sábado, 12 de maio de 2012

FILIPINAS


Aterrei em Clark a 23 de abril num voo Air Asia com o Monte Pinatubo no horizonte, um estratovulcão ativo com 1486 metros de altura que, na sua última erupção em junho de 1991, provocou a morte de 800 pessoas e cujos efeitos foram sentidos em todo o mundo.
Logo me deparei com os curiosos e coloridos meios de transporte da cidade, os jeepneys e os tricycles, um símbolo nacional, para além do mais práticos e baratos.
Um jeepney conduziu-me ao centro de Clark onde me esperava a Olive, uma coreana ligada ao ensino de inglês à distância já que os filipinos, como eu viria a confirmar na minha viagem pelo país, são excelentes falantes de inglês. Levou-me de scooter para os seus aposentos onde usufruí do confortável 'couch' por uma noite.
No dia seguinte encontrei-me com a Anna, uma sueca que conheci nos primeiros dias em Kota Kinabalu no Bornéu, pois constatáramos que os nossos planos de viagem pelas Filipinas eram idênticos e pela mesma altura. Ficámos sempre em contacto e, depois de ela visitar o Japão e eu o Brunei, encontrámo-nos em Clark e daqui iniciámos a nossa viagem em conjunto pelo país.
Apanhámos um autocarro para Baguio, rumando a norte. Coisa 'estranha' é o facto de neste país se conduzir pela direita...
No entanto há sempre aquele algo especial que nos indica estarmos na Ásia, como por exemplo os numerosos e entrelaçados cabos elétricos que enfeitam as paisagens citadinas...
Depois de uma noite em Baguio continuámos de autocarro para uma zona montanhosa e mais fresca. A estrada serpenteando ao sabor da orografia, por entre vales atapetados e colinas cultivadas.
As Filipinas são um arquipélago de 7107 ilhas, de origem vulcânica, com uma área terrestre total de 300 mil km² e que são divididas em três grupos: Luzon, a norte, Visayas, no centro e Mindanao, no Sul. Aqui estamos em Luzon, a maior ilha, onde se encontra também a capital do país, Manila.
As recortadas montanhas, o luxuriante verde dos campos de arroz e algumas estradas menos boas (mas aqui em obras de melhoramento e manutenção) fizeram-me lembrar constantemente um outro país...
Sagada
Chegamos então a Sagada. E o que nos traz aqui? Caixões...
Um bizarro cemitério! Grutas no interior das rochas escarpadas alojam centenas de caixões com os restos mortais dos antepassados do povo de Sagada sendo também visíveis dezenas de caixões pendurados nas escarpas. Um ritual perpetuado por mais de 2000 anos. Diz-se que os caixões pendurados impedem os corpos de serem levados por animais e a alma do defunto voa assim mais livremente.
Via Bontoc seguimos de jeepney para Banaue e daqui de tricycle, mota com sidecar, para Batad, pequena povoação que acabamos por alcançar a pé já que não há estrada de acesso até lá.
A aldeia de Batad aninha-se no meio de terraços de arroz e aqui vive o povo Ifugao. Estes incríveis arrozais irrigados foram esculpidos nas montanhas há mais de dois mil anos e, tal como outros na zona de Banaue, estão inscritos no Património Mundial da UNESCO.
Podemos andar pelos estreitos carreiros que bordeiam o arrozal e qualquer lugar, acima ou abaixo da povoação, oferece vistas fenomenais para os terraços verdejantes que se dispõem em forma de anfiteatro.
Batad
Depois de uma noite numa 'homestay' em Batad, continuámos o nosso percurso circular, desta vez uma caminhada de três horas, sempre percorrendo sinuosas veredas, até chegarmos a uma estrada onde se nos deparou outro belíssimo cenário verde: a aldeia de Bangaan. Pena é que as tradicionais coberturas de colmo nas aldeias estejam a ser substituídas pelos inestéticos telhados de zinco.
Bangaan
De regresso a Banaue, abastecemo-nos no mercado local e despedimo-nos dos campos de arroz.
Banaue
E apanhámos um autocarro noturno para Manila.
Manila
Chegámos às cinco horas da manhã, apanhámos um táxi para a zona de Malate e procurámos alojamento numa 'pension' em conta. Como ainda não eram horas de check-in deixámos as mochilas guardadas na receção e partimos para a descoberta da cidade, a pé.
Não nos interessava visitar muito nem passar muito tempo nesta enorme cidade, a capital da República das Filipinas que, no entanto, é a sua segunda maior cidade em termos de população, depois da Cidade de Quezon, situada logo a norte. Mas nestas zonas mais turísticas por onde andámos, e apesar de sermos abordadas por alguns pedintes, não nos deparámos com situações perigosas ou então não fomos encontradas por elas...
O nosso interesse era conhecer Intramuros, uma zona murada dentro da cidade de Manila construída pelos conquistadores espanhóis no século XVI, a única que ainda mostra as influências arquitetónicas da era espanhola.
Igreja de Santo Agostinho
Santo Agostinho é a igreja mais antiga ainda de pé, nas Filipinas. Em 1993, era uma das quatro igrejas barrocas do país, construídas durante o período colonial espanhol, a ser designada como Património Mundial pela UNESCO.
Dentro da igreja encontra-se o túmulo do fundador da cidade em 1571, o conquistador espanhol Miguel López de Legazpi, que declarou Manila como a nova capital da colónia espanhola depois de ter sido obrigado a retirar-se de Cebu por piratas portugueses. Os espanhóis dominaram por mais de trezentos anos.
Catedral-Basílica da Imaculada Conceição
Em 13 de agosto de 1898, a bandeira americana foi içada no Forte de Santiago, marcando o início do domínio americano nas Filipinas que durou 48 anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Forte foi capturado pelo Exército Imperial Japonês que se dedicou a massacrar a população civil indefesa e enclausurou nas suas prisões e masmorras centenas de prisioneiros. 
Durante a batalha pela reconquista das Filipinas em 1945, toda a área de Intramuros foi bastante danificada pelos bombardeios navais e de artilharia, tanto pelos japoneses que a ocupavam quanto pelos norte-americanos que os atacavam.
Deixámos Manila e voámos para Cebu aterrando diretamente na Ilha de Mactan onde se encontra o monumento ao explorador português Fernão de Magalhães.
A ilha era um povoado muçulmano antes da chegada de Fernão de Magalhães em 1521 ao serviço do rei Carlos I de Espanha. A ele é atribuída a primeira viagem de circum-navegação da Terra, embora o próprio Magalhães não concluísse toda a viagem, pois foi morto precisamente nesta ilha de Mactan pelos guerreiros de Datu Lapu-Lapu, um dos chefes da ilha.
A expedição de Magalhães de 1519 a 1522 foi a primeira a navegar a partir do Oceano Atlântico para o Oceano Pacífico sendo a passagem feita através do Estreito de Magalhães e a primeira a atravessar o Pacífico (por si assim denominado por se apresentar sempre calmo).
Fernão de Magalhães introduziu as ilhas ao cristianismo e peregrinos constantes prestam culto à Cruz de Magalhães por ele aqui plantada.
A cruz está alojada numa capela ao lado da Basílica del Santo Niño na cidade de Cebu, na ilha com o mesmo nome ligada à ilha de Mactan por duas pontes.

Depois das visitas culturais, eu e a Anna apanhámos um ferry para a ilha de Bohol onde nos esperavam... as praias! Chegámos já noite, de tricycle, à pequena ilha adjacente de Panglao e passámos uma noite na Praia de Alona, a mais turística da ilha.
Alona Beach
Em busca de mais tranquilidade apanhámos um autocarro para a localidade de Panglao e daqui um jeepney para Doljo. Por todo o lado vemos belas igrejas e sinais da devoção religiosa deste povo, o mais católico da Ásia, com 75 milhões de fiéis.
Encontrámos a pequena povoação em festa, o que por toda a ilha de Bohol é uma constante no mês de maio.
Doljo conserva ainda muitas casas tradicionais feitas de esteiras de bamboo com telhados de nipa. Os habitantes locais vivem essencialmente da pesca e os turistas que por aqui se vêem são maioritariamente filipinos.
Instalámo-nos num agradável e económico resort mesmo diante à praia. Pagámos cada uma cerca de quatro euros por quarto amplo com ar condicionado e wc interior.
Os manguezais à beira-mar protegem a ilha de ventos e mar agitado e abrigam grande parte da biodiversidade de Panglao fornecendo o ecossistema ideal para a coleta de peixes e mariscos comestíveis como camarões, vieiras e mexilhões. Também atuam como lar para os maiores lagartos da ilha e são fonte de alimentação para muitas aves migratórias e áreas de nidificação seguras para aves residentes.
Mas o lixo, inclusivamente provocado pela passagem de navios, é já um problema para os ilhéus e também os mosquitos não nos deram muito descanso...
Daqui avistámos maravilhosos pores-do-sol, bem como a grandiosa lua cheia de maio e o brilhante planeta Marte.
Através da simpática dona do resort e dos seus influentes amigos conhecemos imensa gente e fomos convidadas para inúmeras fiestas! Abastança de comida, principalmente carne, não faltando o leitão em qualquer boa mesa...
Foram também estes amigos filipinos, gente educada e de posses, que nos passearam por outros resorts e nos proporcionaram um dia em cheio de visitas aos pontos mais turísticos de Bohol, começando por Tagbilaran, a capital da ilha. E nem as refeições nos deixaram pagar...
Aqui se encontra o monumento ao Pacto de Sangue celebrado entre o explorador espanhol López de Legazpi e Sikatuna Datu, o chefe de Bohol, em 1565, considerado o primeiro tratado de amizade entre os espanhóis e filipinos. Um pacto de sangue foi também estabelecido entre o explorador Português Fernão de Magalhães e Humabon Rajah, o chefe de Cebu.
Baclayon, Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição
Batuan, shiphaus, casa-navio
Finalmente visitámos os 'Chocolate Hills', as 'Colinas de Chocolate', um dos famosos atrativos naturais na província de Bohol. Durante a estação seca, a grama que cobre as colinas seca e vira cor de chocolate originando esta designação.
Trata-se de uma formação geológica invulgar, montes cársticos cónicos, criados por uma combinação da dissolução dos calcários pela chuva, águas superficiais e subterrâneas e a sua erosão subaérea por rios e córregos, depois de terem sido elevados acima do nível do mar e fraturados por processos tectónicos. Estes calcários contêm fósseis de vida marinha, corais, moluscos e algas.
Em seguida alimentámos macacos de rabo comprido numa reserva natural e apreciámos (e tocámos) noutros animais exibidos numa quinta...
Mas a especial atração de Bohol é o pequenino e engraçado Tarsier, um dos menores primatas conhecidos, não maior do que a mão de uma pessoa adulta. Estes animais são mais ativos à noite e alimentam-se de insetos.

No final da minha estadia em Bohol, e depois de me ter despedido da Anna no dia anterior, tive ainda a oportunidade de presenciar um casamento enquanto confraternizava com novos amigos. Que 'estranho' ritual neste país asiático, a noiva vestida de branco...
Passei a última noite nas Filipinas numa homestay perto de Tagbilaran onde jantei com o confrade Buloy, o principal responsável por todos os nossos agradáveis passeios e fiestas em Bohol e Panglao.
No ferry de regresso a Cebu conhecia a Alexa, uma alemã que vinha encantada com as ilhas filipinas, principalmente Siquijor, ligada a lendas de bruxas e feitiçarias. Ambas apreciadoras da saborosa comida de rua, despedimo-nos no mercado antes de eu rumar para o aeroporto. O seu voo com destino a Manila, e daí de regresso ao seu país, seria o mesmo que o meu mas no dia seguinte.
Mas teve azar! No último dia em Cebu deixou-se ir na conversa de uma simpática senhora que estava acompanhada pela sobrinha. Depois de duas horas de alegre convívio convidaram-na para ir a casa delas... Foi apanhada nas redes da máfia e depois de um susto de morte teve que pagar uma enorme quantia para a libertarem. Chegaram-me notícias dela ontem mesmo, estava ainda nas Filipinas a aguardar o regresso à Alemanha com a ajuda da embaixada do seu país... Há, pois, que ter cuidado!




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