Comuneros (1520-1521), levantamento armado de cidades castelhanas contra a autoridade de Carlos V do Sacro Império, motivada pelo aumento de impostos, nomeação de estrangeiros e centralização do poder. O movimento, que terminou com a execução dos seus líderes, é visto como uma das primeiras revoluções modernas contra o absolutismo, simbolizando a resistência e a busca por liberdade.
No centro da praça ergue-se a bela Igreja de San Martín cuja origem remonta ao século XII, um claro exemplo da arte românica de Segóvia com influências moçárabes. A sua imponente fachada e torre com arcos cegos que descansam sobre colunas com capitéis românicos são exemplos notáveis da arquitetura religiosa da época.
Um pouco adiante, a Casa dos Picos, construída no último terço do século XV, é outro edifício a apreciar, com a sua distinta fachada pontiaguda coberta por 617 picos de granito e um pátio renascentista com azulejos de Talavera e que agora faz parte da Escola de Arte de Segóvia que abriga exposições regulares.
Passando pela Puerta de la Luna de um lado ou pela Puerta del Sol do outro, chegamos ao Paseo del Salón Isabel II de onde temos uma vista de parte do anel verde que rodeia a cidade e, à esquerda, do Alcázar. O Alcázar, erguido em posição dominante sobre um penhasco rochoso na confluência dos rios Eresma e Clamores, é uma antiga fortaleza construída no século XII mas que serviu, desde então, como palácio real, prisão do estado, Colégio Real de Artilharia e academia militar.
Era onde o rei Alfonso X, o Astrólogo, estudava o firmamento e foi onde a rainha Isabel aceitou financiar a viagem de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo, em 1492. É um dos mais distintos castelos-palácios em Espanha e diz-se que serviu de inspiração a Walt Disney para criar o Castelo da Cinderela.
Tem vistas esplêndidas para El Pinarillo (com o antigo cemitério judaico), a Igreja da Vera Cruz, o Mosteiro do Parral, a localidade de Zamarramala e as montanhas de Guadarrama.
A Muralha de Segóvia, com um perímetro de mais de 3.000 metros, rodeia a cidade e conserva 3 das suas 5 portas, entre elas a Porta de Santiago, uma via que faz parte do Caminho de Santiago, ao lado do Miradouro do Jardim dos Poetas, junto ao Alcázar.
Há outras igrejas que se destacam em Segóvia. A Igreja de San Esteban com a sua bonita arcada e a sua elegante torre românica, um marco inconfundível na silhueta da cidade, declarada Monumento Nacional em 1896. A Igreja da Santíssima Trindade, igreja românica construída no século XII sobre uma anterior do final do século XI, um dos templos mais bem preservados da cidade, com um interior humilde que abriga importantes obras de arte.
A Igreja San Clemente, igreja românica que remonta ao século XIII, com uma abside semicircular adornada com três conjuntos de arcos emparelhados e com frescos importantes no seu interior. A Igreja de San Millán, construída durante o reinado de Alfonso I, é um dos templos mais importantes, modelo das igrejas românicas segovianas, porque contém todas as características de seu tipo: influência islâmica (decorações e abóbadas no estilo islâmico), pórtico usado como ponto de encontro e campanário delgado traçando um perfil peculiar na cidade.
Dá gosto deambular pelas ruas estreitas e sinuosas de Segóvia repletas de edifícios históricos e tradicionais, muitos deles decorados com uma técnica milenar, o esgrafiado, que reveste as fachadas de casas nobres e entidades oficiais com motivos vegetais e geométricos.
E por todo o lado nos deparamos com locais onde comprar produtos típicos ou degustar deliciosas tapas espanholas. O nosso almoço foi no restaurante do Convento de Mínimos onde, entre outras iguarias, provámos os Judiones del Convento e o Cochinillo (leitão assado).
Viajámos para Ávila com a Serra de Guadarrama nevada no horizonte. Guadarrama é uma cadeia montanhosa do Sistema Central situada entre as serras de Ayllón (na província de Segóvia) e dos Gredos (na província de Ávila). Tem aproximadamente 80 km de comprimento e o seu pico mais alto é Peñalara com 2.428 m de altitude.
O perímetro verde à volta das muralhas de Ávila estava salpicado de neve. Ávila é a capital de província espanhola mais alta, a 1131m acima do nível do mar, situada junto ao rio Adaja, a noroeste de Madrid.
Foi fundada no século XI pelo Rei Alfonso VII. É conhecida pelo seu património material, constituído por monumentos de diversos períodos históricos com alto grau de conservação. Destacam-se as construções de estilo românico, como a muralha que protege a cidade e que remonta ao período da sua fundação, a Catedral del Salvador e a Igreja Basílica de São Vicente. Estes monumentos, bem como todo o centro histórico, foram declarados Património da Humanidade pela UNESCO em 1985.
As muralhas intactas da cidade medieval, com mais de 80 torres semicirculares com ameias e 9 portas, inclusive as portas de San Vicente e de El Alcázar com ogiva, são as muralhas mais extensas do país, com cerca de dois quilómetros e meio de comprimento e uma altura média de 12 metros.
A muralha pode ser percorrida em todo o seu perímetro exterior, o que permite entender o contraste entre a cidade antiga dentro das muralhas e a cidade moderna que cresceu ao redor. Também é visitável a parte mais elevada da estrutura, algo que proporciona belíssimas vistas da cidade intramuros. Este percurso não é contínuo devido à presença da Catedral de Ávila, cuja abside faz parte da própria muralha, algo realmente insólito.
A Catedral del Salvador de Ávila foi construída em estilo românico como fortaleza e como templo, colada à muralha. Em 1172, Alfonso VIII decidiu alargar o edifício original e encomendou o projeto ao construtor e mestre francês Fruchel que construiu a que é considerada a primeira catedral gótica da Espanha. O requintado interior alberga também um museu com uma pintura de El Greco e um esplêndido ostensório de prata de Juan de Arfe.
Está rodeada por várias casas ou palácios senhoriais, sendo os mais importantes o de los Velada, o de el Rey Niño e o de Valderrábanos, os quais tinham como função a defesa de La Puerta de los Leales ou del Peso de la Harina.
Ficámos instaladas precisamente no Palacio de Valderrábanos, reconvertido em hotel, conservando ainda a fachada gótica do século XV, com decoração figurativa, e uma torre reconstruída em 1877. Está situado mesmo ao lado da Catedral e daqui partimos para explorar a cidade, numa primeira fase sob a orientação de uma guia local.
A província de Ávila é rica em verracos de pedra, esculturas megalíticas de figuras zoomórficas como touros, porcos, javalis, que também se encontram noutras regiões de Espanha e Portugal (a ‘Porca de Murça’, por exemplo). Faziam parte da paisagem rural dos Vettones, um dos povos pré-romanos da Península Ibérica (séculos III-II a.C.) e, pela sua visibilidade em campos abertos, estes animais de pedra teriam algum significado religioso para a proteção do gado. Mais tarde, foram trazidos para a cidade para decorar praças e o interior de palácios. Alguns, de tamanhos maiores e mais naturalistas, foram provavelmente produzidos na Idade do Ferro, como o caso do enorme touro originário de Muñogalindo, conservado junto à fachada do Palácio Verdugo, casa-forte construída em finais do século XV.
Ávila testemunhou o nascimento de várias personalidades religiosas, escritores e conselheiros espirituais, como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Santa Teresa de Jesus, mais conhecida por Santa Teresa d’ Ávila, foi uma freira carmelita, mística e santa católica do séc. XVI, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças, que se tornou um símbolo da cidade presente até no seu doce mais popular: as gemas de Santa Teresa, um doce conventual de origem árabe. O Convento de Santa Teresa está situado na que foi a sua casa natal e junto ao qual se encontra o Museu de Santa Teresa.
Outros espaços religiosos de interesse: Basílica de San Pedro, destaca-se pelos seus tons avermelhados e pela impactante roseta, de estética cisterciense; Igreja românica de Santo Tomé El Viejo, instalada dentro do próprio Museu de Ávila; Igreja de San Andrés, um dos templos mais singulares do românico abulense; Igreja de San Martín, com a torre mais original da cidade, de influência mudéjar; Igreja de Nuestra Señora de la Cabeza, com uma cabeceira de pedra berroqueña e belos arcos das capelas da abside; Mosteiro Real de Santo Tomás, convento dominicano que é um dos monumentos mais emblemáticos da cidade.
No coração do centro histórico da “Cidade de los Caballeros”, localiza-se a bonita Plaza Mercado Chico (Praça do Mercado Pequeno), a praça principal da cidade intramuros, com arcadas em três lados e onde está o edificio do “Ayuntamiento” (Câmara Municipal) que remonta ao reinado dos Reis Católicos, a Igreja de San Juan, assim como lojas e bodegas onde se podem saborear tapas e pinchos, as deliciosas entradinhas espanholas.
Calcorreando a cidade amuralhada de Ávila, passamos junto à Puerta del Carmen e adiante visitamos o Museu dos Fornos Pós-Medievais onde, possivelmente durante o século XVI, foi construída uma oficina dedicada à produção industrial de peças cerâmicas. Situa-se no bairro de Adaja, na época uma zona industrial onde, devido à proximidade com o rio, se concentravam as atividades mais insalubres e que mais água consumiam: curtumes, tinturarias, tecelagens e moinhos de água.
Passando pela Puerta de la Adaja chegamos ao rio Adaja onde existe ainda uma Ponte Medieval. Terminamos a visita à cidade no Miradouro de Los Cuatro Postes, um monumento religioso, datado de 1566, formado por quatro colunas dóricas e uma cruz de granito no centro da estrutura, situado na margem esquerda do rio Adaja e que oferece uma vista panorâmica inigualável da cidade medieval de Ávila e das suas muralhas.
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